O que as ciências sociais têm a dizer sobre o ataque armado à escola em Suzano

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24 Março 2019

"Houve Realengo em 2011; depois, o incêndio criminoso em uma creche municipal de Janaúba (MG) em 2017; nesse mesmo ano, o ataque armado ao Colégio Goyases, em Goiânia (GO); em 2018, a mesma espécie de atentado se repetiu no Colégio Estadual João Manoel Mondrone, em Medianeira (PR). Todos ocorridos em espaços educativos, nos quais a quase totalidade de crianças e jovens da nossa sociedade são enviados para fins de socialização. É muita coincidência para que fechemos os olhos e nos confortemos com diagnósticos individualizados. Há algo claramente muito errado na socialização que estamos promovendo como coletividade e, nesse sentido, todos nós estamos implicados nessas tragédias", escreve Juliane Bazzo, doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com pesquisa atualmente focada em antropologia da educação e antropologia moral.

Eis o artigo.

Ao acompanhar a cobertura da imprensa de massa a respeito do ataque armado fatal à Escola Estadual Raul Brasil em Suzano (SP), ocorrido no último 13 de março, chamou-me a atenção, mais uma vez, a mobilização repetida e quase exclusiva de psicólogos e psiquiatras, em detrimento de profissionais de outras áreas do conhecimento, para tratar na imprensa das motivações e dos impactos da tragédia.

Digo mais uma vez porque esse gênero de acontecimento terrível tem recebido, infelizmente, minha atenção sistemática desde 2014, como parte da pesquisa que desenvolvi para minha tese de doutorado, chamada ‘Agora tudo é bullying’: uma mirada antropológica sobre a agência de uma categoria de acusação no cotidiano brasileiro. Nessa investigação, dedico-me a uma análise pormenorizada do massacre ocorrido em 2011 na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo (RJ), enquanto resultado de uma extensa pesquisa de campo.

Entre outras coisas, meu estudo concluiu que a noção de bullying pode ter significados pragmáticos muito diferentes a depender de quem a utiliza e para quais fins. De um lado, essa ideia tem o potencial de contribuir com um debate politizado da violência juvenil extrema e, portanto, de manter acesa a denúncia dela na esfera pública. Isso é o que vem fazendo, por exemplo, a Associação Anjos de Realengo, formada por familiares e amigos das vítimas do ataque à Escola Tasso da Silveira. De outro lado, contudo, o conceito de bullying pode atuar, restritivamente, como uma elucidação acabada para tais tragédias, esvaziando assim discussões mais profundas em uns poucos dias de repercussão midiática. É desta última forma que vejo essa noção aparecer, embora não em todas, mas numa série de análises psicológicas/psiquiátricas na imprensa acerca de episódios como o de Suzano.

Nesse sentido, o bullying – junto de outros elementos, como a adição a videogames e o engajamento em fóruns de ódio na internet – emerge como parte de uma explicação pela via do diagnóstico. Essa explicação toma por pressuposto não ser possível a pessoas normais cometerem tamanha barbaridade: os homicidas, portanto, certamente devem possuir alguma disfunção mental. Argumento que esse tipo de justificativa é um desserviço sociológico por uma gama de razões.

De saída, porque fenômenos sociais sempre possuem causas múltiplas. Desse modo, uma doença mental pode ser uma delas, mas muito provavelmente não é a única. Só há um jeito de apreender essa pluralidade de causas e de gerar intervenções efetivas: a reflexão multidisciplinar. Isso inclui a visão de estudiosos de vários campos do saber – não aquela encastelada aos muros das universidades, mas aquela que os transpõe, para pensar o cotidiano e todos os elementos psíquicos, sociais, culturais, políticos e econômicos a lhe darem forma.

A explicação pautada pelo diagnóstico configura também um desserviço porque transforma tragédias como a de Realengo e Suzano em fatalidades e, ao enquadrá-las sob o status de ocasionalidade, exime o Estado de tomar providências com políticas públicas consistentes, referendando tão somente a condução de investigações policiais de cada caso. Em um pronunciamento recente, o presidente da República lamentou o acontecimento em Suzano, ao afirmar se tratar de uma “monstruosidade e covardia sem tamanho”. Acontece que lamentar é muito pouco. Uma das razões de ser do Estado democrático está em garantir o direito à vida de sua população. Assim, as autoridades máximas do país deveriam manifestar não lamento e sim consternação. Pode parecer a mesma coisa, mas não é.

Uma boa ilustração dessa diferença aparece em 22 de Julho, uma produção cinematográfica sobre o atentado armado conduzido por um militante de extrema-direita na Noruega em 2011, que tomou como um de seus alvos um acampamento juvenil nas proximidades de Oslo. Avesso a um quadro de multiculturalidade em aprofundamento no país, o homicida xenófobo – atenção – rejeita decididamente o diagnóstico de loucura e requisita à sua defesa ser julgado como plenamente são.

Afora esse aspecto deveras desconcertante, revela-se muito oportuno perceber nesse filme, baseado em fatos reais, como age o primeiro-ministro norueguês perante o massacre. Ele se questiona o tempo todo: onde nossos esforços de inteligência falharam? Como pudemos não perceber os movimentos do assassino enquanto ele se preparava para o ataque? Junto das famílias destroçadas pelo trágico, o governo norueguês não só mostrou buscar respostas substanciosas para o que aconteceu, mas também caminhos para tornar a vida possível depois do impensado.

Por fim, a explicação restrita ao diagnóstico configura um desserviço à cidadania. É uma justificativa que, a princípio, nos conforta: foi um louco e pronto. Mas o nosso conforto pessoal de nada vale para conter acontecimentos como Suzano ou Realengo. Esses episódios nos demandam uma posição enquanto cidadãos. Não podemos nos acomodar com averiguações simplistas, diante da rapidez com que essa espécie de atentado se avoluma perante nossos olhos.

Houve Realengo em 2011; depois, o incêndio criminoso em uma creche municipal de Janaúba (MG) em 2017; nesse mesmo ano, o ataque armado ao Colégio Goyases, em Goiânia (GO); em 2018, a mesma espécie de atentado se repetiu no Colégio Estadual João Manoel Mondrone, em Medianeira (PR). Todos ocorridos em espaços educativos, nos quais a quase totalidade de crianças e jovens da nossa sociedade são enviados para fins de socialização. É muita coincidência para que fechemos os olhos e nos confortemos com diagnósticos individualizados. Há algo claramente muito errado na socialização que estamos promovendo como coletividade e, nesse sentido, todos nós estamos implicados nessas tragédias

A proeminência da explicação pelo diagnóstico acaba por fortalecer certos encaminhamentos diante do horror, em prejuízo de outros disponíveis. No debate midiático do ataque à escola de Suzano, vi ganhar destaque a abordagem que objetiva desenvolver entre os estudantes as chamadas competências socioemocionais, em favor da melhoria da aprendizagem individual e dos relacionamentos sociais. É inegável o benefício de que crianças e jovens aprimorem suas capacidades de empatia, cooperação e responsabilidade. Entretanto, concentrar-se apenas nisso como principal solução torna-se muitíssimo perigoso, se considerado o atual cenário político-econômico a envolver o enaltecimento da educação socioemocional.

Repercute hoje no Brasil uma onda neoliberal de governo que vende a autonomia do sujeito perante o Estado, enquanto depaupera estruturas de bem-estar social, impulsiona o avanço mercadológico em todas as esferas da vida e aprofunda como nunca se viu o fosso das desigualdades (sejam elas de classe, raça, etnia, gênero, orientação sexual, etc.).

Nesse panorama, a violência tende cada vez mais a ser entendida como uma falha intrínseca a indivíduos, suspendidos de seus contextos sociológicos.

Em outras palavras, trata-se de um quadro em que o Estado e consideráveis parcelas da sociedade se isentam de quaisquer compromissos, delegando o combate da violência apenas ao autocontrole fomentado pelos próprios sujeitos e, na perda deste, à capacidade deles de fazer justiça com as próprias mãos, algo que transparece na política pró-armamento do atual governo brasileiro. Lançar todos os holofotes sobre o indivíduo em prol da pacificação social, repito, é um risco alto, porque vivemos não isolados, mas em sociedade e nossas vidas nesse contexto estão eticamente enlaçadas.

Isso quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, se tudo continuar como está, a violência vista em Suzano poderá se desdobrar sob diferentes facetas e o próximo a morrer ou perder poderá ser qualquer um de nós. É por aspectos como esse que o enfoque detido em competências socioemocionais tem sido objeto de críticas, tanto nos Estados Unidos, de onde se popularizou, quanto no Brasil.

Neste momento, enquanto ainda perdura o desnorteio com a tragédia na escola paulista, muitos pseudocientistas estão se preparando para encher os bolsos com programas bastante questionáveis em educação socioemocional, ofertados como produtos de mercado e não enquanto parte de políticas públicas consistentes em segurança, educação e saúde, estas duas últimas hoje paradoxalmente sob austeridade, perante a Emenda Constitucional n. 95/2016, do Governo Michel Temer.

Diante disso, volto a frisar a importância das reflexões e intervenções multidisciplinares perante a violência, que partam de estudos científicos rigorosos, considerem o cotidiano das pessoas e que tenham por norte tornarem-se políticas públicas robustas para todos, não mercadorias a serem adquiridas somente por colégios de redes privadas de ensino. É quase uma utopia reforçar isso diante da atual realidade brasileira, em que parlamentares desautorizam a comunidade acadêmica, o dia a dia está repleto de fake News e o Estado se desmancha em meio à pujança das elites financeiras. Mas já dizia o sábio escritor uruguaio Eduardo Galeano: a utopia serve para que não deixemos de caminhar.

Isso é um pouco do que as ciências sociais – a antropologia, de modo especial – teria a dizer sobre massacres como o de Suzano. Não obstante, eu não poderia terminar sem mencionar um entrevero que, de fato, existe entre a imprensa de massa e os cientistas sociais. Trata-se de uma altercação que se mostra talvez menos contundente com relação aos profissionais da psique humana, dado que eles estão recorrentemente na mídia. Minha posição é de procurar compreender os dois lados, pois, afinal, antes de migrar para as ciências sociais na pós-graduação, minha formação de base foi o jornalismo. O tempo ávido da notícia é realmente muito diferente do tempo paulatino da reflexão socioantropológica. O desencontro é, assim, inevitável.

Não obstante, uma das coisas realmente boas que a internet trouxe foi a emergência de veículos de comunicação alternativos que, com uma proposta diferenciada, procuram rever também o tempo tresloucado de produção da notícia, em favor de análises ponderadas. Tem-se aí, a meu ver, um espaço muito profícuo aos cientistas sociais para a prática daquilo que o francês Didier Fassin defende por antropologia pública, ou seja, uma antropologia capaz de alcançar audiências maiores.

Para Fassin, se numa frente é preciso nesse processo renunciar um tanto à densidade teórico-metodológica para tornar legíveis nossas pesquisas, em outra, florescem ganhos que residem no encontro da antropologia com novos públicos. Diante do grave contexto atual de desmantelamento da jovem democracia brasileira, vejo o diálogo cada vez mais próximo entre a mídia alternativa e as ciências sociais como algo fundamental, que não mais deve tardar em prol do Estado de direito.

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