Sexto ano pode ser o mais decisivo no papado de Francisco

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14 Março 2019

Era o começo da tarde no horário do leste dos Estados Unidos quando a fumaça começou a subir na chaminé no alto da Capela Sistina. No início, era difícil dizer se era branca ou não, mas, enquanto a câmera permanecia fixa nela, e os âncoras da TV debatiam a sua cor, a fumaça ficou cada vez mais branca, e então os sinos da Basílica de São Pedro começaram a dobrar. Habemus papam.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado em National Catholic Reporter, 13-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Já se passaram seis anos desde que os cardeais elegeram Jorge Mario Bergoglio como papa, e o cardeal Jean-Louis Tauran, o cardeal protodiácono, anunciou: Qui sibi nomen imposuit Franciscum.

O novo papa emergiu na sacada da basílica usando uma simples batina branca e cumprimentou as pessoas reunidas na praça abaixo com as simples palavras de saudação: “Buona sera”. A escolha do nome indicava uma preocupação com os pobres, e a simplicidade de seus gestos sugeria um papado menos exaltado ou, pelo menos, menos extravagante.

Diferentemente da sua preocupação com os pobres e um estilo papal mais simples que ficaram imediatamente aparentes, algo não discernível naquela primeira noite se tornou fundamental: o Papa Francisco recuperou um senso de sinodalidade que havia ficado obscurecido, mas nunca eliminado, depois de quase dois séculos de eclesiologia ultramontana. Como escreveu o padre jesuíta Antonio Spadaro, um dos confidentes mais próximos do Santo Padre, no início desta semana:

“Acima de tudo, o pontífice deu à Igreja um ‘ritmo’ sinodal através do qual, em seis anos, três sínodos (sobre a família e sobre os jovens) foram celebrados, um encontro sinodal (sobre a proteção dos menores) foi realizado, e o Sínodo da Amazônia está em preparação. Este último terá – como já está bem entendido agora – um valor universal, certamente não apenas regional. A reforma não é o gesto de um Dom Quixote isolado, mas é o fruto de um longo processo de envolvimento da Igreja.”

É difícil exagerar como essa mudança é importante: em toda a era pós-conciliar, houve uma luta entre aqueles que desejavam buscar novos caminhos abertos pelo Concílio Vaticano II e aqueles que queriam restringir quaisquer novas buscas, e, com o passar do tempo, as forças de entrincheiramento pareciam estar vencendo. Mais do que em qualquer outro lugar, isso ficou mais evidente nos longos anos de São João Paulo II, em que os Sínodos dos Bispos se tornaram sem sentido.

Agarrando-se a uma concepção rigidamente hierárquica da Igreja na qual o papa reinava supremo, e os bispos eram meros gerentes de filial, a visão conciliar foi efetivamente suprimida. O questionário enviado aos candidatos ao episcopado refletia essa visão, pesado sobre a adesão ao ensino da Igreja sobre questões nevrálgicas, leve sobre a experiência pastoral.

Criou-se uma geração de bispos largamente infantilizados, incapazes de agir por iniciativa própria, confiando nas Congregações romanas para tomar decisões que só poderiam ser feitas em nível local. A visão da Lumen gentium recuou, e poucos bispos puderam liderar seus rebanhos, tão ocupados que estavam citando “João Paulo, o Grande”.

Essa foi a experiência da Igreja nos Estados Unidos e em grande parte da Europa ocidental. Mas a experiência na América Latina foi diferente. Lá, uma abordagem mais dialógica foi posta em prática, o ministério estava enraizado mais em ir ao encontro dos milhões às margens e menos em sustentar uma infraestrutura decadente, e, pelo menos na Argentina, emergiu uma teologia do povo, que não tinha as abstrações acadêmicas que frequentemente caracterizaram o trabalho tanto dos teólogos neoescolásticos tradicionais quanto dos mais ideológicos entre os teólogos da libertação. Francisco também trouxe a experiência sinodal do Celam, os encontros continentais das Conferências Episcopais latino-americanas, para a Igreja universal.

A sinodalidade é mais do que as estruturas. Trata-se de ouvir uns aos outros. A sinodalidade exige que não procuremos “ganhar” um debate sobre o que a Igreja deve fazer, mas sim que, juntos, busquemos os estímulos do Espírito e sigamos em frente juntos, sempre juntos.

Em 1968, o Papa Paulo VI temia que tirar a proibição absoluta do controle de natalidade artificial enfraqueceria a autoridade papal. Para milhões de católicos, a sua decisão de reafirmar a proibição teve o efeito oposto. Francisco reconhece que os apelos à autoridade papal não são mais suficientes e, em todo o caso, refletem uma eclesiologia distorcida, na qual não apenas a Cúria, mas também todos os bispos vivem na atmosfera de uma corte principesca. É a autoridade da Igreja, como um todo, que a sinodalidade procura fortalecer.

O papa nos convida a uma maneira diferente de ser uma Igreja cristã na qual a nova evangelização não está mais ligada a questões tecnológicas, ainda menos gerenciais, como muitas vezes acontecia aqui nos Estados Unidos com João Paulo II e Bento XVI, como se aprender a usar o Twitter fosse o cerne da questão.

Com Francisco, a nova evangelização significa sair das nossas sacristias e sujar as mãos nas ruas. Trata-se de voltar ao básico, e nada mais básico do que procurar Jesus onde ele pode sempre ser encontrado, entre os pobres.

Eu já disse isto antes, mas vou dizer de novo: a Igreja Católica nos Estados Unidos corria o risco de se tornar um clube da classe alta para pessoas com posicionamentos políticos conservadores e ética sexual conservadora. O afluxo de imigrantes latinos combinou-se com a liderança de Francisco para tornar esse perigo muito mais remoto.

Essa abordagem sinodal não frustrou só alguns cardeais conservadores. Alguns católicos liberais também estão frustrados. Eles querem mudanças, e as querem agora. Eles sabem os resultados que buscam e querem ver Francisco abraçá-los e ratificá-los para a Igreja universal.

Mas Francisco acha que seu papel não é enfiar algo goela abaixo nas pessoas. Ele não apenas entende, como seus antecessores, que o ministério petrino tem a ver com a preservação da unidade da Igreja, mas também que somente uma Igreja sinodal pode restaurar genuinamente a unidade da Igreja.

Além disso – e aqui está o verdadeiro problema –, eu acho que Francisco está mais preocupado com o modo como seguimos a Cristo do que com qualquer resultado particular, e ainda menos com uma agenda. Ele se preocupa que, se formos muito programáticos, só teremos sucesso em satisfazer os nossos próprios desejos. Francisco deixa a determinação dos resultados para o Senhor.

Em nenhum outro lugar a disposição do papa para deixar espaço para Deus agir ficou mais óbvia do que no silêncio que ele manteve após a feia e insidiosa denúncia contra a sua liderança levantada pelo arcebispo Carlo Maria Viganò em agosto passado. Nenhum especialista em relações públicas teria aconselhado o silêncio. O Twitter e outros espaços para comentários estavam repletos de especulações e suspeitas, todos envolvendo a culpa ou a estupidez de Francisco em relação ao porquê o papa não respondeu.

No entanto, em uma primeira leitura do testemunho de Viganò, Francisco sabia que havia muitas falsidades naquele texto, e, nos dias e semanas que se seguiram, outros chegaram à mesma conclusão. Em tal momento sem precedentes, Francisco não se voltou para seus próprios recursos, mas deixou a verdade se manifestar.

Nesse mesmo artigo citado acima, Spadaro escreve:

“Francisco também é neste momento o único líder global que pode enviar uma mensagem de esperança à humanidade. E, a esse respeito, documentos como a encíclica Laudato si’ levaram a Igreja a entrar em rota de colisão com aqueles poderes que imprimem uma direção nacionalista, populista e fundamentalista sobre a dinâmica política do nosso mundo”.

A observação sobre estar em rota de colisão é certamente precisa, mesmo que a rede EWTN e outras mídias católicas conservadoras tenham vergonha de admitir isso, enquanto continuam defendendo Trump sempre que possível.

E é um sinal de como a política se tornou corrupta – no Ocidente, no mundo em desenvolvimento, na China – o fato de que a afirmação de Francisco ser “o único líder global” tem um tom de verdade. Mas eu suspeito que Francisco não concordaria com isso. A Igreja está cheia de homens e mulheres que são sementes de mostarda evangélicas. Nós perdemos quatro deles nessa semana, os empregados do Catholic Relief Service que caíram no trágico acidente de avião na Etiópia. Onde quer que você encontre uma religiosa, você encontrará a semente de mostarda do Evangelho crescendo. Eu posso pensar em muitos bispos que não são servis, mas também têm seus momentos de “mostarda”.

Na Igreja, Francisco vê que as verdadeiras lideranças podem não estar em Roma, elas estão nas margens e são muitas.

O sexto ano pode ser considerado como o mais decisivo no papado de Francisco. Sua decisão de convocar uma reunião de todos os presidentes das Conferências Episcopais do mundo não foi apenas uma resposta sem precedentes e tardia à crise dos abusos sexuais, mas ele também não predeterminou o resultado. Ele insistiu que os bispos se apropriassem do problema, e não simplesmente se voltassem para Roma em busca de liderança ou da falta dela.

Sim, isso significa que não há “soluções” imediatas para a crise, mas a vida não oferece tais soluções, exceto como falsos sonhos. A sinodalidade é muito mais do que simplesmente um modo diferente de tomar decisões. Trata-se de deixar de lado os modos infantis e de se tornar discípulos cristãos adultos. Implica levar adiante a visão e a eclesiologia do Vaticano II e, mais importante, dos Evangelhos.

A bagunça dos abusos sexuais do clero tornou-se uma questão-limite para muitos cristãos: se não conseguimos fazer as coisas certo, por que ficar, no fim das contas? Eu acho que Francisco continua mostrando a sua confiança na obra do Senhor entre todos nós nestas horas, e é essa obra, e não algumas teorias de gestão ou seminários de responsabilização, que tornarão real, duradoura e vivificante qualquer reforma processual e legal.

Neste ano, ainda mais do que nos cinco anteriores, Francisco mostrou que não é ele quem vai promulgar reformas na nossa Igreja. Elas ou emergirão a partir da vontade do Espírito ou não, e talvez o nosso papel seja, em primeiro lugar, sair do caminho com todos os nossos planos e as nossas agendas.

Na noite da sua eleição, eu tive a impressão de que esse papado seria diferente, e um versículo de Isaías veio à minha mente: “Eis que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem?”. No ano passado, eu percebi isso ainda mais profundamente do que antes.

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