Nicarágua. “Queremos que Ortega deixe o governo”, afirma Ernesto Cardenal

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22 Março 2019

Ele ficou 16 dias hospitalizado e muitos temeram o pior. Mas aos 94 anos, o poeta e padre nicaraguense Ernesto Cardenal não apenas sobreviveu a uma grave infecção renal, como voltou à sua rotina literária.

A reportagem é de Gabriela Selser, publicada por Deutsche Welle, 21-03-2019. A tradução é de André Langer.

“Eu me sinto ótimo, só tenho um pouco de tosse noturna, mas nada grave, deve ser uma doença da velhice”, disse em entrevista a Deutsche Welle o famoso autor de Salmos, Vida Perdida e Epigramas, entre um vasta obra literária traduzida para mais de 20 línguas e incluída em cerca de 100 antologias.

Ele nos recebe em sua casa em Manágua, vestido com sua típica camisa camponesa branca, seu jeans largo e boina preta sobre um cabelo grisalho. Está sentado ao lado de uma escrivaninha rústica em seu quarto austero e monástico, onde há apenas uma ampla poltrona de couro, uma cama de hospital e uma rede azul de tecido, sua favorita para pensar e descansar.

A pequena máquina de escrever não para de teclar quando o poeta é chamado pelas palavras. Três afáveis enfermeiras se revezam para lembrá-lo de tomar o remédio ou ajudá-lo em suas leituras.

Apesar de estar de bom humor, angustia-o pensar na Nicarágua. “A situação piorou. Queremos sair disso, queremos uma mudança total de país, uma verdadeira mudança social”, comenta.

Há quase um ano escreveu uma proclamação denunciando a repressão do governo contra uma rebelião estudantil que começou em 18 de abril. Nela, manifesta-se contra o diálogo da oposição com o presidente Daniel Ortega e sua esposa, a vice-presidente Rosario Murillo.

“E continuo dizendo: não ao diálogo. Queremos simplesmente que o casal presidencial deixe o governo, não há o que discutir”, exclama ao ser questionado sobre as novas negociações, que começaram no dia 27 de fevereiro para tentar resolver a crise política que agora já dura 11 meses.

O que você diria às pessoas de fora do país sobre o que acontece na Nicarágua? “Elas deveriam saber o que está acontecendo sem que eu o diga. Eu não tenho liberdade para dizê-lo, não há liberdade de qualquer espécie. Qualquer pessoa pode sofrer repressão. Nem eu estou livre disso”, afirma.

Como resolver o que está acontecendo na Nicarágua? “Eu não sei. O povo sabe, que tem o poder de fazer. E os jovens principalmente, que tentaram, mesmo sem sucesso. Mas continuamos esperando. A esperança é o que nos faz continuar”.

O padre revolucionário

Ernesto Cardenal começou a fazer versos quando ainda era criança e antes mesmo de aprender a ler. Seu primeiro poema, dedicado ao túmulo de Rubén Darío, escreveu inspirado por seu pai, que lia em voz alta as rimas do precursor do modernismo (1867-1916).

“Aquele poema era uma coisa infantil, muito primitiva. Na verdade, não era poesia, mas eu chamava de poesia”, recorda com um sorriso.

Com a mesma paixão com que amou as letras, abraçou a religião. Ordenado sacerdote em 1965, fundou uma comunidade de artistas camponeses no arquipélago de Solentiname, no sul do Lago da Nicarágua, de onde saíram grupos guerrilheiros que lutaram contra o ditador Anastasio Somoza.

Durante a Revolução Sandinista, que incluiu o primeiro governo de Daniel Ortega de 1985 a 1990, foi ministro da Cultura. Por causa de seu compromisso político, o Papa João Paulo II aplicou-lhe a sanção “a divinis” em 1984, proibindo-o de exercer o sacerdócio junto com outros três padres sandinistas.

A sanção papal durou 35 anos, apesar de o padre Ernesto ter se distanciado dos sandinistas e em 2007, após o retorno de Ortega ao poder, ter se transformado em um crítico ferrenho daquilo que chamou de “nova ditadura”.

Em meados de fevereiro, quando Cardenal esteve gravemente enfermo, o Papa Francisco anulou a sanção vigente durante 35 anos. Nesse mesmo dia, o autor de O Evangelho em Solentiname concelebrou uma missa no hospital junto com o Núncio Apostólico em Manágua, à qual se seguiram outras missas em sua casa, com amigos próximos.

Conta que a sanção papal não afetou a sua vida sacerdotal, “porque não me tornei padre para administrar sacramentos, comunhões ou celebrar casamentos. A minha vocação sacerdotal sempre foi de compromisso social, e isso nunca abandonei”, esclarece.

Ernesto Cardenal analisa os escândalos de pedofilia que abalaram a Igreja Católica nos últimos anos e os atribui à obrigação do celibato para os sacerdotes, algo que considera “antinatural”.

São Paulo dizia que ele era celibatário porque queria, não obrigava ninguém a isso. E os outros apóstolos não eram celibatários, portanto não tem porque haver um celibato obrigatório”, argumenta.

Deus e o cosmos

Cardenal admira a gestão do papa argentino Jorge Bergoglio. “É um milagre, uma bênção de Deus. Ele está fazendo uma revolução no Vaticano e, portanto, também na Igreja e no mundo”, disse.

O tema de Deus como autor do universo aparece em muitas de suas obras a partir do famoso Cântico Cósmico (1993), um poema de mais de 500 páginas traduzido para várias línguas e que considera seu livro mais querido. “É a minha obra-prima, pelo tamanho e pela maneira como abordo o tema”, assegura.

Na mesma linha, publicaria mais tarde O telescópio na noite escura (1993), Este mundo e outro (2011), Assim na Terra como no céu (2018) e Filhos das estrelas (2019), entre outros.

Agora, o premiado escritor espera a rápida publicação de uma nova antologia, Poesia Completa, que será lançada na Alemanha e na Espanha, países onde milhares de pessoas desfrutaram de suas obras.

Enquanto isso, um novo poema sai de sua máquina de escrever. Intitulado “Estamos no firmamento”, seus versos esfumam de forma recorrente a linha divisória entre narrativa religiosa e teoria científica. “O universo tem um criador que é Deus, e uma evolução que vai em direção a Ele. Portanto, não há cosmos sem Deus”, conclui Cardenal.

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