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23 Março 2019

Lãs vegetais e animais, cascas de tomate, cascas de uva, palhas de trigo ou de cânhamo: todo resíduo é bom para Daniela Ducato e para a equipe multidisciplinar com quem colabora, desde que seja natural. Em suas mãos, os excedentes e os resíduos especiais das empresas são transformados em preciosas matérias-primas que dão vida a produtos ecológicos, de alta performance, que, no fim da vida, não se tornam lixo.

A reportagem é de Andrea Degl’Innocenti, publicada no caderno Extraterrestre, do jornal Il Manifesto, 21-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No fim das contas, não há nada de novo: é o que os ecossistemas naturais fazem há milhões de anos, em cujo interior os “resíduos” de um elemento se traduzem em alimento para outros. No entanto, nos nossos sistemas de produção lineares, isso parece quase impossível.

É difícil encerrá-la em uma definição: é pluripremiada em todo o mundo como empresária – justamente no último dia 4 de março ela recebeu o enésimo reconhecimento, o Prêmio Inovação 2018 do presidente da República italiana –, mas não possui empresas nem ações (para manter o seu olhar externo e objetivo, ela nos diz). Ela faz inovação, mas está a anos-luz de distância daquela imagem de startup digital que muitas vezes temos em mente quando pronunciamos a palavra “inovação”.

Ela traz consigo a franqueza um pouco melancólica da sua terra, a Sardenha, e talvez justamente graças a isso ela consegue olhar na cara do mundo pelo que ele é, mantendo intacta a capacidade de imaginar um mundo diferente. Ela se define como freelancer, especialista em economia circular, mas é muito mais: por onde ela passa, as trajetórias lineares da economia se curvam, nascem sinergias entre empresas, os resíduos se tornam preciosas matérias-primas.

Alguns exemplos. O cultivo do cânhamo teve um crescimento significativo na Itália nos últimos anos; no entanto, existem vários resíduos não homogêneos do processamento que não podem ser utilizados pela indústria têxtil nem por outros setores envolvidos (zootecnia, engenharia). Esses resíduos são, por lei, especiais, que os produtores pagam para poderem descartar corretamente, mas, em nível organoléptico, eles mantêm intactas as propriedades do material.

Então, por que não os comprar (transformando um custo em um benefício para os produtores) e utilizá-los para fabricar produtos de alto desempenho? Depois de um atento estudo das propriedades do cânhamo, a equipe de Ducato projetou o Edilana Hemp, um isolante térmico de alto desempenho para a construção de laboratórios, que, no fim da vida, não precisa de nenhum tratamento especial e voltar a ser terreno fértil.

Mesmo conceito, mudando de material: a cortiça. Os resíduos desse processamento, provenientes dos setores vitivinícola e calçadista, também são especiais; através da biotecnologia Edisughero, eles são coletados e utilizados para fazer um segundo tipo de isolamento térmico para a bioengenharia, que, também neste caso, no fim da vida, biodegrada-se facilmente.

Além disso, a partir dos resíduos de argilas do setor agroalimentar, não homogêneos e não mais utilizáveis, obtém-se uma agricerâmica de revestimento. E assim por diante.

Hoje, nas cadeias de produção Edizero, que reúnem os frutos desses anos de projeto e experimentação, são feitos, com quilômetro zero, mais de 120 produtos: isolantes térmicos, tintas naturais para apartamentos, argamassas, pré-misturas. Tudo feito com excedentes ou resíduos de outros processamentos, como a lã curta, a cortiça, o cânhamo, vários resíduos vegetais, descartes de subprocessamentos agroalimentares. Essas cadeias se valem de uma equipe multidisciplinar de engenheiros, agrônomos, químicos, biólogos, geólogos, médicos: todas competências essenciais para captar a complexidade dos problemas e encontrar soluções eficazes. A economia circular, por outro lado – como Daniela Ducato mesmo repete – precisa de complexidade, unidade e democracia também em seu interior.

A última criação nascida do trabalho dessa equipe chama-se Terramia, ponto de inovação máximo que une as tecnologias da indústria 4.0 com a economia circular e a sustentabilidade ambiental. Começa-se com a observação de um problema: os produtos em pó para construção (o departamento de produção mais impactante em nível mundial) são compostos de minerais importados com caminhões e navios de todo o mundo, são trabalhados com processos centralizados muito energívoros e, enfim, novamente transportados por longas distâncias para serem distribuídos, com custos ambientais, energéticos e de transporte muito altos. Um produto potencialmente simples, como uma pré-mistura, acumula, assim, uma energia cinza muito alta.

Terramia derruba o paradigma: produz pequenas quantidades de materiais “sob medida” para os clientes. Não gera resíduos e produz pré-misturas naturais e de alta qualidade. Os materiais são processados e confeccionados in loco ou quase, a produção ocorre no mesmo território, e a distribuição é em quilômetro intercambiado (ou seja, explorando a rede comercial já existente, sem gerar novo tráfego). Todo o estabelecimento opera com menos de 6 kw/h.

Em qualquer que seja a empresa ou o produto, quando falamos em Daniela Ducato e da sua equipe, os princípios básicos são sempre os mesmos: partir de materiais que sejam descartes ou excedentes vegetais, animais ou minerais, facilmente recuperáveis in loco, trabalha-los de maneira natural, obter produtos úteis e com altíssimo desempenho técnico e, enfim, no fim do ciclo de vida, restituir substâncias perfeitamente biodegradáveis ou inertes.

Esse mecanismo produz uma série de interessantes “efeitos colaterais”: nascem simbioses industriais, as empresas de um território estabelecem dinâmicas colaborativas, e não competitivas (aquelas que a empresária define, com um neologismo, como “multirrelacionais”), compartilham-se conhecimentos e competências.

O processo que leva a esse tipo de soluções inovadoras não parece ser impulsionado, como acontece com frequência, pela necessidade de inovar a todo o custo. Pelo contrário, nasce de uma rigorosa observação da realidade na sua complexidade.

Somente quando são identificadas criticidades sistêmicas sobre as quais é preciso intervir é que se passa para o lado inventivo e criativo, no qual as sinergias e a multidisciplinaridade são centrais. Enfim, chega-se ao projeto e à fabricação dos produtos. Embora os últimos sejam únicos como “filhos” do contexto em que nasceram e das suas exigências, o esquema parece relativamente simples de replicar em outro lugar por quem quiser fazer experiências de economia circular.

Os modelos de economia circular parecem ser atualmente a alternativa mais adequada para resolver os problemas ligados a ciclos produtivos e resíduos. No entanto, muitas vezes, faz-se referência a eles de maneira superficial, imaginando um sistema em que se busca “reciclar o máximo possível”, sem intervir a montante nos processos produtivos. Mas, em um sistema econômico linear, em que os produtos são projetados para serem frágeis e difíceis de consertar, com embalagens feitas com centenas de plásticos e materiais diferentes (muitas vezes misturados), a coleta seletiva e a reciclagem já mostram os seus enormes limites estruturais.

A economia circular, a verdadeira, é algo muito mais complexo: um conjunto de processos econômicos e produtivos que visam ao equilíbrio com os recursos e as dinâmicas dos ecossistemas do planeta. Reduzir a utilização de recursos, projetar os objetos para que sejam mais duráveis, resistentes e consertáveis, reduzir as embalagens, relocalizar os processos produtivos, introduzir mecanismos de simbiose industrial, passar do uso individual ao compartilhado de muitos produtos e serviços, reduzir drasticamente a produção de resíduos.

Em outras palavras: tornar todos os processos econômicos coerentes com o ecossistema no qual estão inseridos, sem que os equilíbrios deste sejam alterados.

Vivemos uma época anômala: esse modelo socioeconômico trouxe prosperidade econômica durante algumas décadas a uma pequena fatia do gênero humano a custos muito altos para os ecossistemas e para o restante da população mundial.

Pela primeira vez na história, enfrentamos a superação dos limites planetários com efeitos dramáticos que já estão entre nós, como as mudanças climáticas, o colapso da biodiversidade, a alteração dos ciclos biogeoquímicos. Nesse contexto, experimentos como o de Daniela Ducato mostram que é possível realizar sistemas resilientes e colaborativos, nos quais, sem tirar recursos do planeta, cria-se bem-estar (econômico, físico, relacional) para todos os atores envolvidos. É necessário – e urgente – multiplicar esses modelos.

A Europa está dando os primeiros passos nessa direção. Enquanto isso, não por acaso, a própria Daniela Ducato decidiu se dedicar a um novo projeto: treinar centenas de projetistas e designers.

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