Desigualdades provocadas pelas mudanças climáticas é tema de simpósio em universidade católica americana

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11 Abril 2019

Os impactos das mudanças climáticas, tanto nos Estados Unidos quanto em todo o mundo, não estão afetando todos os grupos igualmente, disseram acadêmicos e ativistas em um simpósio de justiça ambiental no dia 3 de abril na Universidade Católica da América.

A reportagem é de Jesse Remedios, publicada por National Catholic Reporter, 10-04-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A conferência de um dia, intitulada “Dimensões sociais da crise climática”, foi promovida pelo Instituto de Pesquisa Política e Estudos Católicos e pela Escola Católica Nacional de Serviço Social, ambos da Universidade Católica, e pela Pastoral Universitária do Centro de Direito da Georgetown University.

Os palestrantes do evento enfatizaram como os desastres ambientais relacionados ao clima afetam desproporcionalmente as comunidades de baixa renda e as minorias em todo o mundo – uma realidade que eles disseram que vai piorar à medida que as temperaturas globais continuam aumentando em conjunto com o aumento das emissões de gases do efeito estufa.

“As mudanças climáticas vão impactar a todos, mas as pessoas que já estão em risco vão ter um impacto diferenciado”, disse Sacoby Wilson, professor de Saúde Ambiental Aplicada da Universidade de Maryland.

Cada um dos conferencistas falou durante 30 minutos antes de participar de uma seção de perguntas e respostas. Todos falaram sobre as realidades das mudanças climáticas, fornecem dados e exemplos de desigualdade e discutiram formas viáveis para lidar com a crise.

Delineando a crise atual

“Esta é a principal mensagem que queremos transmitir: as mudanças climáticas não são uma ameaça distante. Elas estão aqui e agora, e temos que trabalhar aqui e agora”, disse Astrid Caldas, cientista sênior do clima da Union of Concerned Scientists, uma organização nacional sem fins lucrativos de defesa da ciência.

Caldas descreveu o consenso científico de que as temperaturas globais aumentaram 1ºC em relação aos níveis pré-industriais. Esse aquecimento contribuiu para efeitos como furacões mais poderosos, elevação do nível do mar, incêndios florestais severos, chuvas intensas e o aquecimento do Ártico. Para localizar os impactos da região de Washington, Wilson apontou para o aumento do nível do mar em Maryland e o aumento de mortes relacionadas ao calor na capital do país.

Caldas disse que a sociedade, dependendo de sua resposta, ainda tem controle sobre o quanto as coisas podem piorar na segunda metade do século. Se as emissões mundiais de dióxido de carbono caírem de 40% a 60% dos níveis de 2010 até 2030 e chegarem a zero em 2050, ela disse que o aquecimento global pode ser limitado a 1,5ºC – muitas vezes considerado como um limite mais seguro, particularmente para as ilhas baixas e as comunidades costeiras – até o fim do século.

Limitar o aumento para 1,5ºC é importante, disse Caldas, já que cada meio grau de aumento da temperatura global cria graves consequências para milhões de pessoas em todo o mundo.

Contaminação sem representação

Os palestrantes do simpósio enfatizaram que as conversas gerais sobre adaptação e preparação para as mudanças climáticas não vão longe o suficiente.

“As mudanças climáticas, na minha opinião, não causam a injustiça ambiental. Elas a revelam”, disse Wilson.

“Devemos enfatizar os impactos desproporcionais sobre comunidades negras e de baixa renda”, disse Caldas. “Essa disparidade de distribuição de instalações de risco e de concentração de poluentes tóxicos perto de comunidades de baixa renda e de minorias passa, em grande parte, despercebida pela população não afetada.”

Wilson ilustrou essa disparidade nos Estados Unidos citando vários exemplos de racismo ambiental, ou o que ele chama de “escravidão” ou “opressão ambiental”:

  • depois do furacão Harvey em 2017, os vazamentos tóxicos nos bairros pobres ao redor do Houston Ship Channel, que atende ao maior complexo petroquímico dos Estados Unidos;
  • exposição de crianças ao chumbo em Flint, Michigan;
  • usinas que atualmente estão sendo construídas na cidade não incorporada de Brandywine, Maryland;
  • agricultores pobres que bebem água contaminada depois do furacão Matthew em 2016 e do furacão Florence em 2018.

Cada uma dessas situações, disse ele, exemplifica como o planejamento e o zoneamento tornam as comunidades marginalizadas mais vulneráveis aos desastres ambientais.

“Como podemos proteger as gerações futuras se temos crianças vivendo em ambientes tóxicos?”, perguntou Wilson. “O que estamos fazendo para abordar e melhorar a infraestrutura para tornar essas comunidades mais resilientes?”

Fatores socioeconômicos tornam os riscos e os desastres ainda maiores para as comunidades pobres, porque muitas vezes elas já não têm acesso a recursos como saúde, alimentos saudáveis e transporte público, disse Caldas.

Wilson também pediu ao público para pensar globalmente e estar ciente de quem é impactado pelo consumo de combustíveis fósseis. “O Norte global está impactando desproporcionalmente o Sul global”, disse.

Joan Rosenhauer, diretor executivo do Serviço Jesuíta aos Refugiados dos Estados Unidos, explicou como as mudanças climáticas estão provocando o deslocamento de pessoas em uma taxa nunca antes experimentada pelo mundo. Ela se referiu às mudanças climáticas como “multiplicadoras de ameaças”.

“As mudanças climáticas são consideradas agora como o fator-chave de aceleração de todos os outros impulsionadores do deslocamento forçado”, disse ela.

No caso da crise dos refugiados sírios, ela observou como uma seca de cinco anos precedeu o início da guerra em 2011 no país do Oriente Médio.

Segundo Rosenhauer, 41 pessoas são deslocadas a cada minuto em algum lugar do mundo devido a um evento climático extremo. Ela disse que a Agência para os Refugiados das Nações Unidas estima que cerca de 250 milhões de pessoas em todo o mundo serão deslocadas pelas mudanças climáticas até 2050.

“Paixão moral”

Em sua apresentação, William Dinges, professor de Religião e Cultura da Universidade Católica, vinculou a justiça ambiental à justiça social. Ele disse que o que está faltando no atual movimento climático é “paixão moral” e “energia moral espiritual”, semelhante às do movimento pelos direitos civis dos anos 60.

Caldas acrescentou que “a defesa dos direitos não é um palavrão” e enfatizou a importância de discutir a ciência com qualquer um que você possa, desde a família até os formuladores de políticas.

O cientista do clima também defendeu que as pessoas façam a sua parte na redução de emissões. Caldas disse que uma análise de 2012 da Union of Concerned Scientists constatou que, se cada residente dos Estados Unidos reduzisse sua pegada ecológica em 20%, isso seria o equivalente a desativar 200 usinas a carvão e substituí-las por fontes de energia limpa.

Wilson alertou contra os grupos ambientais que “sobrevoam” comunidades pobres para sugerir soluções sem primeiro construir uma relação com essas comunidades. Um princípio fundamental da justiça ambiental, disse ele, é que as comunidades “falem com a própria voz”, no sentido de que as comunidades marginalizadas precisam de um lugar à mesa ao se discutirem soluções para questões ambientais e possíveis caminhos a seguir.

“Temos que estar conscientes da nossa pegada de carbono”, disse, e entender “o que isso significa para a nossa humanidade conectada”.

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