Uma pesquisa que germina logo. O sistema de informação das plantas e sementes. Entrevista com Gabriela Auge

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04 Abril 2019

"Mova-se um pouco, você parece uma planta", diz o chefe de maneira depreciativa ao recém-admitido cadete. "No futuro, vai dar frutos, porém está muito verde, e ainda falta, necessita criar raízes", são ouvidos os murmúrios da plateia em La Bombonera, antes da estreia da jovem promessa. As plantas são as protagonistas de nossas piores descargas, compõem metáforas infelizes e, também, servem como adornos para embelezar nossas casas, mas não as vemos.

Não podemos vê-las em toda a sua complexidade: poucos sabem que surgiram há mais de 500 milhões de anos e que existem pesquisadoras tão fascinadas em compreender seu comportamento, que argumentam, que veem a realidade um pouco mais verde do que o resto dos mortais.

Uma delas é Gabriela Auge, doutora em Biologia Molecular (Universidade de Buenos Aires), biotecnóloga (Universidade Nacional de Quilmes) e pesquisadora do CONICET, no Laboratório de Biologia Molecular de Plantas do Instituto Leloir. Nesta ocasião, descreve em que consiste a "cegueira às plantas". Explica como se comunicam e trocam informações valiosas, e aponta o papel das sementes, nobres sentinelas que registram o evento que ocorre no ambiente.

A entrevista é de Pablo Esteban, publicada por Página/12, 03-04-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que você estudou biotecnologia?

No começo, eu estava interessada em genética, mas meus pais não queriam que eu fosse estudar em Misiones, porque ficaria muito longe e eu era muito jovem. Como vivia em San Nicolás (norte da província de Buenos Aires), decidi me instalar no sul, na casa de meus avós, para cursar biotecnologia na Universidade Nacional de Quilmes. Quando em 1997, conheci a instituição, me apaixonei. Embora eu fosse me dedicar ao desenvolvimento de vírus e vacinas, aconteceu algo que mudou minha perspectiva para sempre.

A que se refere?

Assisti a um curso de fisiologia vegetal dado por Guillermo Santamaría e fiquei maravilhada. Até então eu não sabia, mas era fascinada por plantas, então eu não hesitei um segundo: a partir daquele momento, decidi me especializar e tentar saber mais sobre o assunto. Agora, estou pensando nelas o dia todo, tenho uma espécie de obsessão, tanto que esgotei por completo meu marido que não sabe mais o que me dizer, pobre homem. O que acontece é que o ser humano tem cegueira às plantas.

O que quer dizer? Não as vemos?

Estamos tão acostumados a vê-las em todos os lugares que, às vezes, parecem que são móveis, meros adornos, e a verdade é que elas fazem tantas coisas que nem percebemos. O simples fato de germinarem, começarem a criar raízes e poderem viver dezenas ou centenas de anos é um fato formidável. São menos queixosas. Nós sentimos calor, protestamos imediatamente e corremos para um local com ar-condicionado, mas elas não podem. Então, desenvolvem outras estratégias para recuperar o equilíbrio danificado. E depois, por outro lado, há as sementes, um universo paralelo.

Essa é a sua especialidade.

Sim, claro, investigo como as sementes percebem o ambiente e tomam a decisão de germinar ou não. As plantas possuem um sistema muito sofisticado com fotorreceptores que lhes permite perceber o que acontece ao seu redor, a partir das diferentes longitudes de luz (de fato, têm a capacidade de "ver" do infravermelho ao ultravioleta). O vermelho e o "vermelho distante" são especialmente importantes para elas porque os usam como fontes de informação. Isso permite que elas saibam, por exemplo, se têm vizinhas.

Vizinhas que competem no mesmo cenário para absorver a luz.

Quando absorvem luz, realizam a fotossíntese e produzem os açúcares que os seres vivos do planeta comem. Em uma comunidade vegetal densa, encontram-se forçadas a acomodar seu desenvolvimento para se esticar mais verticalmente e passar sobre as outras plantas, ou então, para acelerar o processo de florescimento e deixar descendentes com velocidade.

Nas sementes, ao mesmo tempo, concentra-se muita informação necessária que, de acordo com o contexto, regula sua germinação. Concentro-me em analisar as bases moleculares que estão envolvidas na resposta à qualidade da luz em sementes de tomate e chamico (arbusto silvestre que invade as lavouras de soja). Existem certos genes que regulam o tempo de floração e germinação, de modo que transportam informações da planta para a semente.

Que informação é transmitida de geração em geração?

As sementes possuem três fontes de informação: seu próprio ambiente (sabem se estão sob outras plantas, que momento do dia é, quantos nutrientes existem no solo), a genética (dados que herdam de sua linhagem) e pistas não genéticas de que a "planta mãe" fornece a "suas filhas", que as ajudam a saber quando devem germinar.

Vejamos um exemplo: imagine que você é uma semente, hoje faz 20°C e você enfrenta um período de aproximadamente 12 horas porque o outono está apenas começando. Rapidamente, se pode pensar que as mesmas condições poderiam se desenvolver em um dia comum de primavera. Então, sendo uma semente, você poderia facilmente ficar confusa e tentar germinar, mas você não faz isso, porque você tem informações sobre o ambiente que lhe oferece premissas sobre o contexto da estação em que está.

Assim como acontece com os jornalistas, as sementes exigem várias fontes para saber como agir. Por que você examina a germinação?

Porque é o processo mais importante: uma vez germinadas, já não há retorno. Também é fundamental entender como as passagens de informação são produzidas entre as plantas e sementes que, entre outras coisas, têm todo o potencial para constituir um novo indivíduo. Como se isso não fosse o bastante, enquanto as plantas são sementes, podem ser movidas - são nômades. Por outro lado, quando criam raízes, a situação muda. Na história, evoluíram de maneiras muito diversas: algumas adquirem formas muito excêntricas, outras aderem aos animais, e há aquelas que devem ser digeridas pelos seres vivos para conseguir ser eliminadas em outras latitudes.

Como você investiga?

A partir do fitotron do Instituto Leloir, um laboratório equipado para estudar as condições físicas e químicas em que as plantas se desenvolvem. Não é o mesmo que examiná-las em um cenário selvagem, mas é necessário que isso aconteça porque há muitas variáveis que devemos levar em conta, controlar e supervisionar. Essa diferença entre os espaços (natural e artificial), em parte, também pode ser resolvida por meio de programas computacionais de simulação que se aproximam muitíssimo da realidade.

Para que pesquisá-las?

Por muitíssimas razões. De fato, todas as interações que realizamos diariamente têm componentes vegetais. Desde a blusa que você veste (algodão) até a salada ao meio-dia e a carne da noite (animal que teve que se alimentar previamente). Estudar plantas e sementes nos fornece ferramentas que podemos utilizar no manejo de florestas e localizar as melhores espécies para as tarefas de reflorestamento.

Isso nos ajuda a melhorar as comunidades de plantas naturais a partir de cruzamentos tradicionais e edição genética, e, como resultado, conseguimos uma melhor eficiência. Por exemplo, entre outras coisas, realizo uma colaboração com uma equipe do Japão para analisar as passagens de informações relacionadas ao arroz-malesa (uma cultura que embora se comporte como arroz, cresce como ervas daninhas e afeta a colheita). Na Ásia, perdas econômicas muito significativas são geradas.

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