"O Opus Dei diante de um verdadeiro problema"

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24 Julho 2019

“A inegável realidade da obra do jesuíta aragonês Francisco Javier Hernández (redescobrimento e características que mostra em comparação com o Caminho) supõe um autêntico golpe para aqueles que no Opus Dei vem insistindo na originalidade absoluta de seu carisma, pois, teria sido conhecido no marco de alguns exercícios espirituais pela ação do Espírito Santo. Vamos ver o que acontece! Temo o pior: o silêncio”, escreve Gregório Delgado del Río, em artigo publicado por Religión Digital, 22-07-2019. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

É o que faltava! Sabe-se muito bem que as relações do Opus Dei e da Companhia de Jesus foram desde o início "tempestuosas". Com mais ou menos acertos, esses grupos foram frequentemente enquadrados como, presumidamente, "fundamentalista", o primeiro, e "progressista", o segundo. Este desejo de definição do Opus Dei se refletiu na própria orientação que imprimiu ao pontificado de João Paulo II (seu grande suporte à sombra) e da Companhia de Jesus na orientação do atual Papa Francisco (também seu grande suporte à sombra).

São, na realidade, pontificados muito diferentes, opostos, às vezes até contraditórios, em muitos casos. Na Igreja, depois do Concílio Vaticano II, abundam as invejas, as discórdias, as divisões, as fofocas e, por vezes, até mesmo a passagem de supostas fraturas (vinganças). Alguns dizem: eu sou de João Paulo II. Outros dizem: eu sou de Francisco. E nestas caminhamos emaranhados e confrontados, divididos, separados, esquecidos, no fundo, do que se diz querer transmitir: a mensagem evangélica.

Claro, tudo de uma forma muito eclesiástica, isto é, em silêncio, sem manifestações sonoras ou provocativas estridências. Tudo, na aparência, como muito razoável e humano, mas muito clerical, isto é, muito falso e muito hipócrita e muito distante do Deus que edifica (1 Cor 3). Algumas das resistências atuais ao Papa Francisco tem a ver, presumidamente, com as reformas que ele pretende realizar, que são vistas como emendas a João Paulo II, isto é, como correções para aqueles que as sugeriram e as empurraram para a sombra. Em suma, o estado reformista de Francisco (claramente contrário à linha restauradora de João Paulo II) veio agitar ainda mais as relações já precárias.

Estando assim as coisas, salta a notícia. Segundo Ángel Gómez Moreno, em Archiletras Científica, Caminho, livro fundador do Opus Dei, “baseia-se em parte de seu conteúdo em uma obra escrita e publicada em meados do século XVIII por um jesuíta aragonês, Francisco Javier Hernández, muito popular em seu tempo porque teve pelo menos sete edições, em pouco mais de quarenta anos, e depois foi praticamente esquecido.”

Na primeira edição da revista de pesquisa, o professor da Universidade Complutense analisa El alma victoriosa de la pasión dominante, a obra do jesuíta F. J. Hernández, publicada em 1758, e a compara com Caminho. Nesta comparação, o ilustre professor de literatura “descobre certas coincidências entre os dois e chega à conclusão que as ideias essenciais do jesuíta aragonês formam a estrutura central da obra fundadora do Opus Dei.

Entre elas, o professor de literatura destaca as premissas de santificar a vida através do trabalho, o uso de tábuas feitas manualmente e impressas para o exame de consciência e a oração da manhã ao se levantar, a fim de superar a preguiça com a ajuda do anjo da guarda, a quem é dada especial importância” (El Diario, Religión digital, Crónica global, etc.). Para o autor do trabalho em questão, as mencionadas coincidências constituem uma "prova irrefutável de que Escrivá de Balaguer leu Hernández" (Ibidem).

Além disso, para indicar coincidências, poderíamos nos referir, por exemplo, a 'pedir cruzes ao Senhor', ao exame particular e geral da consciência, ao cumprimento das obrigações diárias, à retidão da intenção, à leitura espiritual, à conformidade com a vontade de Deus, ao Diretor e Dirigido, à presença de Cristo (Paixão/Via Crucis), às Preces (oração privada), à oração do Rosário, ao descanso ('entretenimento honesto'), etc., etc.

Segundo a informação do jornal El País (05-07-2019), que falou anteriormente por telefone com o professor Gómez Moreno, não há dúvida “sobre o quanto têm em comum” o texto de Hernández e o livro de Escrivá de Balaguer, Caminho, o mais importante do Opus Dei. O professor do Complutense fala de "coincidências fundamentais no objeto, no propósito final e no modo de consegui-lo". Foi, com efeito, reconhecida pelo Opus Dei “toda uma tradição de obras ligadas à ordem religiosa católica fundada por Santo Inácio de Loyola, em 1534” (El País).

Além dos Exercícios Espirituais, podemos lembrar de Santo Alonso Rodríguez, ‘Exercício da perfeição e virtudes cristãs’ (Porteiro do Colégio Nossa Senhora de Montesión, em Palma, durante 32 anos), Fr. Willie Doyle, sacerdote jesuíta irlandês, a quem Escrivá distingue como ‘aquele homem de Deus’, no n. 205 do Caminho. Como ressaltou o professor de Madri, "são vários os textos jesuíticos que têm coincidências, mas com o qual tem mais em comum é com o de Hernández".

Que curiosidade! O Opus Dei, que, com efeito, reconheceu e declarou os textos jesuítas que, sem dúvida, Josémaría Escrivá lidava e conhecia muito bem e que, inclusive, editou (Ed. Palavra) a Introdução à Vida Devota de São Francisco de Sales, que inspirou todos os autores subsequentes deste gênero e que, através do "Instituto Histórico de São Josémaría Escrivá", vem realizando uma grande promoção de estudos históricos sobre a obra de seu fundador e que editou Caminho. Edição comentada por Pedro Rodríguez. E ainda - por mais estranho que pareça - nem sequer menciona aquele com quem tem mais coisas em comum, o jesuíta aragonês Hernández, autor de El alma victoriosa de la pasión dominante. Como se explica que a obra do jesuíta aragonês ("estrutura central da obra fundadora do Opus Dei"), muito popular e bem-sucedido na sua época, não foi reconhecida ou declarada nas diferentes publicações do Opus Dei sobre as verdadeiras fontes de Caminho?

Não será fácil encontrar uma resposta convincente, a menos que o estudo (e os dados e circunstâncias) do Prof. Gómez Moreno careça - e não parece - de qualquer fundamento. Por este motivo, temo que aqui se aplique aquela máxima “se não sabia, ruim. E se sabia, pior”. De qualquer forma, se considerarmos os critérios de Constantino Anchel, um membro do Instituto Histórico ("seria uma boa notícia confirmar que São Josemaría tinha conhecimento do trabalho de Francisco Javier Hernández"), no Opus Dei não se sabia. Ou seja, Josémaría Escrivá não teria mencionado nada aos seus colaboradores mais próximos sobre o trabalho do jesuíta aragonês e o possível impacto espiritual causado por sua leitura. Mas, no fundo, essa hipótese interpretativa (não se sabia) implicaria culpar, de alguma forma, o próprio fundador, que sairia muito mal e também obrigaria a desmontar o estudo do professor Complutense.

E se sabia? Nesse caso, pior. Presumidamente, teria escondido, isto é, não teria declarado, nem reconhecido. Teria se referido a diferentes fontes de origem diversa ("tradição cultural e religiosa" da Espanha e da Igreja de seu tempo), mas aquela de quem, supostamente, se serviu mais intensamente, não teria declarado, nem reconhecido. As coisas, às vezes, se torcem e vem à luz, como afirma o texto evangélico. O Opus Dei se encontra, portanto, diante de um verdadeiro problema, que exige uma explicação completa que dissipe qualquer dúvida razoável. Só falta optarem pelo silêncio como resposta. Sua já debilitada credibilidade pode despencar.

Apesar de todos os problemas anteriores, creio - com um bom amigo, vítima da "damnatio memoriae", que prefere permanecer no anonimato - que a descoberta do Prof. Gómez Moreno nos coloca diante da verdade do Opus Dei e do seu fundador. Não se trata de desmerecer o Opus Dei, muito menos o seu fundador. Ocorre simplesmente que há muitos que podem entender (não sem fundamento) que a aparição da obra do jesuíta aragonês questiona e, de certa forma, desmente a originalidade de sua mensagem.

Uma mensagem que, de qualquer modo, pode ser válida para aqueles que a entendem e adotam, mas duvidosamente original. É verdade que Escrivá de Balaguer sempre disse (como afirmado no prólogo de ‘Caminho’): "Não lhe direi nada de novo". E, com efeito, não contém grandes novidades ou originalidades. Existe, pelo contrário, uma corrente clara e poderosa de literatura espiritual (Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Sales, Santo Alonso Rodríguez, Francisco Javier Hernández) na qual Josemaría Escrivá se inspirou, sem dúvida, declarada e reconhecida ou não por ele e por "seus filhos". Além disso, é possível detectar facilmente aspectos essenciais e muito definidores da espiritualidade do Opus Dei (estrutura e arcabouço). Onde, então, está a originalidade do carisma?

Aqui reside, na minha opinião, o problema. A inegável realidade da obra do jesuíta aragonês (redescobrimento e características que mostra em comparação com o Caminho) supõe um autêntico golpe para aqueles que no Opus Dei vem insistindo na originalidade absoluta de seu carisma, pois, teria sido conhecido no marco de alguns exercícios espirituais pela ação do Espírito Santo. Vamos ver o que acontece! Temo o pior: o silêncio. Até logo!

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