Exatamente um ano atrás iniciava a difícil visita do Papa Francisco ao Chile, mas ninguém quer lembrá-la

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16 Janeiro 2019

No Chile, na prática, ninguém menciona essa recorrência. Na verdade, nem sequer é lembrada. A atualização do site do Episcopado a ignora completamente (pelo menos até as 08:00 desta terça-feira, 15 de janeiro de 2019). Em algum jornal local fala-se de grupos de leigos que depois de seus encontros fizeram referência à peregrinação do Santo Padre, entre 15 e 18 de janeiro de 2018, e ao mesmo tempo reproduzem algumas declarações de vítimas de abusos sexuais por parte de membros do clero. Tem-se a impressão de que ninguém gostaria de lembrar o grande evento e certamente não por razões relacionadas com o Pontífice, que continua a ser uma pessoa respeitada e muito querida pelo povo chileno, mas para evitar reviver o trauma que toda a nação teve que suportar desde que - justamente nas últimas horas da presença de Francisco no Chile (na cidade de Iquique) - eclodiu a grande crise relacionada com o episódio do ex-padre Fernando Karadima.

A reportagem é publicada por Il sismógrafo, 15-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na segunda-feira, em Roma, o bispo Fernando Ramos, porta-voz dos Bispos membros da Presidência do Episcopado e o Secretário-Geral da Conferência Episcopal, após três horas de conversa com o Santo Padre, em uma entrevista com um grupo de jornalistas, praticamente não relembrou a viagem. Em sua entrevista à Rádio Vaticana, limitou-se a dizer que aquela viagem havia ocorrido um ano atrás.

Muitas pessoas aguardavam, como é tradição e costume, uma nota episcopal, mas até agora nenhuma declaração foi divulgada.

É justamente a história de F. Karadima, outrora pessoa poderosa a ponto de receber a cada semana - quando o cardeal Francisco Javier Errázuriz, arcebispo emérito de Santiago, o chamava de “um homem santo” - a visita do Núncio Apostólico, fato que as crônicas e a história lembrarão como o detonador que mudou a história da igreja Católica no Chile.

Sem querer, o Papa Francisco abriu uma caixa de Pandora, mesmo que ele só quisesse ajustar alguns dos seus julgamentos precipitados sobre algumas das vítimas dos abusos sexuais de Karadima e sobre o bispo mérito de Osorno, Juan Barros, acusado de ter acobertado os delitos do então padre, seu mentor.

Tratava-se exatamente daquele vaso que alguns tinham escondido de Bento XVI e do cardeal Tarcisio Bertone (que visitou o Chile como secretário de Estado) e, sobretudo, de Jorge Mario Bergoglio, particularmente na fase de preparação da visita. O próprio Papa Francisco, em uma carta pública, denunciou ter recebido informações não verdadeiras e não equilibradas, fato que descobriu poucas horas depois de sua chegada à capital chilena.

Aos olhos de grande parte da hierarquia católica chilena, a viagem e a presença do Papa Francisco no Chile deveria ser a "consagração" dos próprios bispos e do que eles tinham conseguido fazer com sua igreja nas últimas décadas. A visita do Papa devia servir para fazer com que se acreditasse que tudo estava bem e em conformidade com a letra e o espírito do Evangelho; que a igreja estava frequentemente sob ataque gratuito e que as verdades de algumas vítimas de Karadima estavam cheias de mentiras, calúnias e vinganças pessoais; queriam transmitir a ideia de que a hierarquia tinha tratado com seriedade, honestidade e justiça as centenas de denúncias de abusos sexuais e que, finalmente, os problemas da igreja local "eram todos culpa da secularização".

Não foi assim. A crise e o declínio da Igreja chilena revelaram a verdade última e mais profunda do quanto um grupo de bispos, nomeados não por mérito, mas porque pertencem a facções de poder aninhadas inclusive no Vaticano, queria negar, esconder e acobertar.

Se não fosse para a reação e preocupação do Papa Francisco, a igreja chilena ainda estaria nas profundezas de sua crise, e de Karadima, expulso do estado clerical, alguns ainda estaria louvando suas virtudes heroicas. Graças à coragem e à determinação do Papa, esta igreja hoje, pelo menos, foi capaz de fazer uma autocrítica e pensar em um futuro diferente, realmente em conformidade com o Evangelho e não com o poder, o clericalismo e a autorreferencialidade. Neste sentido o encontro da última segunda-feira, 14 de janeiro, entre o Pontífice e os bispos da Presidência Episcopal para fazer um balanço deste ano, é de fundamental importância para os católicos chilenos e para o Chile, que continua a ser uma nação com fortes raízes no Evangelho. O que se deseja neste ponto é a publicação por estes bispos de uma mensagem especial ao Povo de Deus no Chile após a audiência de Francisco. Por enquanto, os bispos ignoraram esse Povo quase como se sugerissem que para eles a questão é entre a hierarquia e o Pontífice. Mas não é assim!

Esses bispos deveriam lembrar, e dar relevância, às palavras do Papa, que lhes foram dirigidas no encontro, com as quais ele quis exortar a hierarquia para dar a devida importância e papel ao laicato, também no campo da luta contra os abusos e na prevenção. Desde o início da crise, Francisco além de colocar no centro as vítimas também enfatizou a centralidade da missão do laico na Igreja, porque, como é bem sabido no Chile, um dos erros da hierarquia foi de prescindir sempre e em qualquer caso, do laicato, muitas vezes tratado como figuração.

Desta visita, no entanto, resta o consistente e belo magistério do Papa Francisco, em parte, infelizmente, ofuscado pelos "arredores" que caracterizam a peregrinação, por causa da questão Karadima-Barros. (Discursos) A isso devem ser adicionadas as Cartas de Francisco para a hierarquia católica e ao Povo de Deus peregrino no Chile, elaboradas após a abertura da crise que o próprio Papa explicou ao retornar da América do Sul no avião que o levava para a Itália (Conferência de imprensa).

Finalmente, deve-se dizer que o complexo e doloroso episódio do Chile, onde o Papa Francisco tem um papel relevante, juntamente com o igualmente delicado e articulado pelo Episcopado estadunidense, estão na base da decisão do Santo Padre de reunir no Vaticano, de 21 a 24 de fevereiro próximo, todos os Presidentes das Conferências Episcopais falarão sobre a proteção de menores e vulneráveis na Igreja.

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