Reunião entre Putin e o papa pode fazer a diferença em relação ao Irã?

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05 Julho 2019

Os norte-americanos já inclinados a ver o Papa Francisco através de uma hermenêutica da suspeita podem pensar que o pontífice agiu com aquilo que os italianos chamariam de “disprezzo” hoje, mais ou menos um sinal de desrespeito, ao receber o líder do seu grande rival da Guerra Fria no mesmo dia em que os estadunidenses celebram a sua independência.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 04-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É claro que a agenda do papa não é definida com base em tais considerações. O presidente russo, Vladimir Putin, está na Itália no dia 4 de julho para uma visita de Estado de um dia a convite do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conti, e, quando os chefes de Estado visitam a Itália, espera-se que eles também visitem o pontífice. Dado o protocolo envolvido, se Putin ou Francisco, de algum modo, se esquivassem desse compromisso, isso, sim, seria visto como o verdadeiro “disprezzo”.

De qualquer forma, Putin e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, são essencialmente “melhores amigos”, então não há sentido em dizer que o líder norte-americano possa razoavelmente se sentir menosprezado. Na realidade, Putin também se encontrará com o presidente italiano, Sergio Mattarella, enquanto ele estiver na cidade.

O encontro de hoje é o terceiro entre Putin e Francisco, e, como é típico, a maioria dos meios de comunicação globais estão dando pouca atenção a isso, favorecendo um foco nas perceptíveis tensões entre a Rússia e o vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, o centro de poder “de facto” no governo italiano e presumível líder, junto com Marine Le Pen da França, dos florescentes movimentos populistas de direita da Europa.

(Em outubro passado, Salvini disse – talvez brincando, talvez não, difícil saber – que as pessoas que negociam com a Rússia são “os piores criminosos da Terra”, ajudando a financiar um país que tem espiões que “vão pela Europa envenenando pessoas aleatórias.”)

No entanto, há um forte argumento a ser feito de que a sessão com Francisco é a etapa potencialmente mais importante no itinerário de Putin hoje.

Aqui está o porquê.

Neste momento, especialmente depois que Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, apareceram para virar uma nova página em sua relação, talvez a mais clara ameaça à paz e à estabilidade globais seja a tensão entre os EUA e o Irã.

Na segunda-feira, a Casa Branca afirmou que o Irã havia violado um acordo de 2015 sobre o seu programa nuclear antes mesmo de existir, o que substancialmente significa uma expressão de desconfiança, mas, por uma questão de lógica estrita, é algo absurdo (por definição, é impossível romper um acordo que ainda não foi feito). O ministro das Relações Exteriores iraniano publicou no Twitter uma resposta de uma só palavra: “Sério?”.

O atual conflito data do ano passado, quando Trump abandonou o acordo nuclear e reimpôs sanções a Teerã. No fim do mês passado, Trump declarou que os militares dos EUA estavam “armados e carregados” para atacar o Irã em retaliação por abater um drone estadunidense de vigilância, até desistir no último minuto por preocupações sobre a potencial perda de vidas.

O Irã anunciou que intencionalmente vai ultrapassar os limites dos seus suprimentos de urânio enriquecido daquele acordo de 2015 e também alertou que o tempo está se esgotando para salvar o acordo. Se há duas figuras no cenário global que podem estar em posição de ajudar a afastar o Irã de um ciclo de conflito, sem dúvida Putin e Francisco são os dois melhores candidatos.

A Rússia é o maior patrono e aliado do Irã no Oriente Médio, e o Vaticano desfruta há muito tempo de relações positivas com Teerã. Na verdade, o Vaticano e Moscou já estão sincronizados em várias frentes, da Síria à Venezuela.

Além disso, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, vem da tradição ijtihad do islamismo xiita, que enfatiza o uso da razão humana individual sobre a conformidade legal, implicando criatividade e adaptação na aplicação da lei religiosa a situações em mudança – embora a analogia seja inexata, é a coisa mais próxima que o Islã tem em relação à própria ordem jesuíta do papa no catolicismo.

Se Putin e Francisco chegarem a um consenso sobre o Irã, é possível que Rouhani e o restante da liderança iraniana se voltem a uma abertura. Aleksandr Avdeev, embaixador da Rússia no Vaticano, disse recentemente à revista Ogonek que “a situação no Irã” está na agenda de Putin e do pontífice hoje.

(Com toda a honestidade, se há algum trabalho pesado em relação ao Irã hoje, a maioria dele provavelmente não ocorrerá quando Putin falar com Francisco, mas sim em sua sessão posterior com o cardeal italiano Pietro Parolin. Espera-se que todos os chefes de Estado que visitam o papa vejam o secretário de Estado do Vaticano, e geralmente essas são as reuniões onde se debatem os detalhes diplomáticos e políticos.)

É claro que são necessárias duas pessoas para dançar um tango, então uma questão igualmente premente é se tal iniciativa diplomática pode ser vista com bons olhos pela Casa Branca. Além do fato de Putin estar envolvido, há pelo menos duas outras razões para acreditar que pode haver uma abertura.

Primeiro, tendo recém-saído de seu encontro com Kim, Trump pode ter desenvolvido um gosto por perceptíveis avanços diplomáticos. Segundo, uma vez que Trump vai precisar de pelo menos alguma parcela dos votos católicos em 2020, ele pode estar com vontade de ser visto como colaborador do papa em uma questão de consequências globais.

Há todos os tipos de razões pelas quais uma interseção Putin/Francisco sobre o Irã pode não ocorrer, a começar pelo fato de que, ao mesmo tempo em que Francisco está se encontrando com o líder russo, ele também está recebendo a liderança da Igreja Católica Grega na Ucrânia, que tem sido extremamente crítica da intervenção militar da Rússia na parte oriental do seu país. O encontro Putin/Francisco pode ser dominado pela discussão sobre a Ucrânia, deixando pouco espaço para outros assuntos.

Mesmo assim, a mera perspectiva de movimentação sobre o Irã, pelo menos, faz com que o encontro dessa quinta-feira seja interessante – porque, sejamos francos, é difícil imaginar que qualquer mudança no mundo possa resultar dos encontros de Putin seja com Conte ou Mattarella.

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