Mais uma caravana de emigrantes deixou Honduras: por que eles fogem?

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17 Janeiro 2019

Emigrantes de Honduras saíram de San Pedro Sula em direção à fronteira da Guatemala no início do dia 15 de janeiro, na esperança de chegar à fronteira dos EUA em meio a controvérsias sobre a fortificação da fronteira sul por meio de um muro.

Segundo a mídia, os participantes responderam a mensagens organizando a caravana pelo WhatsApp e a publicações promovendo-a nas redes sociais.

A reportagem é de David Agren, publicada por Catholic News Service, 16-01-2019. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A caravana segue o caminho de outro grupo de emigrantes, que viajou pela Guatemala e pelo México no outono passado para a cidade fronteiriça de Tijuana. Essa caravana - que foi seguida por outras caravanas menores - chamou a atenção da mídia. O presidente dos EUA, Donald Trump, twittou sua desaprovação, dizendo que a massa de imigrantes faria uma "invasão" e enviando tropas para a fronteira sul.

Segundo observadores, os imigrantes são atraídos às caravanas porque acham mais seguro viajar em um grupo grande. O fato de que pouco mais de 5.000 viajantes chegam a Tijuana - e poucos conseguem entrar nos Estados Unidos e fazer pedidos de asilo ou entrar em uma longa lista de espera para isso, ou ainda entrar nos Estados Unidos ilegalmente - incentiva mais pessoas a tentar a sorte.

"Para muitas pessoas, o simples fato de estarem em um lugar onde estão alimentados e sua vida é segura é visto como sucesso", disse Lidia Mara Silva da Souza, irmã scalabriniana, líder do ministério de mobilidade humana dos bispos hondurenhos. "O fato de ter um amigo ou parente que viajou na caravana anterior e ainda não foi deportado é uma motivação para outras pessoas que aderem à caravana."

Dificuldades em casa, como a pobreza e a violência, também levam possíveis emigrantes a sair, enquanto os governos da região têm feito pouco para promover o desenvolvimento ou reduzir a pobreza, segundo observadores.

"O que está acontecendo é que os atuais sistemas econômicos, sociais e políticos de Honduras estão nas mãos do governo. Eles não podem formar uma política de contenção da emigração", disse o padre jesuíta Ismael Moreno, fundador da Rádio Progreso, de Honduras. "A situação do povo é tão ruim que o governo não consegue convencer ou impedir as pessoas de saírem do país."

O governo de Honduras fez uma campanha avisando os imigrantes de aviso sobre os riscos da estrada, e a encarregada de negócios da embaixada americana em Honduras, Heide Fulton, recentemente disse para os imigrantes em potencial "não serem tolos” e ficarem onde estão.

Mesmo que as taxas de homicídio tenham caído na região, segundo o padre Moreno os avisos não funcionam por causa da situação desesperadora na América Central e a impopularidade dos governos.

O presidente hondurenho Juan Orlando Hernandez foi reeleito no final de 2017, e o presidente guatemalteco Jimmy Morales está tentando terminar com uma iniciativa internacional anti-impunidade após familiares seus terem sido acusados de corrupção. O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, colocou a polícia e paramilitares para reprimir protestos, forçando os dissidentes ao exílio.

"A imigração é uma saída desesperada", disse o padre. "É uma situação de derrota interna. É uma situação de frustração, em que ninguém liga para os riscos ao longo do caminho nem para as ameaças recebidas ao chegar nos EUA. O que é importante é sair do país."

Enquanto muitos fugiram devido à violência das gangues, o recrutamento compulsório para participar delas e a extorsão, a maioria dos imigrantes da primeira caravana de Honduras disseram que não conseguiam o suficiente para sobreviver, já que a inflação dos preços de produtos da cesta básica ultrapassava o crescimento dos salários ou o aumento do salário mínimo. O preço da eletricidade também triplicou após a privatização da empresa do estado, tornando-se "demais para uma família de baixa renda", disse Ismael Zepeda, economista do fórum social FOSDEH, em Honduras.

"Não se compra nada com o salário mínimo, apesar de ser o maior da América Latina", disse Zepeda. "É por isso que as pessoas partem na caravana, apesar de terem emprego."

Outros fatores estão levando as pessoas a abandonarem a América Central, como baixos preços de commodities como o café, os primeiros efeitos da mudança climática e a seca.

"Muitas pessoas de Honduras que estão na caravana saíram do país porque houve quatro secas nos últimos cinco anos - então a mudança climática também é um fator", disse Rick Jones, conselheiro de migração do Catholic Relief Services, em El Salvador. Ele também citou a falta de oportunidades na América Central e a possibilidade de reagrupamento familiar.

"Tudo isso entra na decisão”, disse.

A ministra do Interior do México, Olga Sanchez Cordero, disse que os imigrantes elegíveis poderiam receber uma licença temporária para entrar, ficar ou trabalhar no país. Os que não forem elegíveis ou que entrarem no país ilegalmente, poderiam ter de voltar ou serem detidos e deportados.

Um novo governo tomou posse no México no dia 1º de dezembro, prometendo respeitar os direitos humanos dos imigrantes - que sofreram atrocidades como estupro, roubo e sequestro em viagem pelo México -, apesar de os detalhes da política de imigração ainda não terem sido anunciados. Uma proposta de plano para forçar os imigrantes a esperarem no México enquanto encaminham os pedidos de asilo nos Estados Unidos não foi implementada.

A nova caravana causou agitação para os coordenadores de abrigos católicos para imigrantes. Jorge Andrade, diretor de um conjunto de abrigos, disse que as caravanas representam problemas como o colapso da infraestrutura local e a impossibilidade de fazer uma verificação dos imigrantes. O preço para contratar alguém para levar os imigrantes para o outro lado da fronteira dos EUA também aumentou, mencionou.

Javier Urbano, especialista em migração e professor da Universidade Jesuíta Ibero-americana, diz que os abrigos tradicionalmente prestam assistência humanitária aos imigrantes - é um lugar para comer, dormir e descansar -, mas estão tendo que sucumbir à política com o aumento das caravanas, que são visíveis e inevitavelmente tornam-se políticas.

"Já não conseguimos responder da mesma forma", disse Javier. “A intervenção humanitária já não é suficiente. Agora é preciso intervenção humanitária, mas também ação política."

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