Os exercícios espirituais do Papa e da Cúria Romana. Desejo de ultrapassar

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14 Março 2019

"Não obedeça àquele que lhe diz para renunciar ao impossível! / É o impossível que torna a vida do homem possível. / Você faz bem em perseguir o vento com um pote/ Por você e por você apenas, ele se deixará capturar” (em tradução livre). Com estes versos de Margherita Guidacci, o abade Bernardo Francisco Maria Gianni, na manhã de quarta-feira 13 de março, recordou o aniversário da eleição do Papa Francisco, "saudando e agradecendo ao Senhor, abençoando o que aconteceu há seis anos".

No final da quinta meditação dos exercícios espirituais em curso na Casa do Divino Mestre em Ariccia, o abade orientou o sentido de sua meditação nos cumprimentos ao Pontífice que, diz ele, todos os dias "nos ensina a ultrapassar, lembra ao homem e à mulher do nosso tempo para ter sim limites, mas acima de tudo ser convidado pelo poder do Espírito Santo para superar esses limites, porque o coração humano não tem fronteiras". A cidade dos "ardentes desejos ", evocada por Mario Luzi na poesia que acompanha as meditações do Papa e da Cúria Romana nestes dias, - ressaltou dom Gianni - recorda um tema fundamental, a superação de todas as formas de egoísmo para que a família humana resplendeça pelo desejo de Deus e volte a ser testemunha credível nas ruas.

A reportagem é publicada por L'Osservatore Romano, 13 e 14-03-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Para melhor delinear a "perspectiva do desejo", o abade de San Miniato al Monte inicialmente recorreu à espiritualidade beneditina a ele tão cara, citando uma passagem do prólogo da Regra em que se descreve "o desejo de Deus de ser desejado", uma belíssima passagem que convida todo homem, não apenas os monges, a viver "a experiência de nos redescobrirmos procurados, desejados pelo Senhor". É a "mania kenótica" - como a definia o teólogo grego Yannaras - que impele Deus "a esvaziar-se para buscar o desejo do homem", àquela "paradoxalidade pela qual o Senhor perde todo bom senso para buscar o homem que se perdeu”. É a "loucura do amor" do Bom Pastor.

O primeiro passo, explicou o Padre Gianni, deve, portanto, ser sempre buscado no Senhor: "Se hoje ainda podemos aprender a desejar, é porque fomos desejados". Uma consciência fundamental no momento em que nos deparamos com uma realidade concreta que parece ter perdido o sentido de tal memória. Nesse sentido, o monge relembrou alguns dados do 44º relatório do Censis sobre a situação social na Itália. Um diagnóstico que destaca manifestações de fragilidade tanto pessoais como coletivos, comportamentos e atitudes desorientados, indiferentes e cínicos. As pessoas são prisioneiras das influências midiáticas, condenadas ao presente sem profundidade de memória ou de futuro. Parece uma sociedade perigosamente marcada pelo vazio, pela anulação e pela "nirvanização" dos interesses e dos conflitos. Voltar a desejar parece assim a virtude civil necessária para reativar uma sociedade muito acomodada e uniforme.

Esta é uma perspectiva a ser confiada aos jovens. Uma tarefa urgente porque, como recordava dom Giussani, na juventude contemporânea "não há consciência de ter sido desejados". Uma realidade encontrada pelo próprio dom Gianni em seus contatos diários com a realidade juvenil em San Miniato. É preciso, ele enfatizou, ampliar as fronteiras dos jovens. Além disso, acrescentou, citando Gaudium et Spes, "pode-se legitimamente pensar que o futuro da humanidade está nas mãos daqueles que são capazes de transmitir às gerações futuras razões de vida e esperança". Ninguém pode se sentir dispensado dessa responsabilidade.

E recordando o convite do Evangelii Gaudium para a proclamação do Evangelho a todos aqueles que não conhecem Jesus, ao dever de "compartilhar uma alegria, sinalizar um belo horizonte, oferecer um banquete desejável", o monge convidou os presentes a um exame de consciência: “Até que ponto conseguimos não trair a vontade de desejo que o Senhor inscreveu no seu Evangelho? Por que empregamos nisso tão pouca vida?

Trata-se de envolver a realidade constitutiva do homem que, como dizia Georg Simmel, "é um ser de fronteiras destituído de fronteiras". Uma realidade, explicou dom Gianni, que pode ser simbolicamente representada na própria vida do monge, encerrada nos limites da clausura, do ritmo litúrgico, da cotidianidade comunitária vivida na fraternidade. Em tudo isso emerge o "desejo de ultrapassar, de expandir com as asas do Espírito tudo o que nos limita". É, acrescentou, uma dinâmica que pertence a todo homem. Guardini escrevia: "O homem não se resolve com o que é". E o padre Basilio Petrà explicava: "O homem, o único entre os entes, é originado por uma vocação que vem do futuro e não encontra paz até encontrar o rosto daquele que o chama e para o qual foi feito". E Pascal: "O homem supera infinitamente o homem".

No coração do homem, disse o abade de San Miniato, há, portanto, uma "sede de infinito", uma "dimensão mendicante". E hoje, uma época em que "somos tentados a reduzir o homem a uma máquina que funciona enquanto funciona", é decisivo lembrar disso.

É na Eucaristia, disse ele, que se encontra "a convergência de dois desejos": a do monge, do homem que "espera a Páscoa com a alma fremente" e a do Senhor Jesus "que quer fazer a Páscoa ardentemente conosco".

Dessa "escola de desejos", conclui ele, "somos chamados a dizer uma nova palavra sobre a dignidade do homem, de todo homem, de toda mulher, especialmente dos mais pobres, daqueles que, pelos infortúnios em que vivem, acreditam agora que seu horizonte seja feito somente e apenas de carências e necessidades. E, principalmente, o quanto a Eucaristia desperta neles e, acima de tudo, para eles, como consciência de serem feitos não por necessidades, mas por desejos verdadeiros”.

“Lembram-se?” Foi a pergunta que o monge propôs na meditação da tarde de terça-feira, 12 de março. Advertindo que “um olhar sobre o nosso presente é imperativo: não criticar e condenar, mas deixar-se interrogar sobre os grandes desafios que nossa ação eclesial exige, para restituir ao homem e à mulher de nosso tempo a consciência de uma lembrança grata e operosa, viva e criativa, aberta à força e à dinâmica da esperança”.

Dom Gianni repropôs o "diagnóstico angustiado" traçado pelo sociólogo Marc Augé: "Hoje impera no planeta uma ideologia do presente e da evidência que paralisa o esforço de pensar o presente como história: o presente se tornou hegemônico" e "não permite entrever um esboço do futuro”. Enquanto "memória e esperança" são "atrofiadas por este presente que as pessoas sofrem como, de fato, imutável". E quem paga o preço são os jovens, agora deixados sem raízes.

Estamos, portanto, sob uma "verdadeira ditadura do incerto presente" que, afirmou o abade, "confirma uma patologia do homem contemporâneo, desintegrado por um pragmatismo tecnológico dominante e, portanto, tentado a subordinar à percepção do imediatismo a frutífera fadiga da memória e da esperança".

Porque "é laborioso cuidar da memória, é difícil lembrar, isto é, trazer os eventos do passado de volta ao coração", reconheceu dom Gianni, citando o poema As coisas de Borges. E são mais do que nunca atuais, salientou, "os avisos importantes de Dietrich Bonhoeffer", escritos num momento crucial: "Justiça, verdade, beleza e em geral todas as grandes realizações exigem tempo, estabilidade, memória, caso contrário, degeneram".

Em sua função de abade, dom Gianni também apontou o "erro" de ver "o mosteiro como um espaço descontextualizado com o esforço da história, daquele trabalho que não é só do homem, mas também de Deus; aquele esforço com o qual somos chamados a edificar a cidade que seja o reflexo credível da Jerusalém celestial”. O mosteiro, então, "pode reconectar, para os jovens, passado, presente e futuro". Nada a ver, em suma, com “uma espiritualidade de descompromisso, uma espiritualidade que propõe uma fuga em uma espécie de nuvem de inconsciência, onde profundas e complexas filosofias orientais se traduzem em uma versão comercializada para uso e consumo de uma nossa suposta necessidade de paz, calma, descompromisso, desresponsabilização". Assim, "convidar-nos e convidar à memória realmente significa conter essa profunda tentação".

Na Evangelii gaudium, o Papa Francisco conectou a memória com "o anúncio evangélico que é esforço, mas é também e acima de tudo alegria". E uma "ajuda fundamental" nos vem da "experiência litúrgica", com "olhar geral sobre a tradição da Igreja". Como João Paulo II também sugere na Orientale lumen, indicando na "tradição e na expectativa escatológica" as chaves para libertar-se da prisão do presente.

"O Papa Francisco nos disse claramente em Florença: ‘Eu quero uma Igreja italiana inquieta’, lembrou Dom Gianni. E assim, superando o medo e o pessimismo, "projetados para a esperança, busquemos juntos novas formas de fidelidade ao Senhor, enriquecidas pela seiva que nos vem da tradição".

"A dimensão de caridade da política de La Pira e da poesia de Luzi - afirmou ele - é destinada aos cidadãos para que finalmente se sintam novamente uma comunidade participadora de um destino comum: é importante que nossos jovens - muitas vezes filhos de famílias de pais separados, sem a graça de uma educação que os tenha amadurecido para uma experiência de lembranças, de preparação para o futuro - sintam nas comunidades eclesiais uma tradição que os encaminha à vida" com "uma perspectiva em que não se está mais sozinhos".

Portanto, ele sugeriu, "nenhuma visão nostálgica de uma tradição que, se fosse apenas algo guardado em um museu, significaria, de fato, pouca fé na ação do Espírito Santo". Deve ser redescoberta a consciência de que "não há exercício de memória e esperança na seiva vital da tradição que prescinda da santidade". E "se a tradição nos coloca em continuidade com o passado, a expectativa escatológica nos abre para o futuro". Sem, no entanto, cair, como dizia o papa Wojtyla, na "tentação de absolutizar o que realiza e, portanto, celebrar a si mesma ou se entregar à tristeza". Deve-se ao teólogo Joseph Ratzinger "a definição do Espírito Santo como aquele que é esquecido de si mesmo": uma definição que é inscrita "nessa perspectiva de insistência na memória: uma memória não de autocelebração, mas uma memória ministerial ao serviço da palavra de Deus. Para que toda a nossa vida seja expressão não de nós mesmos, mas da escola e do testemunho do Espírito Santo ao serviço da palavra de Deus, para que atinja o coração dos que nos ouvem”.

Em conclusão, Dom Gianni propôs uma provocação sobre a “moda saudosista”, do “chamado vintage” que expressa “a necessidade de as novas gerações se refugiarem em objetos, modas, musicais de anos passados”. Quer dizer, explicou, "que os jovens têm medo do futuro, refugiam-se em bens que, com seu estilo arcaizante, se tornam um refúgio fora do presente que nos questiona, nos incomoda, nos pede responsabilidade". Um pensamento que também se aplica à "proliferação injustificável da palavra ‘evento’". Tanto que "perdemos de vista o que seja o verdadeiro Evento", palavra que só deveria ser usada "para um fato da maior importância". E para nós, concluiu, "o único verdadeiro Evento é a Páscoa do Senhor Jesus".

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