A Rota da Seda não pode existir sem a confiança entre a China e o Vaticano

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26 Março 2019

Está sendo lançado hoje em Roma o livro “A Igreja na China. Um futuro ainda por escrever” (Ancora), editado pelo diretor de “La Civiltà Cattolica”, Antonio Spadaro, e dedicado às relações entre a Igreja católica e a China depois do acordo estabelecido entre o Vaticano e Pequim em relação à nomeação dos bispos. Intervêm o superior geral dos jesuítas, Arturo Sosa, monsenhor Claudio Maria Celli e o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte. O padre Antonio Spadaro é o moderador. Por ocasião desta conferência, publicamos uma das análises do próprio padre Spadaro.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 25-03-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

É um dado comprovado que a China está desempenhando um papel relevante na organização dos intercâmbios comerciais globais. A história hoje deve nos ajudar a entender a globalização dos intercâmbios comerciais globais. A história precisamente agora deve nos ajudar a compreender que a globalização não coincide com a “ocidentalização” do mundo, mas que deve ser enquadrada dentro de uma perspectiva mais ampla.

De fato, é tempo de recorrer à longa história da “Rota da Seda”, ativa entre o primeiro século a.C. e o século XVI. Volta-se a descobrir um continente euro-asiático que no primeiro milênio esteve profundamente interconectado, inclusive sob o aspecto cultural. A Rota da Seda, tal como Pequim pretende fazer avançar, retoma séculos de história de relações políticas e comerciais. Por isso exige grande atenção na atualidade. É um projeto global de raízes profundas.


Mapa da nova rota da Seda. Fonte: Mercator institute for China Studies | publico.pt

Mudança de mentalidade

Assinado o memorando com todas as reações que suscitou, agora devemos olhar adiante e considerar que a iniciativa chinesa não pode ser avaliada somente segundo sua relevância em âmbito econômico e financeiro. Seria pura cegueira. Pequim insiste muito sobre os intercâmbios culturais entre os povos da porção euro-afro-asiática, e o faz convertendo recursos em inúmeras iniciativas dedicadas ao patrimônio cultural imaterial: museus, feiras, exposições. A cultura é fundamental na estratégia da China para garantir a própria influência internacional.

Seguramente estamos vivendo a superação da modernidade ocidental e uma mudança de mentalidade tanto no Oriente como no Ocidente. Os historiadores se perguntam se estamos experimentando o final de quinhentos anos de predomínio ocidental. O debate reflete o dilema de uma sociedade do oeste que sente que o futuro do mundo está cada vez mais em suas mãos.

A presença dos demais grandes atores no cenário internacional (a Índia, Japão, Brasil, Rússia) faz com que o contexto seja muito complexo e exige uma governança global. A Europa, neste sentido, deve encontrar um perfil coerente. E depois, não esqueçamos de sujeitos como as empresas multinacionais e transnacionais, organismos não governamentais. Não é imaginável um Oriente que surja e afunde diante do Ocidente. Como tampouco são imagináveis um Oriente ou um Ocidente no qual haja um “centro” único relacionado a tantas periferias. O olhar geopolítico que Francisco utiliza desde que começou seu Pontificado insiste em inverter o esquema esclerótico das relações entre um “centro” e suas “periferias”.

A cultura europeia, pelo menos até a Ilustração, sempre olhou com atenção a realidade chinesa. Testemunho disso é o cristianismo. As esplêndidas cartas dos missionários jesuítas na China (verdadeiras reportagens) foram, ao mesmo tempo, oportunidade de conhecimento da cultura chinesa por parte dos intelectuais, inclusive afastados da fé, como Voltaire, Montesquieu, Rousseau. Os jesuítas, de alguma maneira, “sintetizaram” isso para a Europa. Posteriormente, ao contrário, prevaleceu o sentido de superioridade. O colonialismo europeu entre os séculos XIX e XX impôs uma visão eurocêntrica. As Guerras do ópio fizeram com que o cristianismo parecesse para a população chinesa como uma religião estrangeira, a dos colonizadores.

Francisco contradisse claramente em várias ocasiões esta visão colonial. Recordemos que, no final de sua viagem a Myanmar e Bangladesh, falou explicitamente do novo papel que a China está desempenhando no contexto internacional. Disse: “A China de hoje é uma potência mundial: se a olharmos deste lado, pode mudar o panorama”.

A “mudança de panorama” evocada pelo Pontífice sintetiza as reflexões que temos feito até agora. E neste “panorama” é preciso situar o acordo provisional de 22 de setembro passado entre a China e a Santa Sé. O porta-voz do ministério do Exterior de Pequim, Geng Shuang, à margem da viagem do presidente Xi Yinping para a Itália, afirmou que esse acordo “constitui uma etapa importante. A China está disposta a seguir nesta direção com o Vaticano, a implementar um diálogo construtivo, a melhorar a compreensão, a instaurar uma confiança recíproca e a promover a melhoria das relações bilaterais”.

Muitos esperavam um encontro entre Xi e Francisco em Roma. Mas também é verdade que a confiança deve se construir solidamente. O que é certo é que a Rota da Seda, por seu alcance e suas ambições, não poderá se realizar sem esta confiança crescente entre Pequim e Roma, entendida como a sede de Pedro, dada a natureza global do cristianismo. E este acordo põe a coluna espiritual que foi fundamental para sustentar a Rota da Seda da época Tang, na qual o presidente Xi se inspira.

O diálogo

De fato, precisamente pela Rota da Seda foi realizado um extraordinário encontro entre tradições religiosas diferentes: cristãos, muçulmanos, zoroástricos e budistas se encontraram e viveram lado a lado. Precisamente neste ambiente pluralista, o cristianismo estava disposto a entrar em um diálogo fecundo com tradições culturais e religiosas muito diferentes da tradição hebraica e da tradição greco-helenista com as quais se confrontou no princípio.

Mas ao longo da Rota da Seda estão os países árabes. A conquista turca de Istambul, de 1453, e a afirmação do Império Otomano foram algumas das causas que provocaram a interrupção da Rota da Seda. Agora a fratura entre o Oeste e o Leste deve ser sanada. E China e os Emirados Árabes Unidos já assinaram acordos que unem estes dois mundos.

Não podemos esquecer, neste sentido, que o outro evento de forte impacto geopolítico de Francisco, além do evento chinês, é o Documento sobre a fraternidade humana assinado em Abu Dhabi com o imã de al-Azhar. Não é difícil compreender que a paz no mundo também passa pela China e pelo Islã, duas grandes prioridades do Pontificado de Francisco, que se muniu de agulha e linha muito resistentes.

O cristianismo na época Tang ao longo do itinerário da Rota da Seda permaneceu fiel ao Evangelho, assumindo plenamente o vocabulário budista e taoista, tornando-se, sem temores nem combinações, plenamente chinês: muitos séculos antes de Matteo Ricci.

Os antigos vínculos, graças ao Acordo de setembro, voltarão a se entrelaçar com maior harmonia. Confia-se que se faça como quando se anda de bicicleta: com a velocidade correta, para poder permanecer em equilíbrio e seguir adiante sem parar.

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