O Papa na Universidade Lateranense: o inverno demográfico, efeito de um individualismo "cômodo e mesquinho"

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28 Março 2019

Todos esperavam por ele no Campidoglio. Poucos, muito poucos, sabiam que na agenda da manhã do Papa estava prevista outra etapa: a Pontifícia Universidade Lateranense. Por volta das 8h45, Jorge Mario Bergoglio chegou ao histórico "Ateneu dos Papas", que ainda não tinha recebido uma sua visita (o último Pontífice foi Bento XVI em 2006), entrando de surpresa na Aula Magna e indo sentar-se diretamente nas bancadas dos oradores para orientar a tradicional meditação quaresmal, sem sequer dar tempo, aos muitos alunos e professores que se levantaram para aplaudir, para metabolizar o que estava acontecendo. "Há também um pouco de arrogância na atitude de um Papa que entra pela porta, sem nem dizer "bom dia", e começa a dar o sermão. Agora posso dizer: bom dia! O sermão está feito”, brincou Francisco no final de sua manifestação.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr. e Salvatore Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 26-03-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Ao lado dele estavam o cardeal vigário Angelo De Donatis, grão chanceler da Universidade, e o reitor Vincenzo Buonomo. Na plateia, a comunidade universitária quase completa, convocada para o evento e intrigada com as idas e vindas dos seguranças no saguão e nos corredores. Bergoglio encontrou e cumprimentou pessoalmente boa parte dos professores, decanos, diretores e pessoal na hora da despedida, depois de cerca de uma hora e meia, para dirigir-se ao Campidoglio. Primeiro, ele orou por alguns minutos, em silêncio, sozinho, na capela e benzeu um crucifixo de madeira doado a ele na Ucrânia como agradecimento pela ajuda da Santa Sé às populações do país que vivem as consequências de um dramático conflito.

Em sua reflexão foram muitos os temas abordados pelo Papa, começando com a "doença do individualismo". Aquele "cômodo e mesquinho", "preocupado apenas com o próprio bem-estar, com o próprio tempo livre e com sua autorrealização", para o qual "todos nós" somos empurrados cotidianamente. "Vou me demorar para tocar em um ponto que me causa sofrimento: o nosso inverno demográfico", acrescentou de improviso o Papa. "Mas por que você não tem um filho, pelo menos, ou dois?" "Não, mas penso, eu gostaria de fazer uma viagem, vou esperar mais um pouco ...". E assim os casais continuam sem ter filhos. Por causa do egoísmo, para ter mais, até mesmo para fazer viagens culturais, mas os filhos não chegam. Essa árvore não dá frutos".

"O inverno demográfico que todos sofremos hoje é justamente o efeito desse pensamento único e egoísta, voltado apenas para si mesmo, que só busca a "minha" realização. Vocês, estudantes, pensem bem sobre isso: pensem em como esse pensamento único é tão "selvagem" ... Parece muito cultural, mas é "selvagem", porque impede que você faça história, que deixe uma história trás de si", enfatizou o Pontífice. “Como isso tudo é perigoso, como nos separa dos outros e, portanto, da realidade, como nos deixa doentes e delirantes! Tantas neuroses ... Frequentemente se transforma rapidamente em uma exaltação do próprio "eu" pessoal ou do grupo, no desprezo e no descarte dos outros, dos pobres, na recusa de deixar-se questionar pela evidente ruína da criação!”.

"Isso é uma vergonha!", exclamou Francisco. E, como antídoto à doença do individualismo, indicou “a ‘mística do nós’ que se torna o fermento da fraternidade universal": dela descende "o imperativo de escutar no coração e fazer ressoar na mente o grito dos pobres e da terra". Neste sentido, o Papa recordou uma anedota pessoal: "Certa vez, um jovem sacerdote me aprontou uma armadilha e me disse: ‘Diga-me, padre, qual é o contrário de 'eu'?. E imediatamente eu respondi: ‘Tu’. ‘Não, padre, até os Papas erram, não. O contrário de 'eu' é 'nós'. Nós. É o que nos salva do individualismo, tanto do ‘eu’ quanto do ‘tu’".

"O caminho acadêmico que vocês estão percorrendo nesta Pontifícia Universidade", prosseguiu o Papa, referindo-se também ao ciclo de estudos em Ciências da Paz por ele instituído, "visa não isolar vocês deste contexto, mas sim habitá-lo com consciência crítica e capacidade de discernimento, em vista daquela ação na qual se expressa a vossa contribuição para a vida cultural e social do mundo". Olhando para o futuro, porém, não se deve esquecer "as raízes", cuja seiva é "a memória" que "faz a árvore crescer e florescer".

"Eu gostaria muito - foi o desejo do Papa para a comunidade da Lateranense - que no planejamento do futuro vocês guardassem a memória de ser povo, de ter uma história com luzes e sombras, de serem protagonistas no hoje daquele diálogo de amor entre Deus e os homens que atravessou os séculos! Os sonhos dos pais alimentarão e provocarão as vossas visões para o presente. O sentimento de fazer parte de um povo de pecadores vos dará os anticorpos para não cometer os mesmos erros: para com Deus, para com os outros, para com toda a criação”.

O risco é, na verdade, o de fechar-se "em círculos acadêmicos sem visão, brincando com conceitos, em vez de interpretar a vida, agarrando-se a fórmulas, mas afastando-se da existência real das pessoas". Por essa razão, o Papa pediu para realizar "uma mudança radical de paradigma" dentro da universidade, uma "revolução cultural corajosa" que produza "uma verdadeira hermenêutica evangélica, para melhor compreender a vida, o mundo, os homens" e superar "a lógica do iluminismo”.

Finalmente, o Papa Francisco dirigiu-se aos jovens a quem pediu "um pouco de imprudência", mesmo diante de Deus, e lhes desejou estarem "abertos ao futuro, empreendedores e corajosos para sonhá-lo e planejá-lo". "Obrigado! Orem por mim ", concluiu, porque - como dizem na Argentina - às vezes cabe a mim ‘dançar com a mais feia’! ... Então vamos em frente, e vamos em frente juntos. Orem por mim, eu vou orar por vocês. Não percam a vossa juventude, não percam o vosso senso de humor, não percam! Ver um jovem amargurado é muito ruim”.

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