Apocalípticos e não magisteriais: dois teólogos comentam os ''apontamentos'' de Ratzinger

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30 Abril 2019

“Um texto um pouco fora da ordem de reflexão do papa emérito”, não só do ponto de vista da linguagem, mas também dos exemplos que são trazidos como apoio das teses; e não está claro se isso se deve “ao envelhecimento ou ao fato de que Bento XVI estar cercado de pessoas que o exploram para apoiar uma posição anti-Papa Francisco”. Quem fala, ao comentar os “Apontamentos” de Joseph Ratzinger sobre o tema dos abusos sexuais publicados na revista alemã para o clero bávaro Klerusblatt no dia 11 de abril passado – mas prontamente divulgados pela mídia e por órgãos tradicionalistas e conservadores estrangeiros –, é o teólogo moral Giannino Piana, 80 anos, ex-professor de Ética Cristã no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Urbino e de Ética e Economia na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Turim, ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas, em uma entrevista concedida a Fausto Gasparroni da agência Ansa (15-04-2019).

A reportagem é de Ludovica Eugenio, publicada por Adista, 27-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quanto ao fato de que se trata de uma medida com o objetivo de redimensionar a ação pastoral e doutrinal do Papa Francisco, Piana não tem dúvidas: “Tem-se a impressão de que, por trás, há uma manobra que vai além do papa emérito, que esconde uma série de referências, também na linguagem, não pertencentes à reflexão de Bento XVI tal como ela se apresentou no passado, aqui em certos trechos também banal e até mesmo um pouco vulgar”.

E justamente o elemento da vulgaridade parece estar, ao teólogo, em contradição com o estilo de Ratzinger: como no exemplo da coroinha violentada pelo sacerdote que lhe dizia: “Este é meu corpo que é dado por ti”: trata-se, para Giannino Piana, de “uma referência vulgar mesmo que se trate de um aspecto gravíssimo”, que torna legítimo se perguntar o quanto o papa emérito é “capaz de exercer a responsabilidade em sentido pleno” ou o quanto ele “permitiu fazer, compartilhando a linha daqueles que usam tudo isso contra o atual papa”.

Sobre a conexão que Ratzinger cria entre a pedofilia e 1968, o teólogo moral afirma que “um julgamento inteiramente negativo desse período é inaceitável”, pois não leva em consideração “a centralidade da consciência” ou “a atenção à libertação da mulher”: “Há uma série de fatores que vão em direções diferentes e que carregam ambivalências: há tanto elementos negativos quanto positivos, que, porém, são a maioria. Na mesma crise de autoridade, há o aspecto positivo que vai contra o poder incondicional e as recaídas negativas no caso de uma autoridade legítima. É muito superficial um julgamento totalmente negativo, incapaz de captar a complexidade”.

Analogamente “desmotivado e injustificado” é o julgamento de Ratzinger sobre o “colapso da teologia moral católica” no período pós-conciliar: “Um julgamento abrangente, apocalíptico, injusto”, ao qual se chega “evidenciando alguns aspectos e radicalizando-os”. “Um julgamento implacável, exagerado, que não leva em consideração a complexidade das situações. Dizer que há uma rejeição moral da autoridade das hierarquias é gratuito: a teologia está sempre livre para fazer reflexões, que, depois, também servem de apoio para as decisões. E que as normas não existem mais não é algo sustentável; veja-se, por exemplo, o caso da bioética. É tudo muito unilateral, superficial. Sobretudo a acusação de fundo, que aquela teologia moral levou a uma falta de condenação da pedofilia, é inaceitável.”

Trata-se de um dos aspectos mais contestados do escrito de Ratzinger: “A pedofilia sempre foi duramente contestada pela teologia moral – insiste Piana –, nenhum teólogo moral jamais aceitou a pedofilia: ao contrário, isso mesmo diante de uma atitude do Vaticano que era de não atenção ao problema, ou pelo menos de não intervenção”.

Em conclusão, o teólogo moral enfrenta a questão de fundo que tornou possível a divulgação do texto do papa emérito, ou seja, coabitação dos dois pontífices, aspecto muito delicado, ainda não normatizado, mas que exigiria um passo atrás por parte do “ex-papa”: “Eu desejaria – argumenta Piana – que, dada a renúncia, ato de coragem e seriedade, Bento se afastasse do Vaticano. É perigoso para o governo da Igreja tornar-se uma alternativa possível. Além disso, ele prometera se retirar no silêncio e na oração: e o silêncio se rompeu, especialmente nesta circunstância, mais pesada do que as anteriores e, de algum modo, ocasionais, veja-se o caso Viganò. Aqui há também um apoio à teologia pré-conciliar, que se torna também uma crítica ao próprio Concílio”. A situação que deriva dessa coabitação – é a avaliação final de Piana – “já está bastante comprometida”.

Ghislain Lafont: sempre o mesmo Ratzinger

Sobre os “apontamentos” de Ratzinger, quem interveio foi também o teólogo beneditino Pe. Ghislain Lafont, ex-professor do Ateneu Santo Anselmo e da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Em entrevista ao Settimana News (18-04-2019), ele afirma que acolheu o texto do papa emérito “sem surpresa”: “Parece-me que o artigo do papa emérito resume em poucas páginas a essência do seu olhar sobre a história recente da Igreja e do mundo, do seu julgamento sobre as correntes teológicas que atravessaram esse período, da sua visão teológica em geral. Não me surpreendeu, porque não oferece nada de original em relação ao pensamento e aos atos do teólogo, do cardeal e do papa então em exercício”.

Não são essas anotações que o perturbaram, mas sim, no máximo, “diversas posições que o autor tomou durante a sua vida. Desde os anos 1970, com a sua rejeição clara da liturgia de Paulo VI (apesar da autoridade magisterial maior relativa à promulgação dessa regra da oração da Igreja) até, perto do fim do seu pontificado, o seu convite para restringir a universalidade da salvação com uma tradução restritiva dos pro multis do cânone da missa: não ‘por todos’, mas ‘por muitos’”.

Ratzinger, discípulo de Santo Agostinho e São Boaventura, “deixou-se levar pelo pessimismo desses grandes autores neoplatônicos, aliás, também grandes místicos. Sou tentado a dizer que tivemos um cardeal e depois um papa um pouco jansenista, enquanto precisaríamos de um discípulo de São Tomás: conhecedor como poucos da Escritura e da tradição dos Padres, mas, ao mesmo tempo, filósofo, audaz, interessado na evolução da cultura, otimista sobre a liberdade humana. O São Tomás de Marie-Dominique Chenu, de Etienne Gilson, de Umberto Eco! Ele, que havia sido no início um apaixonado pelo Concílio, em maio de 1968 se prepararia para lhe fornecer uma interpretação impiedosa”.

Lafont admite que, no período pós-conciliar, como em todas as épocas de grandes mudanças, houve “excessos não apenas morais, mas também intelectuais, no mundo assim como na Igreja”. “Eu também sofri isso e não descobri imediatamente como reagir abertamente às perspectivas inéditas que o próprio Concílio não previra. Mas eu acho que o provérbio é verdadeiro: ‘O barulho não faz bem, o bem não faz barulho’. Se houve excessos candentes, também houve um trabalho em profundidade, uma abertura para as ciências humanas, uma releitura inteligente das categorias clássicas, e isso trouxe frutos. Eu não sou um teólogo moral, mas me vêm aos lábios os nomes da época pós-conciliar: Bernard Häring, René Simon, Xavier Thévenot, Servais Pïnckaers, Marc Oraison, Eric Fuchs... Certamente houve outros além das fronteiras francófonas. Também havia revistas de ótimo nível. Penso na Supplément de la Vie Spirituelle... Não, não tenho a impressão de que a teologia moral tenha sido decadente. Ela estava em busca.”

O texto de Ratzinger, segundo o teólogo, não cria nenhuma “crise magisterial”: “Um papa emérito não tem mais autoridade magisterial, como, aliás, um prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé. O comportamento público de Bento XV após sua renúncia foi exemplar: manteve o silêncio, e, para esse documento, o primeiro tornado público depois de 2013, assegurou anteriormente o acordo para a publicação por parte do Papa Francisco e do cardeal secretário de Estado. Tendo sido o primeiro, ao contrário do seu antecessor, a sancionar os abusos sexuais do clero, ele tinha o direito moral de se expressar sobre esse assunto se o considerasse útil. O que ele escreveu deve ser situado nesse triste dossiê. O leitor tem o dever de recebê-lo com respeito, mas também o direito de avaliá-lo de acordo com seu próprio juízo. Em todo o caso, não é um documento magisterial”.

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