Cansaço da esperança. Segundo o Papa, Igreja ferida pelo pecado não escuta os gritos de socorro

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28 Janeiro 2019

O Papa adverte sacerdotes e religiosos: “Parece ter se instalado uma espécie de cansaço da esperança”. E explica: “[Que] nasce ao se constatar uma Igreja ferida por seu pecado e que tantas vezes não soube escutar” tantos gritos de ajuda. Fez esta afirmação na homilia da Missa na catedral basílica de Santa Maria La Antigua, no Panamá, com sacerdotes, consagrados e movimentos leigos.

A reportagem é de Domenico Agasso Jr., publicada por Vatican Insider, 26-01-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Antes de entrar na Catedral, Francisco saudou um grupo de duzentos peregrinos franceses acompanhados pelo Vigário da arquidiocese de Paris, monsenhor Benoist de Sinety. E durante a manhã, antes da Missa, recebeu na Nunciatura apostólica uma delegação de 40 jovens polacos do navio “Dar Mlodziezy” (Dádiva da Juventude), que estão fazendo um cruzeiro pelo mundo por ocasião da Jornada Mundial da Juventude no Panamá e pelo centenário da reconquista da independência da Polônia. Estava presente também o ministro polaco do Transporte Marítimo, Marek Grobarczyk. Saudando-lhes, o Pontífice lhes agradeceu pela bonita iniciativa. O cruzeiro, que partiu no último mês de maio da Polônia, reuniu centenas de jovens. O navio chegou ao Panamá em 22 de janeiro.

“Jesus – disse o Pontífice – cansado do caminho, se sentou junto ao poço. Era meio-dia. Uma mulher da Samaria foi pegar água e Jesus lhe disse: ‘Dá-me de beber’. O evangelho que escutamos não hesita em nos apresentar Jesus cansado de caminhar. Ao meio-dia, quando o sol pode ser sentido com toda sua força e poder, o encontramos junto ao poço. Precisava acalmar e saciar a sede, refrescar seus passos, recuperar forças para continuar a missão”.

Os discípulos viveram “em primeira pessoa o que significava a entrega e a disponibilidade do Senhor para levar a Boa Nova aos pobres, curar os corações feridos, proclamar a libertação aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, consolar os que estavam de luto e proclamar um ano de graça a todos”. São todas situações “que te tomam a vida e a energia; e eles “não pouparam” em nos oferecer tantos momentos importantes na vida do Mestre, onde também nossa humanidade pode encontrar uma palavra de Vida”.

Observa Bergoglio: “É relativamente fácil para nossa imaginação, compulsivamente produtivista, contemplar e entrar em comunhão com a atividade do Senhor, mas nem sempre sabemos ou podemos contemplar e acompanhar as “fadigas do Senhor”, como se isto não fosse coisa de Deus”. O Senhor “se cansou e nesse cansaço encontram espaço tantos cansaços de nosso povo e de nossa gente, de nossas comunidades e de todos os que estão cansados e sobrecarregados”, afirma o Papa.

As causas e motivos que podem provocar a fadiga “do caminho em nossos sacerdotes, consagrados e consagradas, membros de movimentos leigos são múltiplas: desde longas horas de trabalho que deixam pouco tempo para comer, descansar e estar em família, até “tóxicas” condições de trabalho e afetivas que levam ao esgotamento e partem o coração; desde a simples e diária entrega, até o peso rotineiro de quem não encontra gosto, reconhecimento ou o sustento necessário para enfrentar o dia a dia; desde habituais e previstas situações complicadas, até estressantes e angustiantes horas de pressão. É toda uma gama de peso a suportar”.

Seria impossível tentar “abarcar todas as situações que destroem a vida dos consagrados, mas em todas sentimos a necessidade urgente de encontrar um poço que possa acalmar e saciar a sede e o cansaço do caminho. Todas reclamam, como um grito silencioso, um poço de onde se pode recomeçar”.

O papa Francisco adverte: “Há algum tempo não são poucas as vezes que parece ter se instalado em nossas comunidades uma sutil espécie de fadiga, que não tem nada a ver com a fadiga do Senhor”. Trata-se de “uma tentação que poderíamos chamar de cansaço da esperança. Esse cansaço que surge quando – como no evangelho - o sol está a pino e torna as horas insuportáveis, e o faz com tal intensidade que não nos deixa avançar, nem olhar para frente”. Como se tudo “ficasse confuso”.

[O Papa] Refere-se a essa outra “fadiga, a que nasce face ao futuro quando a realidade “golpeia” e põe em dúvida as forças, recursos e a viabilidade da missão neste mundo em constante transformação e tão questionador”.

Para Francisco é um “cansaço paralisante. Nasce de olhar para frente e não saber como reagir diante da intensidade e perplexidade das mudanças que, como sociedade, estamos atravessando”. Estas mudanças parecem “questionar não só nossas formas de expressão e compromisso, nossos costumes e atitudes perante a realidade, mas põem em dúvida, em muitos casos, a própria viabilidade da vida religiosa no mundo de hoje”. E inclusive a velocidade dessas “mudanças pode levar a imobilizar toda opção e opinião e, o que foi significativo e importante em outros tempos parece não ser mais”.

Depois destaca: “O cansaço da esperança nasce ao constatar uma Igreja ferida por seu pecado e que tantas vezes não soube escutar tantos gritos nos quais se escondia o grito do Mestre: ‘Meu Deus, por que me abandonaste?’”.

Então podemos nos acostumar a viver “com uma esperança cansada frente ao futuro incerto e desconhecido, e isto deixa espaço para que se instale um cinzento pragmatismo no coração de nossas comunidades”. Neste sentido: “Tudo aparentemente pareceria proceder com normalidade, mas na realidade a fé se desgasta e se degenera. Desiludidos com a realidade que não entendemos ou que cremos que já não tem lugar para nossa proposta, podemos dar “cidadania” a uma das piores heresias possíveis para nossa época: pensar que o Senhor e nossas comunidades não têm nada a dizer nem oferecer neste novo mundo que está sendo gestado”.

Chega o momento em que as “fadigas do caminho acontecem e se fazem sentir. Gostem ou não gostem, elas estão lá, e é bom ter a mesma coragem que teve o Mestre para dizer: ‘dá-me de beber’”. Ao dizê-lo, “abrimos a porta da nossa cansada esperança para voltar sem medo ao poço fundante do primeiro amor, quando Jesus passou por nosso caminho, nos olhou com misericórdia, nos pediu para segui-lo; ao dizê-lo recuperamos a memória daquele momento em que seus olhos se cruzaram com os nossos, o momento em que nos fez sentir que nos amava e não só de maneira pessoal como também em comunidade”.

Trata-se de voltar sobre “nossos passos e, em fidelidade criativa, escutar como o Espírito não gerou uma obra pontual, um plano pastoral ou uma estrutura a ser organizada, mas que, por meio de tantos “santos da porta ao lado” – entre os quais encontramos padres e madres fundadores de seus institutos, bispos e párocos que souberam fundamentar suas comunidades –, deu vida e oxigênio a um contexto histórico determinado que parecia asfixiar e destruir toda esperança e dignidade”.

Acrescenta o papa: “Dá-me de beber significa animar-se a se deixar purificar e resgatar a parte mais autêntica de nossos carismas fundantes – que não só se reduzem à vida religiosa como à Igreja toda – e ver de que forma podem se expressar hoje”.

Assim “evitaremos o risco de partir de nós mesmos e abandonaremos a cansativa autocompaixão para encontrar os olhos com os quais Cristo continua nos buscando, chamando e convidando à missão”.

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