O que há por trás do voto. Entrevista com Ryan Carlin

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08 Julho 2019

O pesquisador explica o comportamento eleitoral do eleitor latino-americano e analisa os fatores que subjazem sua decisão. A cultura política, a identidade partidária, os grupos de pressão... O caso argentino.

A entrevista é de Bárbara Schijman, publicada por Página/12, 08-07-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Em meio às definições políticas nesse período próximo às prévias – PASO –, o cientista político norte-americano Ryan Carlin conversou com Página/12 sobre as motivações do voto e os fatores em jogo. Co-editor da The Latin American Voter (2015) e da The Ideational Approach to Populism: Concept, Theory and Analysis (2019), o especialista destaca como influenciam o pertencimento de classe, a religião, as identidades étnicas e o gênero, na hora de emitir o voto na América Latina, Europa e Estados Unidos. Estudioso da história política da região, examina a fórmula presidencial Alberto Fernández-Cristina Fernández Kirchner, a escolha de Miguel Angel Pichetto como candidato a vice da situação e as estratégias por trás das mesmas.

Eis a entrevista.

Em The Latin American Voter você analisa distintos aspectos do comportamento eleitoral latinoamericano. A partir do seu estudo, o que influencia na decisão do voto?

Em princípio, há que se dizer que o comportamento do voto na América Latina não é muito diferente do comportamento do voto nos Estados Unidos, ou na Europa inclusive. Os mesmos fatores tendem a influenciar mais ou menos da mesma maneira: classe social, religião, identidades étnicas e gênero. Claro que sempre é preciso atender a demanda social latente, como aconteceu no Brasil com influência dos evangélicos. Caso se apresenta uma mulher, por exemplo, surge com força o voto feminista, como se vê na Europa ou nos Estados Unidos. No entanto, se competem dois homens brancos de classe alta é difícil observar os efeitos de identidade. Acontece o mesmo com o voto de classe e a ideologia. Quando há um personagem de esquerda muito forte, como Evo Morales na Bolívia, se vê claramente que a ideologia e a classe influenciam.

O que acontece com a identidade partidária?

Os candidatos necessitam ativar esses mecanismos clássicos do voto. Em quase todos os países da América Latina essa identidade é baixa, diferente do que se observa nos Estados Unidos. Estamos vivendo uma tendência à polarização. Na América Latina, salvo algumas exceções, vemos uma identidade partidária muito fraca. Esses fatores que menciono tendem a influenciar quanto mais diferem as propostas dos candidatos; se oferecem o mesmo, se seus programas de governo não se distinguem realmente, então na hora de votar essas diferenças já não importam tanto. O que sim, se observa na América Latina e na Argentina, especificamente, é um forte voto retrospectivo.

O que é o “voto retrospectivo”?

Voto retrospectivo alude à ideia de utilizar o voto como prêmio ou castigo; um sim ou um não ao governo de turno. São as avaliações da sociedade ao desempenho do governo, em geral, com foco na economia, corrupção e insegurança. Na Argentina, o fator que explica o triunfo de Cambiemos, em 2015, em boa medida foi a desaprovação de Cristina Kirchner. Esse comportamento eleitoral não chama a atenção, porque se não se vota por identidade partidária, e se os temas, por assim dizer, se os vínculos temáticos não são muito distintos, então o voto somente pode ser utilizado para premiar ou castigar. Não há escolha por programa político. Em geral, os eleitores da região empregam racionamento de prêmio ou castigo na sua decisão de voto. Não é que o voto retrospectivo não exista nos Estados Unidos ou Europa; existem, porém não é tão dominante como na América Latina. Nos Estados Unidos, a eleição de um candidato é mais ideológica, partidária, e baseada em vínculos temáticos.

Você sustenta que o votante latino-americano se parece em muitos aspectos ao votante dos países democráticos mais avançados. Em que se assemelha e no que não?

Em linhas gerais, o que direciona o voto nos dois contextos tende a ser o mesmo. A diferença é o grau de influência que tem cada um dos fatores. E isso é geralmente mais estável com o passar do tempo e entre as democracias avançadas que na América Latina. Isso tem mais a ver com o contexto em que acontece a eleição que com o eleitor. Se nenhum candidato ou partido usa sua identidade social – seja de classe, étnica, religião ou gênero – para mobilizar ao eleitorado, então a nível do eleitor, essas características não terão uma influência significativa sobre o voto. Quando os partidos políticos carecem de visões claras e singulares, a identidade partidária perde sentido e as preferências ideológicas e temáticas dos votante não sempre se correspondem com o que votam.

Qual o grau de ingerência tem a cultura política no comportamento eleitoral?

A cultura política corresponde às normas e expectativas que a sociedade mantém acerca do político. Por exemplo, alguns estudos realizados mostram que na Argentina o eleitorado tem mais ou menos as mesmas expectativas profundas sobre o papel do Estado na economia, mais além de temas políticos específicos. É parte da cultura política argentina. Talvez a maior distinção cultural entre as democracias mais avançadas e as democracias da América Latina seja o clientelismo. A norma é que os políticos ofereçam algo a curto prazo em troca do voto. Em algumas instâncias essa norma se reproduz ao longo do tempo, e em outras somente aparece na temporada eleitoral. Seguramente não toca a todos os eleitores latino-americanos, e sim chega a alguns eleitores de democracias avançadas. A amplitude do fenômeno varia muito na América Latina, porém é um fator cultural inegável quando se aproximam períodos eleitorais na região. O uso disso na Argentina inspirou muita pesquisa científica. O clientelismo está relacionado com o caciquismo. De novo, não implica que todo eleitor latino-americano atue por esse motivo, porém sem partidos políticos fortes, a norma de seguir os caciques locais e inclusive nacionais segue vigente em vários rincões da região.

The Latin American Voter introduz a ideia de “funil da causalidade” para explicar a formação do voto. Poderia explicar o conceito?

A noção de “funil de causalidade” se refere à formação do voto, que começa com as identidades baseadas em distinções atributivas. Se supõe que a adesão do votante a uma identidade social provê uma fundação primária e durável ao voto. Logo, se alguém se aproxima da política e adquire uma identidade política que é eletiva (não atributiva), como o partidarismo e a ideologia. Esses fatores, em princípio, são de longo prazo. Os temas do dia, os atributos dos candidatos e as campanhas são de curto prazo. A metáfora do funil de causalidade, então, ilustra que o voto é resultado final de uma variedade de fatores explicativos da realidade social. Esses fatores definem as orientações políticas, partidárias e ideológicas do povo, e vão se reduzindo e especificando em fatores ligados às campanhas, os temas e os candidatos específicos de um processo eleitoral. Desse modo, os modelos explicativos do voto tem em conta variáveis estruturais (traços socioeconômicos, demográficos e geográficos) e as identidades (orientações ideológicas e partidárias) de longo prazo e opiniões de curto prazo influenciadas pelo contexto econômico, os candidatos, a informação das campanhas e outras temáticas relevantes.

Como influencia o respaldo de organismos multilaterais ou organizações financeiras a um determinada candidato ou partido?

Em geral, o que a sociedade conhece sobre essas questões depende do que conta e informa a classe política. O governo de Macri pôs à Argentina no bolso do FMI. Porém isso, o que significa para os eleitores? De um tema tão complexo é de esperar que o homem comum não compreenda muito. O que se escuta são explicações conflitivas, que colocam a culpa do FMI em Macri ou aos Kirchners. O que fazer então? Sem saber a quem responsabilizar, não pode se castigar ou premiar ninguém por essas políticas. Portanto, duvido que ao fim tenha real influência nos votos de um candidato determinado. Se algum candidato consegue simbolizar o apoio do FMI como um afronte à identidade nacional, a história será outra. Seria uma boa aposta política.

Como analisa a fórmula presidencial Alberto Fernández-Cristina Fernández Kirchner?

Creio que o jogo de Cristina para nomear Alberto Fernández foi genial. Uma genialidade própria de um animal político. Se nos guiamos pelo voto prêmio/castigo, nas últimas eleições o eleitorado castigou os K. Dada as circunstâncias é muito provável que desta vez o voto castigo vá contra o presidente Macri. Creio que em virtude do passado recente, sobre o que Macri tenta responsabilizar Cristina Fernández, o mais conveniente para a ex-presidenta era não encabeçar uma fórmula, mas sim alguma outra pessoa muito central no movimento. E escolher alguém do mesmo sobrenome ajuda muito em termos do marketing político.

Do lado do governo, que lhe parece a escolha de Miguel Ángel Pichetto como candidato a vice?

Ao escolher Pichetto, Macri busca conquistar o eleitor mediano, aquele que divide o espaço ideológico do eleitorado em metade-metade. A estratégia assume que o candidato pode fazê-lo e seu rival não. O que está por se ver é onde se situa o eleitor médio argentino em 2019. Ao que parece, Macri o localiza na fronteira do kirchneristas e o Partido Justicialista não-kirchnerista. Macri atirou os dados e já veremos como vai. Aos eleitores, em troca, não simplifica o voto; ao contrário. Essa jogada de Macri serve para diluir ainda mais as marcas partidárias. Depois de décadas construindo sua própria marca contra o PJ, e armando uma coalizão bastante estável, agora mancha sua marca na busca da reeleição. Se o PRO e Cambiemos conseguem ordenar o sistema de partidos ao redor de um eixo K/Não-K, terá válido a pena; do contrário haverá mais volatilidade e menos competência programática daqui em diante.

Que cenário vislumbra para eleição de outubro na Argentina?

Imagino uma eleição bastante estreita. O governo recorre ao contexto mundial para justificar sua gestão; sua linha de argumentação aponta à má economia mundial. Porém não estamos falando do cenário imediato que seguiu ao fim do boom dos commodities, quando a baixa demanda global lançou o mundo a uma recessão. Europa voltou a crescer, Estados Unidos está crescendo, China pode estar um pouco por baixo do seu nível médio de crescimento, porém segue crescendo. Dito isso, o problema de Macri é que nem sequer pode descolar com um contexto econômico internacional bom. O governo despiu uma enorme falta de criatividade, de habilidade política, de incapacidade para tomar decisões.

O que explica a tendência crescente a eleger, em certos países, candidatos da antipolítica? Nesse contexto, o que acontece com as lealdades partidárias e os partidos tradicionais?

Nos últimos anos observa-se, em alguns países, que os eleitores não querem nem um candidato, nem outro, que consideram seu voto “antipartidário” que fazem uma eleição pelo “mal menor”. Em ocasiões, os eleitores deixam de se identificar com um partido político para se identificar contra um partido – o fenômeno “partidarismo negativo”. Quando isso acontece se coloca a mesa para o surgimento de líderes populistas ideacionais, com mensagens e discursos “a favor do povo” e “contra os líderes tradicionais”. Maniqueísmo puro muitas vezes. Algo assim aconteceu no Brasil. Os problemas de corrupção consolidaram o partidarismo contra o Partido dos Trabalhadores e deixaram a mesa posta para que avançasse um personagem como Jair Bolsonaro, identificado como um populista ideacional.

O que caracteriza um populista ideacional?

São personagem que repetem a ideia de que o povo é a máxima expressão que há, que deve haver, e que os políticos tradicionais são todos igualmente corruptos. Para eles o mundo se vê em branco e preto, a política também. Se não está comigo, então está contra mim. Isso se observa claramente nas variáveis que medimos. Na América Latina há pouco acordo acerca do que é populismo. Um populismo econômico tem a ver com a introdução de política que beneficiam as massas sem importar as consequências macroeconômicas de amanhã. Porém dista do conceito do populismo ideacional, que é sobretudo uma estratégia comunicacional com um discurso anti-elite, pró-povo, e com uma cosmovisão maniqueísta.

Diferem as características do populismo segundo a região?

Não necessariamente. Se acostumava dizer que o populismo ideacional na América Latina tinha ser de esquerda, enquanto na Europa tinha pinta direitista. Porém, ainda não. Com os adventos de Bolsonaro e Donald Trump, por um lado, e de Bernie Sanders, Alexandria Ocasio-Cortez, e os partidos populistas de esquerda fortes em Itália, Espanha e Grécia, entre outros países, a ideologia deixaram de distinguir o populismo pela região.

A partir dos seus estudos, existe relação, na América Latina, entre sistema de partidos e tipo de lideranças?

Os sistemas de partidos na região são diversos; em média se caracterizam pela variação na volatilidade do voto. Isso é, que a proporção do voto que recebem os partidos de uma eleição a outra pode mudar de maneira impressionante. Em um polo está o Uruguai, onde os partidos de sempre tendem a ganhar mais ou menos a mesma proporção do voto em cada eleição. Em outro polo aparecem países como Peru e Bolívia, onde os partidos nascem e morrem da noite para o dia, e onde os eleitores tem que conformar seu voto de acordo com o menu de partidos do dia. Dentro desse último grupo, alguns partidos, supostamente estáveis, saem da órbita do poder do governo e praticamente desaparecem.

Por exemplo?

A Unión Cívica Radical (UCR) da Argentina, o Movimento Nacionalista Revolucionario (MNR) da Bolívia, o Comité de Organización Política Electoral Independiente (Copei) e a Acción Democrática (AD) de Venezuela, em diferentes momentos. Alguns se recuperam, como a UCR. E isso conecto com o que lhe dizia antes: em alguns contextos é complicado falar da influência da identidade partidária e as preferências sobre as agendas temáticas. Sobre o personalismo, diria que na Argentina as personalidades contam mais que os partidos políticos. Como dizia antes, uma das questões que há que se destacar, em termos de cultura política, é que na Argentina as figuras mais importantes da política foram sempre muito fortes e na menta do povo sempre estiveram por cima os partidos.

Nesse sentido, qual é sua apreciação do presidencialismo?

Creio que o presidencialismo não foi o mal que já se pensou; sua gestão foi muito melhor do que se podia esperar. Quando renasceram as democracias na América Latina, pensava que a estabilidade solapar-se-ia. Temia-se muito a mescla de multipartidarismo e presidencialismo, porque o primeiro tende a negar ao presidente uma maioria no Congresso e o último não dá escapatória a um presidente não popular. Assim que para governar há que formar – e manter – coalizões e não defraudar as esperanças do público, e isso não é nada fácil. O presidencialismo tende a funcionar melhor em culturas políticas que respondem bem a personalidades políticas fortes.

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