Para a Igreja de Francisco, a obediência não é mais uma virtude

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14 Maio 2019

Do esmoleiro “underground” ao purpurado verde da Amazônia: o que está mudando na Igreja.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada em L’HuffingtonPost.it, 13-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Do centro de Roma à Amazônia, para a Igreja de Francisco “a obediência não é mais uma virtude”. Não é um pároco de aldeia isolado (o Pe. Lorenzo Milani, prior de Barbiana) quem disse isso, mas, além de Francisco, os seus cardeais: do esmoleiro pontifício, Konrad Krajewski, a Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), até Peter Turkson, o prefeito ganense do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral.

Konrad Krajewski, Peter Turkson, Cláudio Hummes. (Foto: Il Sismografo)

O primeiro, polonês, liturgista “underground” (“Eu não sou eletricista, mas sim liturgista, mas, no fundo, os liturgistas acendem velas, mexem nos microfones, alguma coisa eles entendem disso...”, declarou ele ao Corriere) que foi até a unidade de controle para ligar novamente o luz do edifício ocupado em Santa Croce in Gerusalemme, provocando a ira do ministro do Interior italiano, Matteo Salvini.

O segundo, brasileiro, que, nas colunas da revista La Civiltà Cattolica, entrevistado pelo diretor, Pe. Antonio Spadaro (um dos homens mais próximos de Francisco), nessa segunda-feira, disparou o alarme contra as “resistências” políticas e econômicas que estão tentando bloquear o caminho rumo ao próximo Sínodo dos Bispos, convocado no Vaticano em outubro sobre a Amazônia. Como que falando do novo presidente do Brasil, Jair Balsonaro, amigo do presidente dos EUA, Donald Trump, e de Salvini.

Hummes declarou: “Alguns se sentem de algum modo ameaçados (pelo Sínodo Pan-Amazônico), porque consideram que os seus projetos e as suas ideologias não serão respeitados. Acima de tudo, eu diria, aqueles projetos de colonização da Amazônia animados ainda hoje por um espírito de dominação e de rapina: eles vêm explorar, para depois irem embora com as malas cheias, deixando para trás a degradação e a pobreza das pessoas locais, que se encontram na miséria e com seu próprio território devastado e contaminado”.

E acrescentou: “Os interesses econômicos e o paradigma tecnocrático se opõem a qualquer tentativa de mudança e estão prontos para se impor pela força, violando os direitos fundamentais das populações do território e as normas para a sustentabilidade e a proteção da Amazônia. Mas nós não devemos nos render. Será preciso se indignar. Não de modo violento, mas certamente de maneira decidida e profética”.

Será possível um diálogo, um encontro? Resposta de Hummes: “Não podemos cair no pensamento ingênuo de que todos estão dispostos a dialogar: não é verdade! Há muitas pessoas que absolutamente não estão dispostas a fazer isso. Primeiro, devemos nos indignar, profetizar, mas depois certamente devemos negociar, tratar, entrar em acordo, e assim talvez conseguiremos que a contraparte se prepare para dialogar. O próprio Jesus nos convidou a negociar em tais situações, dizendo: ‘Quem de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e para ver se tem os meios para levá-la a termo?’ (Lucas 14, 28). A Igreja na Amazônia sabe muito bem que deve ser profética, não acomodada, porque a situação é clamorosa e mostra uma constante e persistente violação dos direitos humanos e uma degradação da casa comum. E, pior ainda, esses crimes em geral ficam impunes. A ecologia integral é uma realidade maravilhosamente nova que o papa colocou diante de nós. Ela interpela a fundo os atuais modelos de desenvolvimento e de produção que, por sua vez, apelam às luzes racionais, científicas e tecnológicas da era moderna, nas quais afunda o paradigma tecnocrático e que não estão dispostas a acolher as consequências de uma ecologia integral. O paradigma tecnocrático e de dominação vence, se impõe e faz aquilo que bem entender”.

Em suma, parece ter chegado a hora de Francisco e a Igreja passarem para o “segundo tempo do papado”. Um “segundo tempo” que tentará derrubar “os paradigmas existentes” com a não violência, com determinação e, eventualmente, pagando as pessoalmente as consequências, como fará o cardeal Krajewski, o cardeal dissidente.

Tanto que, nesta terça-feira, quando ainda faltam 10 meses para o evento, outro cardeal, Peter Turkson, explicará na Sala de Imprensa vaticana o conteúdo do congresso de março de 2020 (26-28 de março) em Assis sobre a nova economia de (São) Francisco.

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