''Grâce à Dieu'', um filme necessário

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05 Março 2019

“Grâce à Dieu” é o título de um filme que retoma uma frase do cardeal Philippe Barbarin. O arcebispo de Lyon e, como tal, primaz das Gálias, acabou no tribunal sob a acusação de não ter denunciado um padre pedófilo da sua diocese.

A reportagem é de Bernardo Valli, publicada por L’Espresso, 03-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Ministério Público dissipou as suspeitas que pesavam sobre ele, e é muito provável que o veredito (previsto para daqui a alguns dias) absolverá o prelado, número um na hierarquia da Igreja francesa.

(Foto: Divulgação)

Mas essa frase, “graças a Deus”, usada pelo diretor François Ozon como título do seu filme, é reveladora de uma atitude que, se não chega ao crime de omissão, revela o comportamento seguida por muito tempo pela Igreja ou por grande parte dos seus representantes mais importantes.

Interrogado sobre o fato de que um dos seus sacerdotes pedófilos havia se livrado por muito tempo, o cardeal Barbarin deixou escapar: “Graças a Deus a prescrição interveio”. Como se esta última, prevista pela justiça secular, equivalesse também a uma absolvição da Igreja. E, portanto, isentasse a instituição de tomar decisões para deter e punir a ação do padre.

O cardeal reconheceu o lapso. François Ozon não o perdoou. O título do seu filme é como um tapa. Ozon domina a arte da narração e das imagens. “Grâce à Dieu” foi lançado em 307 cinemas em toda a França no momento certo: enquanto em Roma se reunia a assembleia extraordinária de bispos para lidar com o problema dos abusos sexuais de menores.

Até o fim, a exibição do filme, que recebeu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Berlim, correu o risco de não ser autorizada. Bernard Preynat é o padre da diocese de Lyon acusado de abusar de rapazes com menos de 15 anos. Ele mesmo reconheceu isso. E isso ocorreu durante décadas, sem que seus superiores o proibissem de cuidar dos escoteiros, especialmente os de Sainte-Foy-lès-Lyon, dos quais ele era o irremovível capelão.

Os advogados do velho sacerdote haviam pedido que, à espera do julgamento, previsto para os próximos meses e suscetível de adiamento, o filme não fosse projetado nas salas públicas para não violar o princípio da presunção de inocência. Até porque o ator que interpreta o padre pedófilo tem o seu nome e sobrenome, Bernard Preynat. Assim como o ator que interpreta o cardeal se chama Barbarin.

O juiz parisiense rejeitou o pedido dos advogados, porque a espera do processo de Bernard Preynat poderia se prolongar, e um atraso na divulgação causaria aos produtores sérios danos e não respeitaria a liberdade de expressão e de criação. Quanto ao uso dos nomes do cardeal e do padre, todos reconheceriam igualmente os personagens sob falsas identidades.

François Ozon conhecia oSpotlight, o excelente filme de Tom McCarthy sobre o escândalo da pedofilia no clero de Massachusetts nos anos 1980. Mas ele havia se proposto a não seguir o mesmo caminho. A ideia de um documentário também lhe parecera irrealizável, porque as vítimas de Bernard Preynat não podiam concordar em contar publicamente sobre os abusos sofridos décadas atrás. Para as suas famílias, esposas, filhos e filhas, teria sido um trauma insuportável.

Assim, François Ozon optou por uma ficção que, na verdade, segue a realidade, pois exibe nomes autênticos (apenas os das vítimas não o são, por respeito às famílias) e muitos interrogatórios das vítimas e dos acusados são os dos registros judiciais.

Alexandre, um burguês de meia-idade, pai de família, imerso em uma atividade profissional linear, descobre por acaso a fotografia do padre Bernard Preynat cercado de adolescentes. Aquele sacerdote que abusou dele quando jovem, portanto, não havia sido removido da sua tarefa de educador, como as autoridades eclesiásticas haviam prometido. Escandalizado, mas também perturbado, ao ver aquele padre ainda cercado pelas suas inevitáveis presas jovens, Alexandre se dirige às autoridades da diocese. Ao próprio cardeal Barbarin.

Unem-se a ele François, um empregado, e Emmanuel, um operário, e, pouco a pouco, muitos outros que, quando jovens, haviam sofrido o mesmo destino. Eles tentam em vão ter uma reação da Igreja, mas, decepcionados, acabam se voltando para a justiça.

O filme se ocupa da dor das vítimas, mas enfatiza, acima de tudo, a longa e voluntária cegueira da hierarquia eclesiástica. É uma acusação expressada com severidade educada, mas intransigente.

 

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