Ouve, teólogo, as nossas perguntas. Artigo de Gianfranco Ravasi

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21 Janeiro 2019

“Muito superiores às grandes e últimas questões que a religião solicita são as perguntas que nós consideramos como secundárias ou marginais, ou, no máximo, como ‘penúltimas’. Essas interrogações também são úteis de serem levadas ao teólogo na encruzilhada concreta das expectativas humanas e para lhe ensinar a humildade da escuta, saindo do ateliê asséptico da pesquisa, e para torná-lo consciente de que, até para ele, existem perguntas sem resposta.”

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 13-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O nosso caderno dominical [do jornal Il Sole 24 Ore] é o único na Itália que reserva uma seção fixa a textos e a temas religiosos, considerados como relevantes no panorama da cultura e da sociedade.

Eles são relevantes porque, atrás da fé cristã, está o grande código da arte, do pensamento e da ética ocidental, e também o são no hoje secularizado, que sente a religião como um espinho no flanco, cujo efeito é ambivalente.

Por um lado, é uma fenda aberta além da superfície da realidade e da névoa da indiferença e dos discursos “de barriga” sobre a transcendência, a busca de sentido, o sobressalto moral. Por outro lado, porém, é uma ferida sangrenta, infligida pelo fundamentalismo religioso que confunde Deus com o ídolo da “letra que mata” e do integrismo cego, fechado na sua autorreferencialidade acrítica.

A presença de mais de 30 anos nestas páginas me impele a redigir não certamente um balanço (que, mais cedo ou mais tarde, eu também gostaria de elaborar), mas a propor um asterisco esquemático e incompleto de reflexões, baseando-me na correspondência constante que os leitores me dirigem.

Nesse horizonte epistolar, acima de tudo, há repetidas interpelações radicais nas quais predominam as questões hermenêuticas, mas não no sentido da interpretação das Escrituras e das verdades da fé (dado também presente de maneira significativa, naturalmente com propostas frequentemente surpreendentes em termos de agudeza ou de extravagância).

Em vez disso, pretendo me referir às interrogações sobre a gênese do crer e do seu fundamento.

É isso que está na base de um ramo da pesquisa teológica, aquela denominada antigamente de “apologética” e agora, mais corretamente, de “fundamental”. Muitos reforçam a perspectiva freudiana do livro “Atos obsessivos e práticas religiosas” (1907) ou das “Lições introdutórias à psicanálise” (1933), em que “a religião é uma ilusão e deriva a sua força do fato de que ela corresponde aos nossos desejos instintuais”, e, nessa linha, Freud se arriscava (é o verbo usado por ele) “a considerar a neurose obsessiva como um equivalente patológico da prática religiosa e a ver a neurose como uma religião individual e a religião, como uma neurose obsessiva universal”.

Normalmente, os meus leitores são mais cautelosos e consideram o âmbito religioso como uma parte alta e nobre da subjetividade humana, análoga à arte, capaz de adotar, mas também de transcender, a racionalidade, encaminhando-se pelo percurso da intuição.

No entanto, permanece a afirmação de uma substancial “subjetividade” do conceito de Deus. Na prática, é o que Feuerbach, de modo lapidário, definia assim na sua “Essência do cristianismo” (1841): “Deus é o optativo do coração humano tornado tempo presente, ou seja, bem-aventurada certeza, é a despreconceituosa onipotência do sentimento, é a súplica atendida, o sentimento que se escuta a si mesmo”.

Outro setor do horizonte que eu mencionava é representado por aqueles que não se interrogam sobre a existência ou não de Deus, mas sobre qual Deus.

Reconhecendo que o ateu coerente e até dramático à maneira do aforismo 125 de “A gaia ciência” nietzscheana (1882) com a sua proclamação do “Deus está morto” já é um bem raro, oprimido pelo indiferentismo metafísico e pelo relativismo ético para o qual Deus não é nem negado nem hostilizado, mas simplesmente ignorado, as pessoas se interrogam sobre a autêntica identidade de Deus, em um contexto de politeísmo sociocultural.

Nesse ponto, muitos optam por uma radicalização da doutrina básica do cristianismo, isto é, a Encarnação, que também inclui a kénosis – para usar o célebre termo paulino (Filipenses 2, 7-8) – e, portanto, a descida do divino na carne do processo histórico, dissolvendo uma transcendência isolada e alheia.

Eis, então, o compromisso a deixar para trás o incenso da Igreja e a se abrir ao Deus vivo no próximo, na existência, no movimento da história. A Encarnação, assim concebida, porém, corre o risco de se reduzir a imanência mundano-salvífica, amputando progressivamente toda referência à graça, ao transcendente, ao mistério, ao Reino de Deus que está, sim, “no meio de nós”, mas também está além de nós.

No entanto, é positiva a ênfase na caridade evangélica, assim como o estímulo a purificar certas imagens meramente metafísicas e “apáticas” de um Deus “motor imóvel” e a superar um teísmo racionalista demais.

Abre-se aqui também o capítulo da linguagem sobre Deus que alguns leitores levantam de modo muito crítico em relação ao “eclesialês”. É uma exigência que cresceu exponencialmente com as novas gramáticas informáticas que desarranjam as ordenadas argumentações teológicas, as codificadas regras da eloquência sagrada, os feixes das subordinadas silogísticas e assim por diante.

Nisso, é significativo o magistério de Francisco, que procede por frases coordenadas e essenciais e através de símbolos e imagens. Esse discurso é cada vez mais posto sobre a mesa, sobretudo pelo fenômeno da fuga dos jovens dos espaços eclesiais.

Outro setor desse mapa simplificado das reações dos leitores diz respeito a um fenômeno que muitas vezes surpreende os teólogos e que também se repete na minha experiência como publicista. É certo e evidente que sejam levantados quesitos de recorte ético-social como os sobre bioética, sobre genética, sobre gênero, sobre moral sexual, sobre trans-humanismo, sobre os vários tipos de fecundação, sobre inteligência artificial e assim por diante.

Mas muito superiores às grandes e últimas questões que a religião solicita são as perguntas que nós consideramos como secundárias ou marginais, ou, no máximo, como “penúltimas”. No entanto, elas despertam um interesse impressionante: vão da figura do diabo até os extraterrestres, das curiosidades sobre o além à reencarnação, das aparições marianas ao espiritismo e ao paranormal, de interpretações bíblicas fantasiosas aos desconcertantes “concordismos” entre ciência e fé...

Na realidade, essas interrogações também são úteis de serem levadas ao teólogo na encruzilhada concreta das expectativas humanas e para lhe ensinar a humildade da escuta, saindo do ateliê asséptico da pesquisa, e para torná-lo consciente de que, até para ele, existem perguntas sem resposta.

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