Melancolia de esquerda. A memória nos absolverá

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23 Fevereiro 2019

Na audaz e inteligente coletânea de artigos Melancolia de esquerda, o historiador italiano Enzo Traverso explica que, a partir da queda do Muro de Berlim, a esquerda foi derrotada em seu projeto futuro de transformação do mundo e, no presente, só se concentra em interpretar. Contudo, nem tudo é desesperança. Além das possibilidades teóricas atuais, Traverso busca recuperar a luta e os pensadores do Terceiro Mundo para oferecer uma alternativa à melancolia do marxismo ocidental.

A resenha do livro Melancolia de esquerda: Marxismo, História e Memória, de Enzo Traverso, é publicada por Página/12, 17-02-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a resenha.

“Memória” é um termo que, do nosso lado do mundo, implica muito mais que uma categoria filosófica para pensar a relação entre história e esquecimento. Não é o objetivo desdenhar o fato de que um termo entre no campo da filosofia, mas é necessário destacar que não se trata de um conceito inocente, porque envolve uma história suficientemente “presente” em nossa vida cotidiana para que sua menção passe simplesmente desapercebida. Melancolia de esquerda, do pensador italiano Enzo Traverso (1957), revisa justamente a pertinência da palavra “memória” para pensar a relação dos movimentos de esquerda, em um sentido amplo, com o passado – especificamente, com o passado revolucionário -, em um tipo de aproximação que em nossa tradição intelectual é quase o pão de todos os dias.

Traverso inicia esta coletânea de artigos com uma Introdução onde expõe, de maneira sucinta, sua aproximação ao problema da relação entre passado e presente político. Em sua perspectiva, a tradição marxista, comunista ou de uma esquerda “ontológica” (tal como a define: isto é, todo projeto de emancipação da humanidade e de colocar à frente a igualdade como princípio reitor) sempre encontrou no passado um acúmulo de experiências das quais aprender para a realização de um projeto futuro, da sociedade por vir, sem classes, sem opressão.

Contudo, após o acontecimento de 1989, com a queda do Muro de Berlim, como fechamento do século XX (Hobsbawn) e triunfo do capitalismo (Fukuyama), esse acúmulo de experiências deixou de ser um presente vivido para passar a ser um passado rememorado. Já não há um projeto futuro que organize o ocorrido, mas um esforço interpretativo melancólico para se delongar nas razões dos fracassos e se separar da possibilidade de uma atualização desses fatos em uma militância política no presente.

O melhor exemplo invocado por Traverso é quase um golpe por ascensão a Theodor Adorno e todo o marxismo ocidental acadêmico. Perdido o momento de síntese nos três passos esperáveis da dialética hegeliana, a única coisa que resta é um momento de tese e antítese, um ir e vir, entre o passado e os esforços memorialísticos do presente, vãos esforços hermenêuticos que esqueceram a tese 11 sobre Feuerbach de Marx. Derrotadas na transformação do mundo, a esquerda só interpreta.

Os diversos artigos da obra Melancolia de esquerda levam esta observação geral aos casos particulares. O livro passa de um estudo das “imagens dialéticas”, que recordam a tradição crítico-hermenêutica de Warburg e Benjamin, onde as fotografias, o cinema e os quadros e cartazes têm um lugar de preponderância, a um trabalho muito mais textual, onde se atravessam pontos de comparação (marcando semelhanças e diferenças) entre Benjamin e Adorno, Adorno e Cyril L. R. James, e Benjamin e Daniel Bensaïd.

Embora em cada artigo se busca colocar no mesmo nível a análise das ideias e das imagens, a ordem do livro predispõe de uma concentração segmentada. Os primeiros artigos parecem se centrar mais no estudo de imagens, chegando ao zênite deste tipo de corpus em Marxismo e memória e o notável artigo Imagens melancólicas, dedicado ao cinema, onde entra Visconti, Pasolini, Ken Loach e até Gillo Pontecorvo, com o filme Queimada (1969).

Na contraposição entre o personagem de Marlon Brando, Walker, alguém que busca conquistar o mercado de cana-de-açúcar da ilha; e José Dolores, o personagem interpretado por Evaristo Márquez, o que se vê é a diferença entre o cinismo europeu, que acaba se entregando à razão instrumental e a pertinência do levante do escravo na colônia europeia, que é consciente de que a causa pela qual luta é justa, apesar de ter tudo para perder.

Pontecorvo, com José Dolores, parece beber de dois mundos que lhe dão um sopro de ar na luta da esquerda ontológica”: Os condenados da terra, de Frantz Fanon, e a queda de Che Guevara na Bolívia. Essas “imagens dialéticas”, as do filme e até a foto “ao mártir” do Che caído, são chaves para entender os modos de renovação da luta contra a razão instrumental, essa nova forma de barbárie. Há esperança.

Os artigos finais são um contraponto entre nomes próprios que resumem possibilidades teóricas da esquerda em sua relação com o passado. E com figuras tão interessantes como a boemia. O texto que leva o nome Boemia: entre melancolia e revolução é um trabalho preciso que distingue a boemia do dandismo e se ocupa de entender que lugar essa categoria ocupou no pensamento de Marx, Adorno e Benjamin. Em vez de a criticar como um espaço onde a revolução demora, seria necessário pensar a “boemia” como o lugar onde o militante se refugia nos momentos turbulentos, esperando a possibilidade de voltar à ação.

Traverso considera, muito a título benjaminiano (por isso o constante ressurgimento deste “melancólico” pensador judeu-alemão), que o presente, enquanto “instante de perigo”, pode servir para recuperar produtivamente o passado e cumprir com sua promessa de redenção: os que morreram não foram em vão. Ao longo do livro, notamos que o pensador italiano considera que a militância foi suplantada progressivamente pelas “políticas da memória”, que, por exemplo, estabelecem a construção de “lugares da memória”, monumentos dedicados a evidenciar um massacre, um acontecimento tremebundo que não pode se repetir (o exemplo mais claro é o extermínio do povo judeu por parte dos nazistas).

Contudo, ao mesmo tempo, essa “política da memória” vitimiza os protagonistas do passado e esconde, debaixo do tapete de algo que poderíamos chamar o “politicamente correto”, outro tipo de momentos políticos de um passado um tanto mais recente, como as pegadas da República Democrática Alemã em Berlim.

Talvez fosse necessário ver no livro uma dialética interna não resolvida, que torna o texto um material imprescindível: o lugar que as lutas anticoloniais, e precisamente latino-americanas, possuem no panorama do movimento de esquerda internacional. Assim como Traverso busca a todo tempo recuperar a luta e os pensadores do Terceiro Mundo, para oferecer uma alternativa a essa melancolia do marxismo continental, também seria o caso ver o lugar que nesses territórios a palavra “memória” possui, no que diz respeito à política cotidiana, real. E não é necessário ir muito longe: aqui, na ex-colônia que chamamos Argentina, a memória não é um se deter melancólico sobre o passado, mas, ao contrário, uma luta que mobiliza, organiza, predispõe e opera, também, criticamente (em um sentido mais acadêmico, se desejar).

Os Espaços de Memória em nosso país, em vez de encerrar uma discussão em relação ao passado e se entregar à vitimização dos caídos, continua sendo uma pedra de escândalo, um ponto de diferença, de luta e de posicionamento. Pode chegar a ser um exagero, mas seria necessário ver se isso que o marxismo ocidental perdeu, após 1989, está mais vivo e presente que nunca nas antigas colônias do imperialismo, hoje.

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