Terremoto no Planalto Central

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30 Março 2019

"O terremoto, juntamente com suas consequências devastadoras, é previsível", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo.

Movem-se no Planalto Central as placas tectônicas do projeto político econômico (supondo que haja algo parecido a isso, com objetivos e metas, estratégias e meios, etc.). O Ministro Dias Toffoli, pelo Supremo Tribunal Federal; o presidente Jair Bolsonaro, pelo Governo recém-empossado; e o deputado Rodrigo Maia, pela Câmara dos Deputados – há dias vêm mantendo o território brasileiro em estado perigosamente buliçoso. Farpas azedas de um lado e de outro, acrescidas pelos comentários da mídia, afetam por sua vez o humor sempre sensível do mercado. A temperatura sobe de forma exponencial e não se vê no horizonte nenhuma figura com a capacidade e a missão de bombeiro eficaz, a não ser o Ministro Paulo Guedes.

O terremoto, juntamente com suas consequências devastadoras, é previsível. Também o são os resultados nocivos para a Reforma da Previdência, deixando de lado outros projetos em curso, ou então as promessas de campanha a serem cumpridas. Mais previsível, porém, é a certeza de que a conta de tais turbulências deverá ser paga pelos setores menos protegidos e mais pobres da população, pelos estratos de baixa renda, sem vez e sem voz. De fato, os tremores entre os três poderes da União – como toda crise que sacode um organismo vivo e orgânico – torna o terreno propício para dois movimentos aparentemente contraditórios, mas ambos de igual e vertiginosa velocidade: a queda dos ineptos ou indesejados, acompanhada pela ascensão dos oportunistas de cada momento. Crises costumam derrubar gigantes e levantar anões.

A exemplo do jogo de xadrez, as peças tendem a cair uma a uma quando fatores alheios às técnicas da disputa entram em cena. Fatores alheios às relações normais entre os três poderes de uma administração democrática são, por exemplo, o personalismo e/ou nacionalismo populista de direita, bem como a forma intempestiva e truculenta com que ele costuma se manifestar. Igualmente alheio à prática democrática é a presença ausente, mas forte e influente, do que a mídia vem chamado “Bruxo da Virgínia”, Olavo de Carvalho. Fator alheio, ainda, é o fogo amigo e voluntarioso de familiares, parentes e conhecidos. Tais peças estranhas quando entram em campo, baralham as regras, semeiam intrigas, causam atritos e tempestades em copos de água, ampliam o tom de determinadas frases extraídas do contexto original, além de fazer muito ruído. Daí a rumorosa travessia que a nave Brasil enfrenta nestes dias.

De outro lado, convém jamais ignorar que o clima de crise e turbulência serve, por vezes, como trampolim para a escalada dos oportunistas de todas as horas. Cinzas, ruínas e escombros lembram o cenário desolador de um conflito armado. Mas dentro desse cenário, ou a partir dele, há sempre quem consiga fazer sua fortuna. Em muitas ocasiões, o mal de uns serve ao bem de outros, beneficiando em geral uma pequena minoria em detrimento da maioria que habita a planície. Não raro o próprio sistema capitalista renovou, lubrificou e rejuvenesceu seu motor após sangrentos combates, como nos dois pós-guerra do século XX.

Não é diferente no campo da política. Mover uma peça, soltar uma palavra, postar uma imagem ou comunicar-se através das redes sociais pode conduzir à queda ou à promoção dos diversos protagonistas em jogo. Passando para o futebol, metáfora brasileira por excelência, resta saber quantos jogadores o time tem à disposição no banco de reservas, qual o momento certo para fazer a substituição e se Fulano e Sicrano encontram-se aptos para tomar o lugar de quem deve deixar o campo. Mas, acima de tudo, quem de fato age como técnico? Quem mantém as rédeas do comando? Seja como for, fica a lição! Em campo minado não se corre, e tanto menos se caminha em linha reta. Os tuítes e rompantes acalorados do capitão causam mais resistência que eficácia. O caos e o desinteresse tendem a abater os sensatos e erguer os que estão à espreita de uma oportunidade. Mais do que nunca, a regra de ouro permanece o diálogo, a escuta e a boa vizinhança, numa sadia relação entre os três poderes democráticos.

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