Centro Âncora: uma iniciativa para o cuidado de presbíteros e religiosos

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26 Junho 2019

Muitos ainda acreditam que as pessoas que escolhem servir a Deus e à Igreja estão imunes de sofrerem os mesmos problemas psicoafetivos dos leigos. Nas últimas décadas, a Igreja tem enfrentado dificuldade com os limites humanos do clero: estresse, transtornos psicológicos, problemas relacionados à sexualidade, entre outros desafios constatados. Esses casos, muitas vezes, geram escândalos e denúncias que abalam a Igreja como um todo. A pior parte desses problemas, é que eles têm enfoque só depois de desencadearem quadros avançados, pois ainda são cercados de tabus e jogados para debaixo do tapete. São limitações comuns de qualquer pessoa, características de um ambiente cercado de sacralidades e cobranças de posicionamentos muitas vezes sobre-humanos. Essas expectativas a serem supridas, uma rotina desgastante que proporciona poucos momentos de prazer e leveza, a necessidade de estar a serviço todo o tempo, o desafio de todos os olhos voltados para a figura que é vista sempre como referencial, são algumas das questões que precisam ser discernidas durante uma caminhada formativa, mas também necessitam de cuidado depois dos votos definitivos e das ordenações. Embora os relatos sejam cada dia mais frequentes sobre essas estafas mentais e transtornos, a busca por ajuda continua sendo um percentual baixo diante da demanda, o que vem prejudicando de maneira ampla as comunidades e o próprio clero.

O texto é de Roberto Nentwig, Eline Carrano e Fabiana Torres Xavier, membros do Grupo de pesquisa sobre Ministério Ordenado da PUC-PR.

Entre o ano de 2017 e 2018, foram registrados no Brasil 18 suicídios de sacerdotes que se encontravam em quadros depressivos e que não receberam ou buscaram a ajuda necessária. Esse dado reforça a ideia de que a busca pelo acompanhamento psicológico ainda é um assunto pouco cogitado no meio. Em um artigo publicado em 2018, Pe. James Teixeira da Costa destaca a importância de cuidar-se, manter-se no convívio clerical, fazer exames médicos frequentes, tirar férias anuais e dar valor ao tempo de descanso.

Além desses desafios de rotina e vida pessoal, o baixo número de padres também se mostra um agravante, principalmente num país como o Brasil, que tem uma enorme demanda e pouca oferta nesse setor. Dados de 2010 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mostram a média nacional de 01 padre para cada 5.600 pessoas. A organização Isma Brasil, responsável por pesquisas e tratamentos relacionados ao estresse, indica que o sacerdócio aparece como uma das profissões mais estressantes. Os números daquele ano foram alarmantes e mostraram que 448 entre 1,6 mil padres e freiras entrevistados se sentiam emocionalmente exaustos (28%). Em entrevista à BBC em 2017, a psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou a pesquisa, afirmou que padres diocesanos estão mais propensos a sofrer de estresse do que frades e monges que vivem em reclusão. Ela afirma que o que mais incomoda na vida sacerdotal dos que vivem em paróquias é a falta de privacidade e a necessidade de estarem disponíveis aos fiéis 24 horas por dia. Todavia observa-se um déficit neste tipo de cuidado.

Diante dessas problemáticas e visando soluções acessíveis, algumas iniciativas foram se desenvolvendo com o passar dos anos ao redor do mundo. Cada Igreja, em particular, vem buscando soluções que ajudam padres que precisam desse amparo espiritual e psicológico na busca pela readequação de sua vida e no discernimento dos problemas que surgem no decorrer do caminho eclesial. Entre elas, destaca-se um projeto brasileiro chamado “Centro Âncora”. Localizado na cidade de Pinhais, na Arquidiocese de Curitiba-PR, é possível ver o exemplo positivo de uma iniciativa que vem desenvolvendo um trabalho referencial há 7 anos.

Idealizado pela Irmã Adenise Somer, da Congregação Copiosa Redenção, juntamente com o Dr. Agostinho Busato, psicólogo, e com o apoio do Pe. Wilton Moraes Lopes, CssR, o projeto nasceu a partir dessa evidente necessidade de um trabalho aprofundado que envolva não somente um acompanhamento psicológico, mas também espiritual, e que proporcione um acolhimento devido para religiosos(as) e padres que necessitam desse tipo de processo de revitalização. “Existe uma busca de uma cura, de um cuidado”, explica Irmã Adenise. “Se antes não tinha uma busca, é porque também não existia uma oferta. Agora, sempre existiu uma necessidade no meio religioso e sacerdotal”, ressalta. Aqueles que necessitam de ajuda são trazidos pelos Bispos, superiores de suas congregações ou algum encarregado legal que seja designado a acompanhá-los. Ainda que sejam aceitos internamentos voluntários, é necessário que haja uma participação ativa das dioceses e congregações nesse momento importante.

Dentre diagnósticos variados, encontram-se casos de fadiga física e mental, depressão, transtornos de personalidade, sofrimentos psíquicos e crises vocacionais; mas o Âncora também pode funcionar como uma ferramenta para o processo de discernimento vocacional. É possível destacar outros casos muito comuns, como o abuso de poder, dificuldades relacionais, conflitos com a comunidade, crises entre o religioso e seu provincial, do sacerdote com o bispo, dificuldades com a hierarquia e etc. Existe também um certo idealismo do que é a vida religiosa, sacerdotal, que ao ser quebrado, geram esses desafios emocionais. “Eu vejo que é uma coisa bonita, mas eu não vejo que é um caminho difícil. A cada dia eu preciso aprender mais sobre meus votos e formas de que esse processo não crie uma crise em mim”, explica Ir. Adenise. O tratamento ofertado visa desenvolver e devolver a vida em abundância (cf. Jo 10, 10), possibilitar o encontro com Deus, com a comunidade e com os irmãos, além de procedimentos psicoterapêuticos e clínicos, podendo ter duração de 30 a 90 dias.

O Centro conta com uma equipe transdisciplinar comprometida e harmoniosa, composta por diretores espirituais, conselheiros e profissionais de saúde, tais como psicólogos, médicos, psiquiatras e nutricionistas. Também existe o acompanhamento com educador físico, enfermeiros, farmacêutico, fisioterapeuta e o auxílio de uma assistente social. O atendimento segue o formato de internamento de modo individual e atividades em grupo que visam o convívio como parte da revitalização bio-psico-social-espiritual. Atualmente, o projeto tem capacidade de acolher entre 18 e 20 ancorinos, como são chamados os que estão em processo de revitalização. Porém, grupos com números maiores podem ser aceitos, caso isso não prejudique o desenvolvimento do trabalho e avanço da equipe. Até a produção dessa matéria, o grupo contava com 24 ancorinos e uma lista de espera.

Ainda que carregue a missão de cuidar de problemas psicológicos, o ambiente não se assemelha a uma clínica ou hospital psiquiátrico. Na verdade, o Âncora é munido de ambientes com harmonia familiar e capela, sendo possível notar que ali as pessoas se sentem acolhidas e são tratadas de forma afetuosa por todos. O processo de acolhimento acontece de maneira sensível e o mais leve possível. “A equipe apresenta a casa, a comunidade, oferecendo um tempo para que a pessoa possa olhar dentro de si e se perguntar o que há de mais bonito dentro dela. Além de si, há Deus. Esse olhar tem a intenção de ver esse Deus, que quer que você [o ancorino] se valorize, se dê conta de que você é amado, de que você é digno”, conta Irmã Adenise.

A metodologia da equipe para essa acolhida conta com alguns passos; primeiro uma triagem é feita com um psicólogo e diretor espiritual, para saber dos interesses da pessoa e o que ela busca. A partir disso, são apresentadas as oportunidades ofertadas pela casa que envolvem, além dos atendimentos psicológicos, atendimentos espirituais e atividades físicas. Dentro dessas dinâmicas, são abordados alguns temas que vão surgindo no decorrer desse processo de recolhimento e auto avaliação.

Segundo Irmã Adenise, quando os interessados chegam até o Centro, eles mesmos já trazem consigo um determinado diagnóstico, mas muitas vezes percebe-se no decorrer do tratamento que essas ideias iniciais podem estar equivocadas ou que as necessidades do então ancorino são diferentes, sendo elas diversas ou mais profundas. A rotina diária é regrada, se inicia com orações às 7h45, seguida do café da manhã e logo após um momento de direção e formação espiritual. Sequencialmente, iniciam-se os cuidados junto à equipe multidisciplinar de médicos e demais atividades. A missa diária acontece no período da tarde e é celebrada pelos próprios padres ancorinos.

Após o fim do tratamento, que pode ser prolongado além dos 90 dias se necessário, existem profissionais de apoio designados para fazer um acompanhamento na retomada das atividades da vida pós-processo de revitalização. Esse retorno para suas comunidades ou para possíveis novas funções, é discernido pelo ancorino junto da equipe do Centro Âncora e dos superiores religiosos, a fim de distanciá-lo de possíveis gatilhos de crise. Ainda que haja muitas retomadas de atividades e rotinas eclesiais e religiosas com sucesso, também já houve casos de desistências da vida sacerdotal ou religiosa que foram discernidas nesse meio tempo.

“O Âncora só dá certo porque conta com a equipe certa, os profissionais multidisciplinares têm igualdades, autonomia, e principalmente, sintonia no exercício das funções desempenhadas diante dos sacerdotes e religiosos(as) em processo”, afirma Irmã Adenise. Evidentemente o projeto se alinha ao pensamento do Papa Francisco, que incentiva esse tipo de cuidado direcionado ao público ministerial. “Se for pensar na postura do Papa, ela é linda. Misericordiosa, justa, acolhe a pessoa, mas também a chama para a responsabilidade”, completa a religiosa, que fez desse projeto boa parte de sua vida.

O Centro Âncora está afinado com o Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros (2013). O documento destaca que cada um deve ser respeitado de acordo com suas características e limitações pessoais, sendo tarefa da Igreja oferecer-lhes ajuda necessária e caridade para com os que sofrem. A preocupação do atual Papa com as crises que o clero católico vem apresentando e com a necessidade imperiosa de um discernimento pessoal, moral, social e religioso, associada ao aumento no número de suicídios entre religiosos e sacerdotes, apontam para a urgência de atenção a estas pessoas. Irmã Adenise vê o Âncora como uma resposta para essa demanda diagnosticada pela Igreja e encara sua missão como um chamado vocacional. “É um tempo de graça tanto a quem vem para fazer o processo (de revitalização), quanto para nós que estamos aqui trabalhando. Eu percebo que na minha vida eu posso amadurecer muito mais pelo trabalho que faço. Eu consigo me preparar, eu consigo olhar para minha fragilidade. E olhando para cada um, na sua dor e seu sofrimento, eu percebo que não é um Cristo perfeito, um Cristo distante, mas um Cristo sofrido que se faz presente na vida de cada um deles. Então, é um tempo de graça, muita graça”, afirma. O Âncora prova que com o compromisso de uma equipe e o foco no cuidado atencioso aos sacerdotes e religiosos(as) é possível desenvolver um trabalho eficaz que beneficia uma classe ainda não tão bem compreendida pelos fiéis nos dias de hoje.

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