Irmandade: texto, dúvidas, valor. Um comentário sobre a declaração de Abu-Dhabi

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01 Março 2019

Em 4 de fevereiro de 2019 o Papa Francisco e imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, assinaram juntos o Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Convivência comum. A cerimônia foi realizada em um grande anfiteatro ao ar livre e envolta em ares luxuosos. Os Emirados Árabes Unidos souberam aproveitar a oportunidade, realmente única, de mostrar ao mundo seu poderio.

O comentário é de Francesco Strazzari, publicado por Settimana News, 26-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

O documento faz algumas declarações que dão margem à perplexidade. Diz-se, por exemplo: "Da mesma forma declaramos - firmemente - que as religiões não incitam nunca à guerra e nem despertam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo, nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Essas tragédias são o fruto do desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e até mesmo das interpretações de grupos de homens de religião ...”.

Islã idealizado

Como concordar isso com o que lemos nas suras do Alcorão contra os incrédulos, ou seja, contra todos os que não são muçulmanos "capture-os e mate-os onde quer que você os encontre" (4,89) e “E matai-os onde quer os encontreis” (4, 91)? Não se pode dizer que o Islã não conheça a guerra e não convide à guerra. Ao mesmo tempo, não se pode também dizer que o Islã seja apenas guerra. No entanto, é difícil negar que, na base do terrorismo, exista um certo ensinamento do Islã. Até que isso seja acertado e aceito, não se pode concluir que o Islã seja a religião da paz e que a violência é "o fruto do desvio dos ensinamentos religiosos".

Pode-se objetar que o Antigo Testamento também contém passagens onde Deus incita à guerra através de seu profeta Moisés. É só olhar o Deuteronômio 20: 10-14 e a terrível passagem da conquista da terra santa em Josué 11: 16-20. Mas a maioria dos judeus não leva esses textos ao pé da letra e os relativiza como fatos históricos de três mil anos atrás.

Quanto a Cristo, não só nunca retomou discursos de guerra, mas no discurso da Montanha ele ensinou justamente o oposto: "Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.” (Mt 5,43-48; cf. também Lucas 6: 27-28).

Estou convencido de que muitos muçulmanos estão pedindo uma profunda mudança de atitude. Muitos intelectuais falam isso abertamente, mas são acusados de serem influenciados pelo Ocidente. Enquanto os imãs não têm a coragem de dizer uma palavra nesse sentido. É conhecido o caso do professor Nasr Abu Zeid, egípcio, que fez na sua vida uma forte campanha para um estudo histórico-crítico do Alcorão, mas até agora não foi ouvido.

Em conclusão, o documento prefere permanecer no plano ideal, aquele que muitos muçulmanos gostariam, mas que não é o Islã que conhecemos.

Recebimento

Outro ponto crítico do texto é onde se afirma: "O pluralismo e a diversidade da religião ... são uma sábia vontade divina". Pode-se assim explicar: Deus quis as várias religiões, Deus quis o Islã. Obviamente, a Fraternidade São Pio X, os discípulos de Lefebvre, está estruturada na polêmica contra o Papa Francisco. A expressão é certamente muito forte. Talvez pudesse ser formulada em termos mais sutis para torná-la mais aceitável para alguns cristãos. A parte cristã que colaborou com a parte islâmica na preparação do texto poderia ter sido mais cuidadosa.

Como foi recebido o documento? Para alguns muçulmanos, não faz sentido falar de "fraternidade humana", porque eles já têm uma irmandade, a da "Umma" (comunidade islâmica). Já podemos ver como, a partir disso, é difícil para um muçulmano sair da própria mentalidade e da tradição. Outros observam que o imã de Azhar enfatizou fortemente que o Papa Francisco é seu "irmão". Uma relação que tem sua própria história. O imã foi recebido pelo Papa Francisco no Vaticano em 23 de maio de 2016 e declarou: "Nós retomamos o caminho do diálogo e desejamos que seja melhor do que era antes. E estou feliz por ser o primeiro xeque de Azhar que visita o Vaticano e se senta com o papa em uma sessão de discussão e de entendimento". Por que na ocasião fala de "retomar" o diálogo?

As tensões começaram quando o Papa Bento XVI, em 12 de setembro de 2006, apresentou a Lectio Magistralis na Universidade de Regensburg, na Alemanha, na qual citou a conversa entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e um persa culto em que o imperador bizantino afirma que o islã se propagou com a espada.

Cinco anos depois, em janeiro de 2011, Al-Azhar interrompeu unilateralmente o diálogo com a Santa Sé, quando Bento XVI, dirigindo-se ao corpo diplomático que lhe apresentava os votos de ano novo, pediu à comunidade internacional para proteger a minoria cristã no Egito, fazendo referência explícita ao atentado contra a catedral copto- ortodoxa de Alexandria em 31 de dezembro de 2010, que causou a morte de 28 pessoas.

No primeiro caso, o papa tinha feito uma citação e, no segundo, tido dito a verdade dos fatos. Agora o imã qualifica o papa Francisco como seu irmão, mas - muitos apontam - desde que se encontraram em 2016, não fez nada para melhorar a situação dos cristãos.

Então, o que significa "ser irmãos"?

Não falta quem ressalte que o Papa Francisco visitou o imã de Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, mas não se encontrou com "os muçulmanos", mas apenas com aquela parte de muçulmanos que se reporta a Azhar, instituição que tem apenas autoridade moral. Enquanto o Papa Francisco é o Papa para todos os católicos do mundo e é chefe de Estado, o imã de Al-Azhar é apenas uma autoridade moral para uma parte de muçulmanos. Uma diferença que o papa Francisco, para promover as relações, quis continuar aplainando, indo além do protocolo. Ele e o imã estavam viajando no mesmo carro, ocupavam o mesmo andar do mesmo edifício: é notório que, em suas visitas pastorais, o papa leva consigo no carro apenas o bispo local e não exibe relações especiais com nenhuma personalidade importante. Reunindo-se de maneira tão oficial e solene com o imã de Al-Azhar, o papa Francisco relativizou as outras autoridades muçulmanas. Alguém, antes mesmo da visita, havia enfatizado o possível elemento de divisão. É possível que isso retarde a recepção do documento para muitos.

No entanto, não se pode deixar de compartilhar o fundo do texto e a boa vontade do Papa Francisco e do Imã de Azhar, Ahmad Al-Tayyeb. Nós realmente esperamos que esse documento "torne-se objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e de formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que busquem o bem e a paz, e defendam em todos os lugares o direito dos oprimidos e dos mais necessitados”.

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