''As soluções precisam ser encontradas junto com toda a Igreja, não apenas em Roma.'' Entrevista com Reinhard Marx

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29 Março 2019

“O que precisamos imaginar não é uma nova Igreja, mas sim uma Igreja que se situe de outro modo”, afirma o cardeal Reinhard Marx, de Munique, na Alemanha.

A reportagem é de La Croix International, 28-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fazendo uma visita ao La Croix durante uma conferência em Paris organizada pelas conferências dos bispos alemães, suíços e franceses sobre “O bem comum na Europa”, o cardeal Reinhard Marx, de Munique, membro do conselho consultivo de cardeais do Papa Francisco, reflete sobre a crise que a Igreja está passando atualmente.

Eis a entrevista.

Como o senhor vê a crise que a Igreja Católica está experimentando hoje?

Desde o Vaticano II, perguntamo-nos como a Igreja deve se situar dentro de uma sociedade moderna e pluralista, em que as pessoas são livres para acreditar ou não que Jesus ressuscitou e que elas podem realmente se encontrar com Ele. O que precisamos imaginar não é uma “nova Igreja”, mas sim uma Igreja que se situe de “outro modo”. Os próprios católicos indicaram que querem mudanças.

No entanto, esse é um processo lento e doloroso – a conscientização não ocorre no mesmo ritmo em todos os lugares, e alguns preferem buscar segurança no passado. Isso é reforçado hoje por uma perda de credibilidade resultante das revelações de abuso sexual, bem como pela falta de transparência financeira e por uma cultura do sigilo.

Essa crise nos forçou a relançar o nosso substantivo trabalho. A Igreja não pode mais se satisfazer apenas em pregar. O Papa Francisco entendeu isso claramente, como ilustrado pelo seu modo de se dirigir aos católicos e buscar uma nova maneira de convidar as pessoas à fé.

A Igreja alemã muitas vezes parece estar na vanguarda dos pedidos de reforma. Ela também está à frente na sua compreensão das mudanças que estão ocorrendo agora?

Alguns acham que estamos à frente, mas outros nos consideram hereges! No entanto, temos muitos professores de teologia, incluindo muitas mulheres, que ensinam em cerca de 20 faculdades e institutos teológicos. Eles são hábeis em escrever, discutir, publicar e, assim, alimentar o debate. Além disso, os leigos estão muito bem organizados nas paróquias, nas dioceses, nos movimentos de fiéis e no Comitê Central dos Católicos Alemães. Na crise atual, este último grupo trabalhou em estreita colaboração com os bispos, mas também desempenhou um papel crítico.

Finalmente, a Alemanha é a única nação europeia onde não existe uma única Igreja dominante, mas sim duas. Os protestantes são tão numerosos quanto os católicos. Os teólogos protestantes também se expressam livremente nos jornais e na TV, o que ajuda a estimular o debate.

O senhor tem alguma proposta concreta na Alemanha para “reconstruir a Igreja”?

Nós não temos uma “resposta alemã” para a crise! O caminho a ser seguido precisa ser buscado junto com a Igreja universal, e não apenas em Roma. Não podemos conceber a Igreja universal sem as Igrejas locais. Ela não é uma pirâmide. As pessoas podem aprender com a Igreja na Alemanha, mas não nos esqueçamos de que, assim como outros países, tivemos os nossos fracassos. Em toda a parte, as nossas Igrejas estão perdendo membros, exceto, talvez, ao que me parece, na Coreia do Sul. Por quê? Porque o cristianismo lá parece uma religião do futuro.

Precisamos nos convencer mais uma vez de que a Igreja é uma força para o progresso, uma resposta para o hoje e para o amanhã. E para isso é necessário voltar ao Evangelho e à caridade com os pobres. Para nós cristãos, todo homem e mulher, qualquer que seja a sua cor, religião ou orientação sexual, é feito à imagem de Deus. Nós pertencemos à mesma família, e essa afirmação, em sua radicalidade, nos distingue das outras religiões. Essa é a mensagem que é mais necessária hoje!

Isso significa que as reformas estruturais são secundárias?

O testemunho é uma prioridade. No entanto, evidentemente, também sou favorável a uma organização melhor e a uma distribuição melhor de responsabilidades. Levei vários anos para me conscientizar disso, mas me parece claro que não podemos mais convocar Sínodos dos Bispos sem também convidar leigos, tanto homens quanto mulheres. Isso é urgente.

Outro problema surge a partir da confusão entre sacerdócio e poder. É nosso dever distinguir melhor isso e prever um maior acesso ao poder. Também precisamos encontrar modos de envolver as mulheres no governo da Igreja. Em última análise, serão necessárias uma nova reflexão e uma nova visão do poder. Durante a nossa Assembleia Plenária há duas semanas, nós, como bispos, também trabalhamos sobre a vida dos padres. Como formar padres capazes de viver o celibato de maneira satisfatória? E como ajudá-los a fazer isso? Temos ordenado homens que não têm maturidade emocional suficiente? Na minha opinião, o celibato é possível, mas também é necessário integrar os aspectos comunitários.

Também é necessária a reflexão sobre a questão dos viri probati [a ordenação de homens casados de idade madura e fé testada]. Precisamos abordar todas essas questões, assim como certos pontos da nossa moral sexual, por exemplo, a homossexualidade, inclusive entre o clero.

Como o senhor responde àqueles que temem que essas mudanças estejam indo longe demais e que desafiem a fé católica?

Eu recebo cartas de pessoas que suspeitam que eu esteja suavizando a doutrina. Precisamos ser mais firmes e claros, dizem elas. Evidentemente, não se trata disso. A fé não é um fardo, mas um caminho. O objetivo também não é “adaptar-se ao espírito dos tempos”, como temem algumas pessoas. O que o Concílio Vaticano II nos pede é “ler os sinais dos tempos” à luz do Evangelho, o que é muito mais desafiador. Se lermos o Evangelho juntos nas missas todos os domingos e se juntos servirmos aos pobres, então conseguiremos encontrar o caminho certo. Semear divisão e desconfiança entre nós é o trabalho do diabo. Busquemos juntos o que o Senhor espera de nós. E aceitemos que existem vários caminhos de fé.

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