O que minha amizade com o Papa Francisco me ensinou sobre o diálogo inter-religioso. Depoimento do rabino Abraham Skorka

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17 Janeiro 2019

“Eu me pergunto por que os meus diálogos com o futuro Papa Francisco afetaram tão poderosamente a nós dois. Nós colocamos conscientemente Deus no centro dos nossos intercâmbios. Falamos sobre Deus e sobre como nos aproximar de Deus. Queríamos aprender com as experiências de Deus um do outro. Isso nos deu a consciência certeira de que Deus estava nos acompanhando em nossa jornada”, escreve Abraham Skorka, rabino, doutor em Química e professor do Seminário Rabínico da Argentina, do qual também é reitor, do Jewish Theological Seminary of America e da Saint Joseph’s University, na Filadélfia, em artigo publicado por America, 15-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Em fevereiro deste ano, participarei com o meu amigo Papa Francisco de uma “Conferência Global sobre Fraternidade Humana”, organizada pelos Emirados Árabes Unidos, em Abu Dhabi. Ela busca um marco comum de cooperação entre os líderes religiosos para alcançar a paz e a solidariedade humana.

O diálogo inter-religioso sempre foi uma prioridade para mim. Aprendi a sua importância com o meu mentor, o rabino Marshall T. Meyer, um protegido do grande rabino Abraham Joshua Heschel. Conheci Jorge Mario Bergoglio há quase 20 anos, quando ele era bispo auxiliar em Buenos Aires. Reconhecemos um no outro um parceiro para a implementação do nosso compromisso compartilhado com o diálogo e entre as religiões. Nos anos seguintes, engajamo-nos em inúmeras conversas sinceras, que ambos consideramos profundamente significativas e transformadoras.

Em preparação para o encontro em Abu Dhabi, eu me pergunto por que os meus diálogos com o futuro Papa Francisco afetaram tão poderosamente a nós dois. Como eles puderam ir além das trocas superficiais de informações para se tornarem experiências espirituais e pessoais profundas? Como eles chegaram a encarnar aquilo que ele descreveu como “a jornada da amizade” que judeus e católicos empreenderam desde o Concílio Vaticano II?

Primeiro, nós colocamos conscientemente Deus no centro dos nossos intercâmbios. Falamos sobre Deus e sobre como nos aproximar de Deus. Queríamos aprender com as experiências de Deus um do outro. Isso nos deu a consciência certeira de que Deus estava nos acompanhando em nossa jornada.

Manter o foco nas nossas relações com Deus nos manteve humildes e mais abertos um ao outro. Como Francisco escreveu em “Sobre o Céu e a Terra”, o livro que coescrevemos: “Para dialogar, é preciso saber como baixar as defesas, abrir as portas do próprio lar e oferecer calor”. Entendemos que Deus criou a todos nós à imagem divina, permitindo-nos ver o reflexo de Deus nos rostos uns dos outros enquanto abrimos cada vez mais os nossos corações uns aos outros.

Além disso, nunca tentamos persuadir – ou dissuadir – um ao outro de qualquer coisa. Como o Papa Francisco recordou, “havia uma base de confiança total, e nenhum de nós negociou a nossa própria identidade. Se tivéssemos feito isso, não teríamos podido conversar. Teria sido uma farsa (...) E nenhum de nós tentou converter o outro”.

Por causa da nossa confiança, “o nosso diálogo era livre”, como Francisco me lembrou quando eu compartilhei um rascunho deste ensaio com ele. Respeito pela integridade religiosa um do outro, de fato, nos ajudou a aprender juntos. “Minha vida religiosa ficou mais rica com as suas explicações, muito mais rica”, observou o meu amigo.

Francisco e eu também entendemos que as demandas do presente – o esforço comum pela paz, o alívio da fome, o fim da destruição do nosso ecossistema global – eram urgentes. Para além das diferenças e das diferenças perceptíveis que separaram judeus e cristãos durante séculos, é de uma importância muito maior o fundamento ético comum que compartilhamos na Bíblia, que nos permite trabalhar juntos.

Crucialmente, cada um de nós tentou entender a identidade religiosa do outro em seus próprios termos e compartilhar as preocupações um do outro. Lembro-me da dor de Francisco em relação ao antissemitismo. “Um cristão não pode ser antissemita”, declarou ele repetidamente como papa. Ele também afirmou que “um ataque direto contra o Estado de Israel é [uma forma de] antissemitismo”, porque “Israel tem todo o direito de existir em segurança e prosperidade”.

Embora Francisco tenha expressado esses sentimentos por causa de seu profundo respeito pelos direitos humanos e pelo povo e tradição judaicos – e não por causa da nossa amizade – a sua capacidade de ter empatia pela angústia alheia foi um grande dom que muitas vezes enriqueceu os nossos diálogos.

Finalmente, valorizamos as diferenças dentro das nossas semelhanças. Aprendemos que seria uma blasfêmia contra Deus se permitíssemos que até mesmo as nossas diferenças definidoras nos separassem como filhos de Deus e como irmãos. O diálogo é o imperativo da nossa era.

Francisco certa vez me escreveu que “a semente da paz, uma vez semeada, não será destruída. Você tem que esperar pelo nascimento do tempo que favorecerá o seu crescimento, rezando e seguindo o mandamento do amor”.

Essa é a mensagem que eu espero levar para Abu Dhabi. Esforçar-se por uma autêntica amizade e pela paz através do diálogo não é perseguir uma ilusão. Na verdade, é o destino da existência humana.

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