''É importante conhecer as histórias e as pessoas que estão por trás dos produtos e materiais''

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24 Março 2019

Nestes anos de viagem junto com os meus colegas do projeto Italia che Cambia, aconteceu-me várias vezes de me encontrar com Daniela Ducato. No entanto, todas as vezes foi uma surpresa: a sua filosofia continua a mesma, mas os conceitos, os projetos e as ideias evoluíram em um ritmo impressionante. Desta vez, não foi exceção.

A reportagem é de Andrea Degl’Innocenti, publicada no caderno Extraterrestre, do jornal Il Manifesto, 21-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Você ganha prêmios continuamente como empresária, mas, na realidade, é uma definição que não é totalmente correta, certo?

Sim, sou externa a todas essas atividades, trabalho em conjunto com outros profissionais em nome da associação Casa Verde: eu não tenho empresas, não tenho sociedades, não tenho ações nem lucros. Favoreço o encontro entre empresas e entre pessoas, montei uma equipe multidisciplinar, mas nada do que eu faço é “iniciativa minha”. Eu digo isso não por modéstia, é realmente assim, sempre se trata de um trabalho conjunto. Além disso, cada empresa tem a sua história independente de mim. Eu sou uma freelancer, uma espécie de pessoa de referência para a economia circular onde é necessário.

É uma escolha sua?

Sim, eu optei por ter essa relação mais “externa” para não perder a dimensão objetiva. Não há nada de errado no interesse econômico em si, mas, no meu papel, haveria o risco de que esse se tornasse o meu único objetivo, enquanto os meus interesses são múltiplos e também não apenas empresariais. Eu faço isso aceitando todos os riscos da precariedade.

Em cada projeto seu, existem alguns elementos comuns: o fato de não usar matérias-primas, de criar sinergias entre empresas, de não produzir resíduos. Há mais alguma coisa?

Acima de tudo, quando outros fatores contribuem para a escolha dos materiais. O fato de nunca serem matérias-primas retiradas dos ecossistemas, nem produzidas ad hoc, é um pré-requisito, mas não é suficiente. É igualmente importante conhecer a história e a geografia dos materiais. Onde eles são produzidos, por quem, em que condições. Porque os materiais são pedaços do mundo, têm dentro de si pessoas, economias. Têm dentro de si as mulheres, que, na economia verde, são as mais exploradas, porque custam menos: penso, por exemplo, naquelas mulheres que trabalham a fibra de coco na África, imersas em venenos. Quem usa fibra de coco pensa que está usando um material bom, limpo, vegetal, e não sabe quanta morte e desespero está criando do outro lado do mundo. Então, é importante conhecer as histórias, as geografias, as pessoas que estão por trás dos materiais. Além de não empobrecer o ecossistema natural, também é importante olhar para os ciclos produtivos, que sejam democráticos e que não haja exploração.

Quais são as características técnicas comuns aos seus produtos?

Em primeiro lugar, é importante que sejam ecológicos e saudáveis para quem os utiliza e para o ambiente. Por isso, na nossa equipe multidisciplinar, além de engenheiros, agrônomos, químicos, biólogos, geólogos, também temos médicos e pediatras. Depois, é fundamental que os produtos tenham alto desempenho: não basta que sejam ecológicos, eles também devem ter características técnicas iguais ou superiores aos produtos petroquímicos. Por fim, custos sustentáveis, porque a saúde e a ecologia não podem ser incluídas entre bens de luxo, devem ser para todos.

Muitos se concentram na reciclagem, enquanto você fala de não produzir resíduos. Por quê?

Muitas vezes, depositamos muita confiança na reciclagem, mas a palavra reciclagem é uma palavra de transição, que devemos limitar. Tomemos o plástico: continuamos a produzi-lo cada vez mais, reciclaremos uma pequena parte dele, e, mesmo com essa parte que reciclamos, sabemos o que acontece? Para reciclar as garrafas de plástico e transformá-las na minha jaqueta tão ecológica, eu tenho que recuperar essas garrafas, adicionar água e outros polímeros, consumir energia. E, no fim, a minha jaqueta também se tornará um resíduo, porque os petroquímicos não podem ser reciclados infinitamente. Então, é uma estocagem temporária: estamos apenas adiando o problema. Devemos começar a projetar objetos com um design “plastic free”, sem petroquímica e que não se tornem resíduos.

Falemos de economia circular. Que obstáculos você vê na sua difusão no nosso país?

Economia circular também significa, do meu ponto de vista, democracia e compartilhamento de conhecimento. Nesse sentido, eu vejo duas grandes limitações: a falta de compartilhamento das informações e das pesquisas científicas e a “verticalidade” do mundo da inovação. Deixe-me explicar melhor: a Itália e a Europa investem muito dinheiro público para financiar a pesquisa nas universidades e nos institutos de pesquisa, mas os resultados dessas pesquisas não são publicados. Não existe um banco de dados compartilhado, por isso, os mesmos estudos e os mesmos erros tendem a ser replicados. Isso é um enorme desperdício de recursos e de dinheiro público.

Outro problema é a falta de multidisciplinaridade. O ambiente da inovação muitas vezes é vertical e competitivo, em que é difícil integrar abordagens e pontos de vista diferentes. Mas é fundamental fazer isso: olhar para um problema a partir de vários pontos de vista, com várias competências, nos ajuda a encontrar soluções melhores. Por isso, nós trabalhamos com engenheiros, agrônomos, químicos, biólogos, geólogos, médicos. O bom é que, quando as pessoas se encontram e debatem, produz-se uma ideia do limite que está na base da inovação.

Projetos futuros?

Agora, o meu compromisso está muito focado principalmente na formação, da qual há uma grande necessidade. Muitas vezes, mesmo quem atua nos âmbitos da restauração ambiental ou de projetos sustentáveis acaba utilizando derivados petroquímicos, causando danos ao ambiente e introduzindo microplásticos no solo. Oferecemos aos projetistas, arquitetos, engenheiros e designers uma formação completa, não a clássica formação em bioengenharia. Muitas vezes, não basta usar um material, é preciso combiná-lo de um certo modo, fazer-se certas perguntas. Como posso obter mais usando menos? Como posso combinar corretamente os materiais? Que história esses materiais têm? Como e onde são produzidos? A sua produção enriquece ou empobrece as economias locais? A cadeia de produção é saudável e ecológica em seu todo? Para construir uma economia realmente circular, é necessário considerar todo o ciclo de vida dos materiais que utilizamos e dos produtos que projetamos.

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