O naufrágio do Ocidente. Entrevista com Sandro Veronesi e Tahar Ben Jelloun

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02 Abril 2019

“Não tínhamos o mar, mas a solidão, toda a solidão do mundo. Quando se tem 20 anos, o isolamento e a negação da liberdade se assemelham a um assassinato silencioso. Não tínhamos o mar, mas sonhávamos com ele.” Tahar Ben Jelloun tinha pouco menos de 30 anos quando deixou o Marrocos. Ele conta esse sonho em “A punição”: o que significa escapar de um punhado de homens que negam o seu direito de pensar – e, portanto, de ser – com o objetivo de manter o status quo e reprimir o impulso à mudança.

A reportagem é de Marta Serafini, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 31-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Avancemos rapidamente de 1971 até hoje, com milhares de jovens que todos os dias esperam para partir da costa africana. Muito poucos – cada vez menos – conseguem. E muitos morrem. Dezoito mil e sessenta e seis vítimas desde o naufrágio de Lampedusa em 3 de outubro de 2013 a janeiro de 2019, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Dezoito mil e sessenta e seis sonhos acabaram no fundo do mar.

O Mediterrâneo é um túmulo. Hoje, nessa margem, Sandro Veronesi, romancista, ensaísta e jornalista italiano, grita, com os seus “Cães de verão”, toda a dor de uma parte da sociedade atônita. Não só. Veronesi dá um corpo às palavras para combater esse muro – cada vez mais alto – que impede de sonhar com esse mar.

Eis a entrevista.

Extremismo, ódio. Mortes, torturas. E terror. O que está afundando nas águas do Mediterrâneo? Estamos todos nos afogando?

Tahar Ben Jelloun – Está afundando a nossa compaixão. Por ter me manifestado com calma, pacificamente, por um pouco de democracia, eu fui punido. Durante meses, eu fui apenas uma matrícula, a matrícula 10.366. Todos aqueles cujos números começam com 10.300 foram punidos pelo rei em Marrocos. Também no Egito, Nasser mandou os opositores marxistas para o deserto e os confiou a grupos de psicopatas para maltratá-los. Um dia, quando eu não esperava mais, reencontrei a liberdade. Finalmente, pude – como eu sonhava – amar, viajar, escrever e publicar livros. Eu era jovem então. Mas, para escrever “A punição”, para ousar a voltar a essa história, para encontrar as palavras adequadas, levei quase 50 anos. Porque a violência deixa sinais indeléveis na carne e na alma. Feridas, que a maioria de nós, felizmente, não conhece e nem sequer imagina. Mas o fato de não ter sentido algo na nossa pele não deveria nos fazer virar o rosto para o outro lado diante daqueles corpos que flutuam no mar.

Sandro Veronesi – Recordar a violência e, ao mesmo tempo, vê-la voltar é ainda mais difícil hoje. Já nos acostumamos com a paz. Nos últimos 50 anos, até mesmo os governos mais fundamentalistas tiveram que reconhecer alguns direitos. Foi um parêntese e um milagre. Primeiro, era tudo regulado com a violência. Depois, finalmente, o sangue deixou de correr. Mas agora, infelizmente, esse parêntese parece ter acabado. E o Mediterrâneo voltou a ser um campo de “batalha”, uma batalha que é travada sobre o corpo dos migrantes. Assumimos como óbvia a tortura, como se fosse uma passagem obrigatória. Ou, pior, chegamos ao ponto de negá-la para silenciar os nossos sentimentos de culpa.

O modelo democrático realmente entrou em crise por causa dos fluxos migratórios?

Tahar Ben Jelloun – As democracias europeias foram um farol para a margem Sul do Mediterrâneo. Política em árabe é siassa, do verbo sasso, isto é, dirigir, conduzir um animal, um jumento ou um asno. É preciso saber como guiar o animal para que ele chegue onde se quer que ele chegue. Fazer política é aprender a governar as pessoas. Mas, quanto mais se desce ao Sul, mais aqueles que aspiram à mudança são olhados com suspeita por aqueles que detêm o poder e já governam. É por isso que o Egito, a Tunísia e a Síria foram um desastre. Assad chegou até a massacrar o seu povo com a ajuda de países estrangeiros, como a Rússia e o Irã, e a bênção da Europa, a fim de não ceder o cetro do comando.

As primaveras árabes representaram um fracasso da Europa?

Tahar Ben Jelloun – Agora, na Argélia, milhões de pessoas voltaram às ruas. Foram manifestações bem organizadas, não violentas. Mas ninguém até agora conseguiu apoiar as revoluções. Com o resultado de que os jovens fogem para a Europa, considerando-a ainda o modelo, apesar de tudo. A vulnerabilidade da democracia está no seu coração: ela não tem os meios para responder a quem a ataca, e é por isso que agora não conseguimos enfrentar essa crise que põe em perigo os nossos próprios valores.

Que resposta pode ser dada, então? Como você escreveu, Veronesi, na carta a Roberto Saviano publicada no Corriere della Sera, é necessário colocar o corpo em defesa do direito?

Sandro Veronesi – Estou convencido da necessidade de defender a paz dos últimos 50 anos. Quero ser otimista e ver esse período como um teste de estresse a que estamos submetendo a democracia. Mas acredito que é necessário também pôr a nós mesmos em jogo. Se eu escrevo, a palavra deve se tornar extensão do corpo na defesa do direito. Como eu já escrevi, o que está acontecendo no Mediterrâneo é inaceitável, porque é inaceitável a propaganda que o acompanha e que inverte a realidade, chamando de “mamata” ou de “cruzeiro” a tortura a que esses seres humanos estão expostos, e se quer deixá-los à mercê dos contrabandistas ou da guarda costeira da Líbia, isto é, os verdadeiros “traficantes de seres humanos”, caluniando com essa definição as organizações não governamentais que tentam salvá-los. Tudo isso é atroz e provoca uma angústia que eu custo a suportar. E, como eu vejo que fim têm as palavras, agora que a mistificação superou, em termos de consenso popular, a informação correta, escrevi que era necessário pôr o nosso corpo à disposição. Porque nós somos um corpo, e as nossas palavras também vêm do nosso corpo, e o corpo é bem mais do que elas – o corpo é a própria vida.

Tahar Ben Jelloun – Quando eu estive na prisão, aprendi na minha pele que o corpo poderia ser tirado de nós. Você não pertence mais a si mesmo e não tem controle sobre nada. É uma sensação terrível, capaz de reduzir a alma aos níveis mínimos. E a única resposta para mim foi a poesia, que se tornou a minha aliada, o meu refúgio, o meu leito e as minhas noites. Eu cheguei a escrevi mentalmente à espera da oportunidade de encontrar um pedaço de papel para anotar os meus versos. Para mim, a resistência está na palavra.

Sandro Veronesi – Havia um jornal secular, na Argélia, que, no dia das eleições de 1991, aquelas ensanguentadas pelos ataques dos integralistas islâmicos, saiu com esta manchete: “Se votar, você morre. Se não votar, você morre. Então, vote e morra”. Nesse caso, não se trataria de morrer; se trataria aqui apenas de se deixar encobrir por insultos por um punhado de contas nas mídias sociais, por ter indicado com a autoridade do próprio corpo onde se encontra o erro e onde está a razão.

No mar, perdemos também o direito e o dever de ajudar os outros? Fala-se em criminalização dos bons...

Sandro Veronesi – Desde que o Mediterrâneo contribuiu para dar vida à civilização como a conhecemos hoje, isto é, há milhares de anos, o náufrago no mar sempre foi considerado sagrado: até mesmo os fenícios o traziam a salvo e lhe reservavam a honra da hospitalidade, mesmo que apenas por superstição, para que não chegassem a ofender os deuses aos quais o náufrago, ao partir, havia se recomendado. É inaceitável que essa regra seja suspensa hoje, com tanta superficialidade. Mas isso ocorre quando se fecham os portos, lugares de salvação e de abrigo.

Tahar Ben Jelloun – O Mediterrâneo se transformou em um enorme cemitério, com os seus 30.000 mortos. Diante disso, deparamo-nos com o dever moral de sondar as nossas responsabilidades. Mas, ainda antes, temos a obrigação de evitar cair na armadilha de criminalizar o outro, seja porque ele é mais fraco, seja porque decidiu estender uma mão aos seus irmãos.

Mas por que isso aconteceu? As sociedades mais velhas se sentiram ameaçadas pelas mais jovens e levantaram um muro para se proteger?

Tahar Ben Jelloun – Esta fase histórica deve ser observada a partir de diversos pontos de vista. Em primeiro lugar, há o racismo, que é a tendência a manifestar desconfiança e desprezo pelas pessoas com características físicas e culturais diferentes das nossas. O racista é aquele que pensa que tudo o que é muito diferente dele o ameaça na sua tranquilidade: ele tem medo do estrangeiro sem uma razão válida. Em particular, o racista tem medo de um estrangeiro, especialmente se for mais pobre do que ele.

O racismo é um comportamento instintivo: o homem, assim como os animais, tende a marcar o próprio território, a terra, os bens e, somente com a intervenção da razão e, acima de tudo, através da educação e da cultura, ele aprende a viver junto com a outros. É desse modo que ele se convence de que não está sozinho no mundo e que existem vários modos de viver e culturas igualmente válidas. No entanto, ao contrário dos animais, o homem muitas vezes tem preconceitos e tende a julgar os outros antes de conhecê-los. Isso provoca atitudes racistas.

Sandro Veronesi – Deixe-me acrescentar que houve governos que, justamente em nome desse racismo, começaram a violar as leis, até mesmo aquelas mais antigas do direito marítimo. Muitos cidadãos acham que não é certo deixar as pessoas morrerem no mar ou considerar a sua chegada como um problema. No entanto, um ato tão importante quanto o fechamento dos portos passou sem que houvesse um debate no Parlamento ou um ato oficial. A dificuldade está no fato de que não existe um tribunal para defender as leis do mar que os governos violam todos os dias, a começar pelo italiano. Desse modo, não conseguimos defender nem os direitos daqueles que partem, nem os nossos, pisoteados em nome de uma suposta proteção do nosso primado, que tal não é.

Tahar Ben Jelloun – Nesse cenário, porém, eu também ponho sobre a mesa as responsabilidades da Europa, que deixou a Itália sozinha para enfrentar o problema. São as camadas internas da União Europeia que geraram essa situação. E são os mesmos egoísmos que fizeram esse projeto entrar em colapso. Seria fácil se pudéssemos resolver a questão em nível jurídico. O problema tem causas estruturais mais profundas: sociais, políticas e econômicas.

Então, foi o fracasso do modelo europeu que causou esse curto-circuito?

Sandro Veronesi – E a ideologia da Frontex (a agência europeia que controla as fronteiras externas do espaço Schengen) que militariza todas as fronteiras. As fronteiras terrestres foram blindadas, e só restou o mar para viajar. Um mar, porém, perigoso de atravessar por conta própria, se não se tem outra escolha.

Tahar Ben Jelloun – Sim, com o resultado de que hoje se tornou cada vez mais difícil pegar um avião do norte da África para um país europeu. Eu cheguei à França em 1971 de avião, mas hoje a maioria dos meus compatriotas deve passar via terra ou via mar. É uma injustiça, uma loucura, que dói ainda mais todas as vezes que as imagens daqueles corpos no mar voltam novamente à tona.

Como se desfaz esse nó?

Tahar Ben Jelloun – Estou convencido de que o problema não pode ser resolvido na Europa. A União Europeia deve trabalhar com os países africanos para bloquear as partidas na origem. Tentativas foram feitas, é claro. Mas a ótica é sempre a mesma: a exploração econômica. Eu também penso no buraco negro em que a Líbia caiu. Por outro lado, há países ricos como o Gabão, a Nigéria e a Argélia, que poderiam viver dos seus recursos, mas que não conseguem se sustentar sozinhos. E é nesse âmbito que a Europa deve intervir. Fortalecê-los para deixá-los andar com as próprias pernas...

Sandro Veronesi – E ela deve fazer isso também em nome do passado colonial. E em nome de todas as riquezas depredadas. Os mortos no mar são o resultado da crueldade do sistema capitalista. Os fluxos migratórios da África foram criados pela Europa. Se temos uma visão histórica do problema, devemos reconhecê-lo e restituir ao Mediterrâneo aquilo que pegamos. O Mediterrâneo foi traído por todos nós.

Por um lado, o populismo e o terrorismo, por outro, as tentativas de resposta para tentar conter a maré do ódio. Pensamos na primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, que vestiu o véu após o atentado às mesquitas de Christchurch. A resposta da distante Nova Zelândia pode se tornar um modelo?

Tahar Ben Jelloun – Na França, alguns intelectuais estão repropondo conceitos como a substituição da raça ou a pureza da raça cristã. Isso certamente tem a ver com a onda de suprematismo que varreu o mundo, incluindo os Estados Unidos, e da qual encontramos rastros inquietantes nos escritos do assassino de Christchurch. Seguramente, o ataque às mesquitas na Nova Zelândia nasce nesse contexto. As palavras de ódio geram atos violentos. E é por isso que eu me irrito quando ouço os jornalistas franceses oferecendo ao público as suas teorias. Não tanto porque eu não as compartilhe, mas porque eu sempre penso no fascínio que podem ter em uma mente predisposta à violência.

Sandro Veronesi – O ataque verbal contra os mais fracos em si só já constitui uma forma de violência. Enquanto não conseguirmos ver o multiculturalismo como um recurso e não como uma imposição ou como um vício, então não sairemos dessa armadilha. Se me sinto no direito de insultar quem quer que seja diferente de mim, então eu já sou violento. Seja no Twitter ou no meio da rua... A resposta para tudo isso, na minha opinião, foi dada pelo Papa Francisco.

A Igreja como guardiã do Mediterrâneo?

Sandro Veronesi – O Papa Francisco não diz que é preciso defender a cristandade, não se levanta como hierarca da fé, como os seus antecessores fizeram durante séculos, mas prefere sugerir soluções e enviar mensagens positivas. Ele responde com a paz e o diálogo ao fundamentalismo, seja ele islâmico, católico ou de qualquer outra matriz. E é um bom impulso de reflexão, ainda mais quando vem de uma instituição tradicionalmente ligada ao poder como a Igreja. Ele confirma, portanto, aquelas aberturas que o vimos ousar em outras ocasiões, como no caso dos migrantes. Em um certo ponto do debate, ele me pareceu o único a dizer algo de bom senso.

Tahar Ben Jelloun – Certamente, a viagem do pontífice ao Marrocos nesses dias representa uma esperança e uma abertura para o diálogo inter-religioso. É a primeira vez de um papa no meu país. Eu li que ele se encontrará com o rei e visitará a escola dos imãs, onde se formaram cerca de 800 ulemás (estudiosos do Islã), homens e mulheres provenientes do Mali, da França, da Líbia, da Nigéria, da Tunísia ou da Costa do Marfim. Não sei se essa é a chave, mas certamente representa um bom ponto de partida.

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