O maravilhoso escândalo da dádiva. Reflexões sobre um conceito mal compreendido

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11 Janeiro 2019

"Seremos julgados por nossos dons, por como os usamos, pelas relações que conseguiremos criar para salvar, iluminar e enriquecer a vida o próximo", escreve Giulia Galeotti, jornalista e escritora, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 08 e 09-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

"Diante da cultura do descarte e da indiferença, devo dizer que o dom deve ser colocado como o paradigma em condições de desafiar o individualismo e a fragmentação social contemporânea, para mover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas. O diálogo, que é colocado como um pressuposto do dom, abre espaços relacionais de crescimento e desenvolvimento humano capazes de romper os padrões consolidados do exercício do poder da sociedade". O conceito de dom, de dádiva, é reiterado continuamente na mensagem que o Papa Francisco escreveu por ocasião do vigésimo sétimo Dia Mundial do Enfermo, que será celebrado no dia 11 de fevereiro. Um conceito muitas vezes mal compreendido, mal interpretado, explorado.

De um modo geral, para que haja um dom é preciso um sujeito que realize a ação de dar um bem, material ou não, de forma gratuita (a presença de um preço ou de algo similar transforma o gesto em uma troca). Deve, portanto, tratar-se de uma irreddiblis datio, ou seja, uma doação sem a possibilidade de revogação, portanto a perda definitiva do bem (elemento, este, que o distingue do empréstimo). É então necessário um destinatário, conhecido ou desconhecido, que seja beneficiado pelo gesto. A dificuldade de encontrar um critério apto a distinguir claramente a atividade doadora e a atividade não doadora, entretanto, não para aqui. Um ponto complexo é, de fato, o da reciprocidade: sua presença é compatível, incompatível ou indispensável para que ocorra uma doação? As respostas variam. Se, de fato, alguns a excluem categoricamente, outros a consideram estrutural à própria vontade e atividade doadora.

Entre aqueles que negam que o dom seja compatível com a reciprocidade está Jacques Derrida, segundo o qual "para que ocorra um dom, não deve haver reciprocidade, retorno, troca, contra dívida ou dívida" nem no plano real, nem no simbólico. Assim, a figura por excelência é a de Abraão, encarnação da dissimetria absoluta. O resultado desse discurso é a impossibilidade da dádiva, ou melhor ainda, a própria impossibilidade de pensá-la. Para Derrida, de fato, não apenas a percepção do dom no doador anula o próprio dom em sua pureza, mas a total ausência de consciência também deve estar do lado do doador. "O dom como dom não deveria parecer como um dom: nem ao doador nem ao destinatário". Para ser puro deveria se autoanular enquanto tal. Deveria ser invisível.

As reflexões de Derrida são inspiradas, distanciando-se completamente do famoso ensaio que Marcel Mauss tinha publicado em 1925. Em O Ensaio sobre a Dádiva, de fato, ele explicava como o mecanismo do dom se articula da tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Esta identificação lançou as bases para a formulação de uma teoria mais ampla, aquela relativa ao fato social total: as relações humanas nascem a partir da troca que é iniciada com um dom de um lado para o outro, o qual por sua vez se sentirá na obrigação de retribuir, iniciando assim uma cadeia de trocas. Mauss, de fato, considera o dom como uma estrutura especificamente econômica: o dom corresponde a um contra-dom. Esse contra-dom, seja ele feito imediatamente ou muito tempo depois, garante a harmonia entre as pessoas. Os dons são, portanto, recíprocos: nada é perdido.

Não só no nível concreto, mas também, e principalmente, no nível teórico, consideramos que não existe nenhuma incompatibilidade em considerar a reciprocidade, amplamente entendida, como um elemento estrutural da doação: a sua presença não altera a sua essência, que é e permanece sendo aquela de um gesto que não se coloca na ordem da justiça, mas do amor. Querendo encontrar uma possível/impossível ideia de reciprocidade, recordamos os inúmeros relatos e testemunhos de guerra - desde a Primeira Guerra Mundial até a tragédia da ex-Iugoslávia - em que os pais de filhos enviados à frente de batalha relataram ter acolhido soldados desesperados ou em fuga na esperança de que, em algum lugar, os pais desses soldados estivessem cuidando de seus filhos.

Por essa perspectiva pode-se superar o conceito da pureza do dom: nenhum dom pode ser puro na medida em que necessariamente espera trazer vantagem para aquele que o recebe, quer se trate de um conhecido ou não. Se eu der algo de meu para um outro, é a intenção de beneficiá-lo (economicamente, espiritualmente ou culturalmente) o que qualifica meu gesto. Nós doamos - acreditamos - para criar relações sociais, o que nos torna humanos, sem, contudo, desnaturar a essência intrínseca do dom.

Antropólogos, filósofos, psicólogos e sociólogos têm derramado rios de tinta sobre a ambiguidade do dom em geral, sobre o fundo de agressividade que o ato de entregar de forma gratuita inevitavelmente esconde, sobre a violência simbólica que implica. Muitos, de fato, colocam a ênfase sobre o poder que o doador adquire em relação ao recebedor, um poder que, na melhor das hipóteses, é de forçá-lo à reciprocidade, e na pior (que se realiza quando o recebedor não está apto a retribuir) colocá-lo em um permanente estado de sujeição.

Alguns, aliás, identificam a ambivalência do dom desde início em sua dimensão linguística: a ambiguidade semântica de dar e receber, do dom como um instrumento ofensivo e como aliança, ao mesmo tempo fármaco que cura e substância mortal. Não parece bem interessante que gift em inglês signifique "dom" e em alemão "veneno"? Em Largesse (obra criada para acompanhar uma exposição no Louvre em 1995, sobre o gesto da dádiva), analisando suas várias formas, Jean Starobinski fala da conspícua dose de veneno presente tanto no dom simétrico (isto é, aquele que prevê a troca), como naquele assimétrico (como caridade beneficente ou mecenato).

Concentrando-se na agressividade do dom e em sua ambivalência, no entanto, acaba-se por paralisar a atividade humana: insistindo indiscriminadamente no ceticismo e na desconfiança tornamo-nos incapazes de oferecer dons e recebê-los.

Como já foi explicado, talvez para nós, hoje, o verdadeiro escândalo da doação, a autêntica dificuldade para compreendê-la em sua dimensão teórica, esteja no fato que ela se move sobre trilhos e responda a parâmetros diferentes daqueles da justiça. "Provoca o rompimento - escreveu Francesca Brezzi – de qualquer ideia de equivalência e simetria, e, portanto, se afasta de uma ideia de justiça homologadora, indiferente e neutra". O dom não é justo, não é lógico, não responde às consequências econômicas (basta pensar na distância absoluta com a célebre frase de Adam Smith, segundo a qual não é da benevolência do açougueiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas de seu interesse pessoal) e não se atém a delírios de autossuficiência.

Aliás, o escândalo intrínseco do dom é até aumentado assim que, continuando no raciocínio, entende-se que quem precisa é, acima de tudo, aquele que doa. Roberto Esposito falou de "contágio da relação": o dom como dívida (alguém doa porque se sente devedor) é o que interrompe o projeto imunológico da modernidade e do individualismo moderno, consignando os homens à obrigação que os vincula uns aos outros, esvaziando-os de sua subjetividade e expondo-os ao contágio.

Pouco antes, a resposta que Jacques Godbout havia fornecido à pergunta "por que alguém doa"?, tinha sido "para ligar-se, engajar-se com a vida, para fazer circular as coisas em um sistema vivo, para quebrar a solidão, voltar a ser parte da corrente, transmitir, sentir que não estamos sozinhos e que "pertencemos", que somos parte de algo maior e em particular da humanidade". Jean-Luc Marion fala sobre o efeito cascata: "O dom só pode ser recebido se doar a si mesmo, caso contrário, nem mereceria esse nome. A bacia vai ser preenchida pela cascata que está acima dela apenas se ela vazar continuamente na bacia abaixo dela. Apenas o abandono do que a preenche permite que o fluxo sucessivo continue a preenchê-la."

O maravilhoso escândalo do dom está na consciência de como o doador confia no outro e deposita confiança em sua resposta. Doar é arriscar: ao doar, não se tem a certeza de ser reembolsado. O dom é dom apenas se não houver nenhuma garantia para quem doa.

Seremos julgados por nossos dons, por como os usamos, pelas relações que conseguiremos criar para salvar, iluminar e enriquecer a vida do próximo. E, portanto, as nossas. Também porque o dom - como escreve sempre o Papa Francisco - é "em primeiro lugar o reconhecimento mútuo, que é o caráter indispensável do laço social. No dom aparece o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do Filho Jesus e no derramamento do Espírito Santo".

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