Chile: auxiliar de Santiago renuncia depois de um mês: polêmicas sobre frases a respeito de mulheres e abusos

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15 Junho 2019

Vinte e quatro dias. Foi isso que Dom Carlos Eugenio Irarrázaval Errázuriz durou no papel de auxiliar da Arquidiocese de Santiago do Chile, abalada no passado e no presente por contínuos escândalos de abuso. Sequer um mês depois da nomeação papal no dia 22 de maio passado e sem sequer ter tido tempo de receber a ordenação episcopal, o sacerdote, de 53 anos, apresentou a sua renúncia ao papa após se envolver em candentes polêmicas por causa de algumas declarações, definidas por muitos como “desconcertantes”, sobre abusos, mulheres e judeus.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 14-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco aceitou a sua renúncia nessa sexta-feira, 14, como informa um brevíssimo comunicado de Dom Celestino Aós, administrador apostólico de Santiago, publicado no site do arcebispado. “Com a data de hoje – afirma-se – comunicamos que o Santo Padre aceitou a renúncia do presbítero Carlos Eugenio Irarrázaval Errázuriz como bispo auxiliar da Arquidiocese de Santiago, ofício eclesiástico para o qual havia sido eleito. A decisão – explica o prelado também em um vídeo publicado junto com a nota – foi fruto de um diálogo e de um discernimento conjunto, no qual o Papa Francisco valorizou o espírito de fé e humildade do presbítero, em favor da unidade e do bem da Igreja que peregrina no Chile”.

Aós explica, sem oferecer mais motivações ou detalhes, que “o presbítero Irarrázaval continuará seu serviço como pároco na [paróquia] Sagrado Coração de Jesus de Providencia, Santiago”. Ou seja, a famigerada paróquia de “El Bosque”, onde durante anos atuou Fernando Karadima, o sacerdote chileno que se manchou com inúmeros abusos sexuais, de poder e de consciência sobre jovens e seminaristas, condenado pela Santa Sé e, finalmente, expulso do sacerdócio por Bergoglio em novembro passado.

Para restabelecer a serenidade dentro da comunidade paroquial abalada pelos crimes do prelado, amigo das hierarquias eclesiástica e política chilenas, quem havia sido enviado, precisamente, foi Irarrázaval, com uma longa experiência como pároco, considerado um sacerdote inteligente e preparado. Em particular, foi-lhe confiada a tarefa de supervisionar os cerca de 40 padres treinados por Karadima.

Além disso, a sua presença na paróquia, situada em um dos bairros nobres de Santiago, graças ao seu sobrenome de origem basca, considerado aristocrático no Chile, queria ser um modo de “repescar” aqueles setores mais “nobres” que haviam se afastado após os escândalos.

Dado o seu histórico, pareceram ainda mais surpreendentes as declarações que o bispo concedeu ao jornal El Mercurio sobre os casos de abuso no dia seguinte à nomeação. Perguntado sobre essa chaga que de fato pôs de joelhos a Igreja do país sul-americano, Irarrázaval definiu a crise dos abusos de “arroz requentado”. É preciso olhar para o futuro, dizia ele, porque “remexer arroz requentado não serve para nada”.

“Talvez, como padre, eu tenha que comer arroz requentado mais do que possa. O arroz recém-feito é melhor. O arroz requentado já está velho, mas também se pode comer. Eu disse isso sobre o que está acontecendo aqui na Paróquia do Sagrado Coração, já que, há 10 anos, a panela foi destapada.”

Nem mesmo uma hora depois, essas frases, embora de forma descontextualizada, já circulavam nas mídias sociais, submersas pelas críticas de inúmeros usuários, especialmente das vítimas de Karadima, que, anos depois, venceram – em nível moral e legal – a sua batalha pela verdade. Em particular, Juan Carlos Cruz, que foi a Roma várias vezes como testemunha daqueles horrores, recebido também pelo papa, que comentou: “Começamos bem com o estúpido comentário daquele que será o novo bispo auxiliar de Santiago”.

O próprio Irarrázaval tentou, depois, mitigar as polêmicas, explicando que a metáfora do arroz queria significar que: “Se ficarmos com o mesmo que já conhecemos, não há nada de novo. O que nós temos que fazer é chegar ao fundo da situação para solucionar o problema e temos que tirar a moral da história daquilo que aprendemos para olhar para a frente”.

Para piorar a posição do bispo, ele mesmo concedeu outra entrevista à CNN Chile na qual foi questionado sobre o papel das mulheres na Igreja, tema muito caro a Dom Aós, que explicou em várias ocasiões que a participação feminina na Igreja é uma prioridade para ele. “Talvez elas mesmas gostem de estar nos bastidores, pode ser”, disse Irarrázaval, acrescentando: “Jesus Cristo nos deu algumas pautas (...) É certo que, na Última Ceia, não havia nenhuma mulher sentada à mesa, e também temos que respeitar isso. Jesus Cristo fez opções e não fez isso ideologicamente”.

Acusações de misoginia por parte de movimentos feministas caíram como chuva sobre o novo auxiliar que, como se não bastasse, correu o risco de criar uma ruptura também com a comunidade judaica chilena, depois de ter definido a cultura judaica, na mesma entrevista, como “chauvinista” e machista “até hoje”: “Se você vê um judeu caminhando pela rua, a mulher vai 10 passos atrás, mas Jesus Cristo rompe esse esquema”.

Os judeus não gostaram dessas afirmações, tanto que Dom Aós teve que conceder um pedido de desculpas públicas oficial, e também foi organizado um encontro para restabelecer as relações.

Tudo foi consumido dentro de uma semana. Mas, evidentemente, pressões, polêmicas e críticas no sentido de que o novo bispo “não é adequado para o cargo” continuaram também nos dias posteriores, para que Irarrázaval chegasse a apresentar sua renúncia. Agora, ele voltará a ser pároco, sequer tendo sido consagrado bispo.

Em suma, não há paz para a Igreja da capital chilena, já desestabilizada em março pela renúncia do cardeal Ricardo Ezzati, de 77 anos, processado por encobrimento de casos de abuso. Portanto, quem estará ao lado do administrador apostólico Aós em Santiago será o Pe. Alberto Lorenzelli, salesiano argentino criado na Itália, o segundo bispo auxiliar designado. No Chile há cinco anos, atualmente ele está em Roma à espera da ordenação, que será celebrada pelo papa no dia 22 de junho na Basílica de São Pedro.

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