"Os Estados Unidos foram longe demais com o mercado. A pureza do ar e da água não se deve ao mercado". Entrevista com Nicholas Negroponte

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07 Agosto 2019

Consideram-lhe profeta da tecnologia porque muitas de suas previsões foram cumpridas. Alguns líderes de opinião riram quando disse, nos anos 1980, que leríamos com tinta eletrônica e pediríamos o jornal em computadores.

Ou quando previu a chegada de telas sensíveis ao toque. Nicholas Negroponte prefere chamá-las de extrapolações, porque ele e sua criação, o famoso MediaLab do Massachusetts Institute of Technology - MIT, estavam trabalhando nesses dispositivos desde os anos 1970.

No hotel Marriott, convidado pela Expoteleinfo, ocorreu esta conversa.

Com seu inglês nova iorquino, extremamente educado e quase aristocrático, convida para sua conferência, na qual dirá que o futuro está na fusão nuclear (diferente da fissão), na biotecnologia para eliminar doenças e nas cidades sem estradas e autônomas, ao extremo de criar sua própria energia, inclusive aproveitando as fezes.

A Bolívia está entre as memórias de sua juventude: “Visitei La Paz quando era estudante universitário. Tenho 75 anos agora”.

A entrevista é de Javier Méndez Vedia, publicada por El Deber, 03-08-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Uma breve lista de suas previsões e extrapolações inclui tinta eletrônica e telas sensíveis ao toque. Que extrapolações e previsões podemos ouvir agora para o futuro?

As extrapolações realmente significam que você está fazendo o trabalho. Isso é muito mais fácil de extrapolar. Eu faço menos agora, em parte porque tenho alguma distância e também porque se referem a áreas sobre as quais eu não sei muito. Claramente, o futuro digital é biotecnológico. Estou totalmente convencido.

Mas, isso se encaixa mais em uma previsão do que em uma extrapolação, porque não estou fazendo biotecnologia. Estou animado, acredito firmemente que é uma força madura, mas não posso dizer o mesmo sobre as coisas em que trabalhei pessoalmente há 25 anos, como telas sensíveis ao toque.

Você prevê que o conteúdo poderá ser tomado em pílulas. O que tomaria além de uma pílula de Shakespeare e outra de francês, como menciona em seus exemplos?

Eu tomaria pílulas de livros sobre ciência e tecnologia. Particularmente, sobre ciências naturais. Eu sinto que não aprendi o suficiente sobre ciência dos materiais, química e biologia. Agora, que as vejo convergindo com a engenharia, tomaria uma pílula de ciência.

Portanto, o futuro está na biotecnologia.

Sim, acho que a chave do futuro consiste no fato de que o mundo natural e o mundo feito pelo homem estão se convertendo na mesma coisa. Em outras palavras, podemos fazer coisas cada vez menores, como a natureza, e podemos aplicar engenharia e aprender com a natureza, mas, às vezes, podemos fazer melhor que a natureza.

Portanto, eliminar doenças e fazer modificações genéticas para levantar edifícios pode soar como fantasia, mas é o futuro.

Em suas palestras, você dá mais importância à aprendizagem do que à educação. Como você diferencia as duas palavras?

"Aprendizagem" não é uma palavra ruim como "educação", porque a educação tende a estar em um sistema. O sistema é implantado para permitir que o ensino ocorra, e se supõe que isso é aprendizagem. Nesse sentido, a aprendizagem é o que você faz para si mesmo e ensinar é algo que alguém faz para você. Há muitas maneiras de aprender, e o ensino é apenas uma dessas maneiras.

Não é irrelevante, mas é apenas uma maneira. Você pode aprender descobrindo, pode aprender experimentando coisas de maneiras que não são exatamente ensinadas, mas se aprende nas imersões.

Imitando?

Também, sim, através de imitações. Existem muitas maneiras de aprender. Não é que o ensinamento seja ruim. O mais negativo é que a educação é subitamente um sistema. E queremos avaliar os efeitos do sistema. Portanto, criamos graus, nos dois sentidos da palavra em inglês. Graus no sentido de 1, 2, 3, 4, 5, através dos quais há progresso, o que provavelmente não é uma boa ideia. Talvez você deva ter filhos de várias idades estudando juntos.

Como fazem talvez os finlandeses?

Como Montessori fazia. Então, você não deveria ter graus no sentido de a, b, c, d, especialmente nos primeiros anos. Isso cria um ambiente competitivo que simplesmente não é necessário. Isso muitas vezes suprime a aprendizagem.

Você acabou de mencionar a Finlândia. Na Finlândia, há uma ênfase maior na colaboração do que na competição. É um tipo de aprendizagem totalmente diferente, é muito importante.

Temos, então, que mudar a escola para permitir que as crianças aprendam de si mesmas?

Nem tudo sozinhas, mas você pode mudar a escola para torná-la menos competitiva, menos segregada por idade e para que haja mais tempo de jogo, mais tempo para fazer coisas e experiências de colaboração. Creio que essas são as principais mudanças que devem ser feitas.

Essas mudanças estão acontecendo em seu país, nos Estados Unidos?

Os Estados Unidos não são um bom exemplo. Nós criamos um sistema educacional extremamente imperfeito. Temos muitos distritos escolares diferentes que operam de maneiras diferentes. É um pouco caótico. Eu não olharia para os Estados Unidos. Eu gosto do que está acontecendo na Finlândia e na Suécia, países nórdicos... por outro lado, não gosto do que está acontecendo em Cingapura. Eu não acho que a Cingapura seja um modelo para o futuro.

Talvez Cingapura seja muito competitiva?

É um modelo muito competitivo, muito regulamentado. No entanto, são tão inteligentes que estão tentando mudar isso. Espero que façam.

Falando em competição ... você disse que o capitalismo não é democracia. Por quê?

Nós crescemos em um erro. O capitalismo tem sido tão incansável, tão egocêntrico ao dizer a nossos filhos que têm que ganhar dinheiro e que isso é sobre eles (sempre Eu, a primeira pessoa singular), que tudo é sobre “mim”, mas não temos um sentido de 'nós'.

Senso de comunidade

Não nos levantamos porque todos vamos estar melhor. A democracia não é realmente acerca de que todos podemos votar, para mim, significa que todos se ergam simultaneamente. O capitalismo vem com a suposição de que o setor privado sempre pode fazer melhor do que o setor público. Muitas coisas que o setor público deveria estar fazendo, às vezes, são entregues ao setor privado. Penso que vamos caindo, caindo e caindo no que o capitalismo nos custou. Vou mais longe e digo que é por isso que temos Trump.

Não é pelos supremacistas brancos do centro dos Estados Unidos, mas pelas escolas de negócios, pelo capitalismo e porque tudo é competitividade e corporações e o conceito de valor de troca. É realmente um conceito improdutivo da mentalidade mundial. E é a base do nosso mundo dos negócios!

De longe, parece que o capitalismo transformou os Estados Unidos em um país grande e poderoso. É um erro?

Diria que foi mais pelo individualismo, senso de aventura, coragem e várias outras coisas. Não estou sugerindo nem por um momento que nos tornemos um país comunista, de maneira alguma. Mas, quando ouvimos os jovens falando sobre socialismo, não necessitam dele da maneira que a maioria das pessoas mais velhas ouviram. Necessitam disso em termos de "nós" em vez de "eu". Penso que esse é o desenvolvimento mais importante.

Então, no futuro, o mercado vai mudar, já que o capitalismo não é democracia e o mercado está relacionado com o capitalismo?

Não creio que as forças do mercado são as mais importantes. As forças do mercado farão certas coisas, mas não podem fazer outras. É preciso conseguir um bom equilíbrio e agora nós não temos. Fazemos quase tudo devido às forças do mercado, sabe? O mercado não fornece muitas das coisas que amamos na vida. As coisas que tornam a vida boa, a qualidade da sua vida, não são feitas pelas forças do mercado. Na realidade, são forças regulatórias. O ar puro não é graças ao mercado, o mercado não criou nem ar puro, nem água pura, nem nossas calçadas (ou nossa infraestrutura). O mercado não. Isso faz parte da sociedade civil. É uma economia diferente que criou nossos bens comuns através de impostos. Os Estados Unidos foram longe demais com o mercado. Esse é um lado da equação.

Em suas múltiplas reuniões com chefes de Estado, alguma vez lhe mencionaram as crianças como seu “recurso” natural mais valioso?

Não ... eles não usam essa expressão. Quando uso essa expressão, as pessoas ficam encantadas. Costumam dizer "sim, isso mesmo, eu não tinha pensado sobre isso." Para muitas pessoas, é uma frase à qual reagem positivamente. Isso é benéfico.

(Negroponte se reunia frequentemente com mandatários para falar seu projeto “Um Laptop por Criança”, que chegou a 40 países. O projeto, que forneceu milhares de computadores para crianças de países carentes em vários continentes, perdeu força, mas não desapareceu).

 

A Bolívia estava no projeto “Um Laptop por Criança”?

Estava incluída porque Marcelo Claure (o fundador boliviano da multinacional Brighstar Corporation) estava muito envolvido. Ele era muito importante no projeto Laptop. Mas, não temos muito impulso na Bolívia. O Uruguai tomou a iniciativa com muita força. Naquela região, havia alguém que estava se movimentando com uma coordenação efetiva e uma grande escala. Nós nos concentramos na África, no Sudeste Asiático e em outros lugares onde não tivemos esse tipo de impulso. Estivemos um pouquinho ausentes quando se tratava de acompanhar o Peru e um pouco menos na Argentina. Também estivemos ausentes na Colômbia, Bolívia e Chile.

A Bolívia iniciou um programa (não muito bem-sucedido) para fornecer computadores para professores e alunos.

Certamente, não é necessário usar nossos laptops, apenas a ideia.

Por que o programa “Um Laptop por Criança” foi inicialmente bem-sucedido?

O mais exitoso, sem dúvida, foi o Uruguai, por duas ou três razões. Uma foi que o presidente (Pepe Mujica) assumiu um compromisso público cedo, em seu primeiro mandato. Disse que cada criança teria um laptop. Assim que o presidente disse isso, aconteceu como eletricidade: todo mundo disse "muito bem, vamos fazer isso". Em outros países, houve declarações de alguém equivalente ao presidente, que disse "vamos fazer alguns laptops e vamos garantir que você consiga o seu primeiro".

A outra razão pela qual o Uruguai se saiu tão bem foi que puderam montar uma equipe que continuou com a distribuição, os operadores e o treinamento dos professores. Tinham centenas de pessoas trabalhando no tema, em tempo integral. Isso foi diferente de qualquer outro país. Alguns países compraram apenas os computadores e esperaram o melhor. O Uruguai foi diferente.

(Negroponte disse que o ideal é que existam países entre quatro e oito milhões de habitantes - como o Uruguai - e que o poder seja gerenciado a partir das cidades).

Talvez o tamanho do país influenciou.

O tamanho fez a diferença, porque não se pode dizer "eu farei" em todos. É difícil se alguém é o presidente da Índia ou da China.

Ou, inclusive, do Brasil.

E mesmo o Brasil, por exemplo. Lula estava animado e foi maravilhoso. Mas, não podia dizer que alcançaria todas as crianças. Era muito grande.

Agora que chegou a televisão à demanda, como também disse, alguém está interessado em contar uma série sobre sua vida?

Eu estaria em uma lista ruim de filmes. Talvez eu tenha conhecido pessoas interessantes porque estava no MediaLab. Eu gostei, mas no final a história vai lembrar de mim como servidor civil, não como cientista. Criei o ambiente para outras pessoas fazerem seu trabalho e tenho orgulho, mas com isso não se faria um bom filme.

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