De Francisco de Assis ao Papa Francisco, um outro olhar sobre os animais

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04 Março 2019

Ao escolher o nome do Poverello de Assis, o Sumo Pontífice inscreve-se na corrente de cristãos que veem nos animais seus irmãos.

A reportagem é de Patrice Kervyn, frade franciscano, publicada por La Vie, 21-02-2019. A tradução é de André Langer.

A imagem do seu sermão aos pássaros rodou o planeta. Mas quem conhece a história da cigarra que cantava na janela de Francisco em Assis, e que o encantou tanto que a convidou para subir no dedo e louvar: “Canta, irmã cigarra, canta!”? E isso durante oito dias seguidos, depois dos quais ele achou melhor deixá-la ir. Ou daquele faisão que deveria ter parado em uma panela? Francisco pediu a um irmão que o levasse de volta à floresta, mas o faisão voou de volta para a cela desse pai afetuoso.

O fundador da Frente de Libertação dos Animais é São Francisco! Ele também estava imbuído de todo um simbolismo bíblico. Por exemplo, ele andava cautelosamente sobre as pedras por medo de esmagar uma minhoca, por causa da palavra de um Salmo: “Eu sou um verme, não um homem”, atribuída a Jesus na cruz. Mas há algo mais surpreendente: Francisco fala de submeter-se aos animais e às criaturas, “porque conhecem e obedecem ao seu criador, cada um a seu modo, melhor do que você!” Essa atitude está em perfeita sintonia com o seu desejo de viver como um “irmão menor”, que se abaixa aos pés dos outros em vez de procurar subir na escala social. Ele estendeu esta atitude aos animais, porque “via graus na escala dos seres, mas não rupturas abruptas”, como já disse Ernest Renan no século XIX.

Hélène Bastaire, médica, e Jean Bastaire, escritor, empenharam-se muito para que os cristãos se abrissem à ecologia e à causa dos animais em particular. Em seu livro Chant des créatures [Canto das Criaturas] (Cerf, 1996), eles mostram que Francisco não é o único a se distinguir na história do cristianismo por sua confraternização com os animais. De Antônio, o eremita alimentado por um corvo no deserto, a Charles Péguy, passando por São Roque e seu cachorro na época da Grande Peste, a lista é longa. Em Cantique Féminin de la Création [Cântico Feminino da Criação] (Cerf, 2006), eles recordam a contribuição original de muitas mulheres, principalmente à sombra de uma história dominada por clérigos: quem conhece Brígida de Kildare (Irlanda) e seus patos ou a compaixão de Béatrice Nazareth (Brabant) por todas as criaturas que chegam até elas? Na raiz do nosso mal contemporâneo, os Bastaire apontam para o divórcio fatal da modernidade com a natureza, que foi consumado a partir do momento em que ela deixou de ter alma. Ao reservá-la apenas aos humanos, abrimos a porta para a exploração ilimitada da natureza e dos animais.

Na encíclica Laudato Si’ (2015), o Papa Francisco pede uma reversão completa das perspectivas: a perda de milhares de espécies animais e vegetais não é apenas um desastre para os inúmeros “recursos exploráveis” que contêm, mas primeiro porque têm valor próprio: “Por nossa causa, milhares de espécies já não darão mais glória a Deus com sua existência, nem poderão nos comunicar a sua própria mensagem. Nós não temos o direito de fazê-lo” (33). Os insetos, vermes, répteis e microrganismos são tão necessários para o funcionamento dos ecossistemas quanto os mamíferos ou as aves (34). Francisco se junta ao pequeno pobre de Assis, seus vermes da terra e sua cigarra.

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