Especialista ''prega'' geoengenharia ao Vaticano para combater mudanças climáticas

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08 Março 2019

Para alguns, pode parecer ficção científica e, para outros, uma forma de contra-atacar aquilo que eles consideram como “ciência falsa”. No entanto, muitos países do mundo passaram a ver a geoengenharia, também conhecida como “engenharia climática”, como uma solução para o impacto que as mudanças climáticas podem provocar em suas nações.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada em Crux, 07-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O leigo católico Gary Gardner é consultor sênior da Green Faith, uma organização sem fins lucrativos com sede nos EUA que analisa a sustentabilidade sob uma perspectiva multirreligiosa.

A engenharia climática, argumentou ele, “é uma questão ética global emergente que vai requer a atenção do mundo em breve”.

Falando com o Crux em Roma na semana passada, depois de participar de uma sessão de estudos antes do Sínodo dos Bispos de outubro sobre a região amazônica, Gardner disse que a geoengenharia é um “assunto complicado” não apenas tecnicamente, mas também eticamente.

“O único princípio ético claro é que a nossa maior prioridade deve ser a redução das emissões”, disse Gardner, que está “pregando” o assunto junto com colegas e mais de mil cientistas que trabalham com as Nações Unidas, porque, segundo ele, a população mundial precisa se unir, e ele vê o papel da religião como algo fundamental.

Eis a entrevista.

Podemos realmente “projetar” o clima?

É exatamente isso que está sendo planejado, mas é complicado e muito interessante, então deixe-me voltar um pouco e preparar o ambiente. Em 2015, a comunidade global reunida em Paris concordou que precisamos manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2 graus, preferencialmente abaixo de 1,5. Desde Paris, não nos movemos muito rápido.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) publicou um relatório em outubro do ano passado, mapeando a diferença entre 1,5 e 2 graus. Os pequenos Estados insulares pediram esse estudo, porque é importante para eles. Algumas dessas nações desaparecerão se o mar subir muito. Elas querem saber: “Quanta água a mais no oceano vai varrer o meu país do mapa?”. É uma questão legítima...

O IPCC publicou esse relatório e basicamente disse que precisamos cortar as emissões rapidamente. Isso significa 45% até 2030, a partir dos níveis de 2010. Depois, mais outra metade nos 10 anos seguintes, e metade novamente, de modo que estejamos basicamente no zero em 2050. É um desafio enorme. Se não fizermos isso, passaremos de 1,5 e dos 2 graus, e talvez até dos 3. É um problema real. Vimos o que acontece com menos de 1,5, porque estamos um grau acima dos níveis da revolução pré-industrial. Vimos as tempestades, vimos os incêndios florestais na Califórnia, vimos o que está acontecendo em todo o mundo com apenas um grau.

céticos que não acreditam que isso seja ciência.

Eles são todos norte-americanos, tenho certeza. Isso é realmente bem aceito no mundo. O IPCC é um painel de mais de 1.000 cientistas de todo o mundo e eles têm mais de 98% de certeza de que o clima está aquecendo e de que isso é culpa dos seres humanos. Isso não se discute, exceto nos Estados Unidos, onde, por muitas razões, ainda duvidamos disso. Estamos nos aquecendo em todo o mundo. Estamos vendo sinais que estão convencendo até mesmo os norte-americanos. E não estamos agindo suficientemente rápido. Isso é meio assustador, e você sente como se as suas costas estivessem contra a parede. Imagine o que aconteceria se alguém viesse e dissesse: “Temos uma solução: ‘projetar’ o clima para que a temperatura não suba tanto”.

O que também pode ser traduzido como “brincar de Deus com o clima”...

É por isso que o nosso último relatório foi intitulado “Brincando de Deus?”.

O que há de ficção científica nisso? Vamos jogar algo no céu e vai chover?

Não é tão direto em termos de chuva e neve. Mas há duas estratégias sobre as quais se está falando. Há mais de uma dezena de maneiras para “projetar” o clima, mas elas são divididas em dois grupos. Um deles é a retirada de dióxido de carbono da atmosfera, a “remoção de dióxido de carbono”. Nós jogamos uma grande quantidade lá, então vamos sugá-la. Uma árvore faz isso naturalmente. Existem algumas formas naturais de engenharia climática com as quais você não pode discutir. Se reflorestarmos partes do Brasil que foram desmatadas, isso ajudaria. O problema é que essas soluções verdes são lentas e exigem áreas enormes. Para que o reflorestamento funcione, precisamos encontrar terras do tamanho da Índia.

Outra maneira de “projetar” o clima é o “gerenciamento de radiação solar”, que envolve o bloqueio de alguns dos raios do Sol, desviando-os de volta para o espaço. Um vulcão faz isso, por exemplo, quando entra em erupção e libera enxofre para a atmosfera, e a temperatura global esfria. O problema é que existem muitos riscos que ainda não conhecemos. Um deles é o fato de que, assim que você se compromete com esse plano, você tem que ficar com ele. Você tem que fazer isso regularmente para manter os raios solares refletidos. Mas, se continuarmos liberando carbono também e, por algum motivo, pararmos de jogar enxofre na atmosfera, a temperatura aumentará muito rapidamente, dependendo de quanto carbono havia acumulado. Você teria muitos problemas ecológicos, porque os animais e as plantas não seriam capazes de se adaptar a essa rápida mudança.

Se houvesse uma maneira mais barata de remover o carbono, ela seria mais segura?

Sim. O barato leva muito tempo e requer muita área, e o caro é muito caro. E os raios solares são muito arriscados. Mas o que acontece se você for Bangladesh e ouvir que no Alasca e na Sibéria a tundra está derretendo e liberando metano na atmosfera? O metano é um gás do aquecimento global que provocará muito mais danos do que o dióxido de carbono. Se você for Bangladesh ou uma nação insular, vai pensar que liberar metano na atmosfera parece muito bom. Portanto, a ética disso se torna realmente complicada e interessante.

O que as religiões podem fazer?

A maior coisa que eles podem fazer é insistir em levar a sério a redução das emissões. Essa é a única opção que não tem nenhum custo ecológico, apenas benefícios, e é a base para o desenvolvimento sustentável. A razão pela qual eu estou “pregando” isso é porque um dos cientistas de Harvard que quer refletir de volta os raios solares está começando os testes neste ano. Ele está fazendo alguns testes preliminares para determinar o que ele precisa. Está no começo.

Eu estava no Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral [no Vaticano] e estava conversando com eles sobre a necessidade de governança. Isto é, governança participativa, que todos os governos tenham uma palavra a dizer sobre isso, que insistamos nas reduções e que não comecemos os testes enquanto não possamos realmente vinculá-los às reduções nas emissões. Outra das desvantagens de refletir de volta os raios solares é que isso tem sucesso em manter a temperatura baixa, mas muda os padrões de chuvas, incluindo na Amazônia, de acordo com o que os modelos nos dizem. Mas, como diz o Papa Francisco, a Amazônia é um dos pulmões do mundo.

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