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14 Mai 2019

 "O mundo é uma festa de casamento. Dance sua pequena dança e depois volte para casa”. Toda a existência terrena é vista como uma dança por Keyla, a ruiva, a provocativa e provocante protagonista do romance póstumo do grande escritor iídiche Isaac Bashevis Singer, Nobel de 1978 de literatura. Na realidade, a festa que essa dança supõe é perturbada por um final bastante diferente, porque a obra termina com uma pergunta capaz de travar aquele movimento alegre e fazer o coração sangrar: "Mas onde é a casa? No túmulo?". 

O comentário é de Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 12-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Chiara Bertoglio
Il Signore della danza. Passi tra culto e cultura
(O Senhor da Dança. Passos entre culto e cultura,
em tradução livre)
Cittadella, Assis, pag. 106, 11,50 €

Pois bem, dançar em todas as culturas e religiões é um símbolo que une "instinto e arte, oração e sedução, jogo e pensamentos, relação e introspecção, comunicação e meditação. Dançar é êxtase, arrebatamento, beleza”. Essa definição de um ato, que envolve o culto e a cultura em um admirável arabesco de passos, é colocada na abertura de um delicioso e genial livro de Chiara Bertoglio, uma jovem com uma criatividade iridescente que passa pela música (ela é pianista e musicóloga), teologia e literatura.

É um texto essencial, mas muito variado, oferecido e dirigido ao Senhor da dança, numa lembrança à canção Lord of the Dance composta em 1963 pelo inglês Sidney Carter com a melodia de um hino dos Shakers, os quakers norte-americanos, uma canção citada no ensaio. Já no livro bíblico de Provérbios, a Sabedoria Divina é personificada no ato criativo como um 'amôn, talvez uma “garota” ou uma “artista” (em português foi usado “arquiteto”, NT) , que está dançando e se divertindo no ateliê do mundo que está desabrochando de suas mãos.

Eis aqui, de fato, sua confissão como um hino: "Eu era como um arquiteto (uma menina), eu era seu deleite dia a dia, alegrando-me diante dele todo tempo, regozijando-me no mundo habitável, enchendo-me de prazer entre os filhos do homem" (8, 30-31). Sugestivo este "eu" divino objetivado por fora da Sabedoria criadora que expressa toda a beleza, a harmonia e a originalidade da criação nos passos de sua dança cósmica. Não é por acaso que a célebre coreografia mística dos sufis muçulmanos, acompanhada pelo som doce e melancólico da flauta, expressa o desejo dos fiéis de entrar em harmonia com as evoluções astrais, as mecânicas celestes e a fonte suprema divina do universo e da humanidade.

Chiara Bertoglio, depois de ter feito explodir em uma espécie de fogo de artifício, um jogo musical pirotécnico à maneira de Haendel, o arabesco simbólico, espiritual, sonoro, artístico e amoroso que se condensa no ato da dança, aprofunda-se nas Sagradas Escrituras, perseguindo todas as passagens dos vários personagens que se movem no ato de dançar, começando, por exemplo, pelo rei Davi que não teme a ironia de sua esposa Mical dançando freneticamente diante da arca do Senhor na procissão inaugural de seu reino na nova capital Jerusalém (2 Samuel 6,5-22).

A liturgia bíblica, de fato, inclui este mesmo ato com toda a sua emoção e beleza " Com ramos nas mãos, comecem a festa e andem em volta do altar...Louvem o Senhor com danças", canta o Salmista, acrescentando o acompanhamento instrumental da orquestra do templo (Salmos 118.27 e 150). Claro, como também acontece na cultura grega onde, ao lado do movimento apolíneo perfeito, se acopla o ruído do ritmo orgiástico dionisíaco, na Bíblia também se registra a irrupção da coreografia excitada diante do ídolo do bezerro de ouro (Êxodo 32) ou daquela histérica dos sacerdotes de Baal (1 Reis 18). E aqui como não pensar no moderno "oratório" Moses und Aaron de Schönberg?

Existe um verdadeiro léxico de diferentes termos bíblicos que indicam as várias tipologias da dança na ritualidade, mas também no uso popular e até mesmo nas degenerações. A autora não hesita em surpreender seus leitores evocando os "ventres dançantes" de Isabel, grávida de João Batista, e de Maria, mãe de Jesus, segundo o Evangelho de Lucas. Assim como coloca em cena aquele Batista cujo fim trágico é marcado precisamente pela "dança macabra" da filha de Herodíades e aquele Jesus que vai parar por curiosidade ao ouvir as recriminações de alguns garotos protestando na praça porque seus companheiros não aceitam participar de um jogo: "Nós tocamos a flauta e vocês não dançaram" (Mateus 11.17). Aquele mesmo Cristo que, de acordo com a tradição apócrifa (os Atos de João), fará os doze apóstolos dançarem juntos com ele em um ato coral, quase litúrgico.

E falando em liturgia e história da Igreja, Bertoglio apresenta uma série de deliciosos afrescos que retratam rituais marcados por práticas de dança, santos acrobatas, rituais populares, canções natalinas e muito mais, chegando à Missa do "Katholikentag" de Münster de 2018, onde, diante do altar no Agnus Dei um jovem apresentou uma dança, como acontece frequentemente em igrejas africanas e asiáticas. E, com muita calma, a autora lança um desafio crítico ao jornalista italiano e ao teólogo alemão que aproveitaram essa oportunidade para reiterar seu ódio anti-bergogliano, polvilhado de ideologismo um tanto fanático. Na realidade, a dança quando é nobre é uma linguagem não apenas humana, mas também celestial, é um ato histórico e um rito escatológico, como brilhantemente mostra Dante nas cenografias do seu Paraíso.

Mas já no início do século IV um escritor cristão, Metódio de Olimpo não hesitava em colocar estas palavras na boca de uma santa virgem: "Eu danço guiada por Cristo, danço no céu em torno daquele cujo reino não tem começo nem fim". Afinal, a ascensão do Ressuscitado ao céu pode realmente ser concebida como um "salto em altura" para o infinito e o eterno, como cantava outro autor do século IV, Sinésio de Cirene, cantou: "Você desdobrou as asas, saltou para a abóbada azul do céu para parar entre as puras esferas intelectuais... enquanto o Éter, sábio pai da Harmonia sorria e em sua lira de sete cordas entoava a música para um canto epinício”.

Para enriquecer a trama das figuras da dança sagrada, humana e divina, desenhada nessas páginas - abertas por versos resplandecentes de luz em sua motilidade, tirados dos Quatro Quartetos de Eliot - acrescentamos a dança da Sulamita, a mulher protagonista do bíblico Cântico dos cânticos.

Sobre este tivemos a oportunidade de realizar uma pesquisa exegética, inclusive porque existem alguns enigmas em sua tipologia executiva denominada maanaim. Sem entrar no mérito da questão filológica, escutemos o canto entoado por um duplo coro que se dirige à mulher entregue à embriaguez da rotação da dança: " "Volta, volta, ó Sulamita; volta, volta, para que nós te vejamos. Por que olhais a Sulamita, quando ela entra na dança de Maanaim?" (7.1). Nesse momento o acompanhante inicia um estupendo retrato de sua amada a partir do movimento frenético de seus pés e quadris: "Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista!"(7.2)

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