O ‘realismo montiniano’ de Papa Francisco

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08 Janeiro 2019

O "critério" do cristianismo não é a abstração das "belas palavras", ou das "fantasias" dos "falsos profetas", mas é caráter "concreto". O Papa Francisco falou isso nesta segunda-feira, na homilia pronunciada durante a missa matinal celebrada na Casa Santa Marta. Poucas horas depois, também foi marcado por este critério o discurso tradicional que costuma ser proferido no início de cada ano pelo Papa diante dos membros do corpo diplomático credenciados na Santa Sé. O fio condutor da intervenção papal, aguardada anualmente como uma ferramenta para a decodificação da geopolítica do Vaticano, é o do realismo, condensado na fórmula do multipolarismo e da "diplomacia multilateral" como instrumentos mais adequados para reduzir os conflitos e aliviar os sofrimentos reais dos povos.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 07-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Uma Igreja que não dita lei ao mundo

O Bispo de Roma, desde o início de seu discurso, deixou claro que a Igreja está preocupada com as emergências materiais e sociais que afetam toda a família humana apenas por "obediência à sua missão espiritual”, sem querer "ter ingerência na vida dos Estados" e com o único "desejo de colocar-se a serviço do bem de cada ser humano". Uma preocupação "que impele a Igreja em todos os lugares a atuar para promover a construção de sociedades pacíficas e reconciliadas". O papa não elabora novas teorias geopolíticas. Ele se move na esteira "realista" do predecessor Paulo VI, usando o discurso de 1965 do Papa de Brescia apresentado na ONU como bússola para orientar-se diante da atual situação do mundo.

A perspectiva de "diplomacia multilateral" é reproposta sem concessões para teorias políticas idealistas, como tentativa histórica, imperfeita, mas eficaz, para regular as relações entre as nações - nas palavras do próprio Papa Montini - com base na razão, na justiça, no direito, na negociação, e não na força, na guerra ou no engano. Essa tentativa, historicamente encarnada na criação da Liga das Nações e, mais tarde, da ONU, também se fundamentava na disponibilidade de "aceitar os inevitáveis compromissos que surgem a partir do confronto entre as partes."

Nenhuma nova "guerra santa"

O Papa reconhece que hoje o sistema de gestão mundial baseado em relações multilaterais é enfraquecido pelo reaparecimento de "tendências populistas e nacionalistas", como aconteceu entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Mas tal diagnóstico em si não prefigura qualquer convocação papal de guerras santas ou novas "santas alianças", nem mesmo contra os novos protagonistas populistas e nacionalistas.

As palavras do Bispo de Roma não se prestam para funcionar como um lubrificante das ideologias globalistas de viés mundialista e liberal. Em vez disso, o Sucessor de Pedro reconhece que as mesmas pulsões neonacionalistas são, pelo menos em parte, uma reação ao "crescimento da preponderância" de "poderes e grupos de interesse que impõem suas visões e ideias, provocando novas formas de colonização ideológica, muitas vezes desrespeitosas com a identidade, a dignidade e a sensibilidade dos povos".

Mesmo quando fala do aniversário de 1989 e da queda do Muro de Berlim, o Papa Francisco não evoca a retórica da "palingênese dos povos" com que tantos intelectuais católicos contaram o fim do comunismo nos Países do Leste Europeu. O Papa convida, mais do que qualquer outra coisa, a não esquecer os "benefícios - em primeiro lugar a paz - trazidos pelo caminho da amizade e da aproximação entre os povos empreendido no período pós Segunda Guerra Mundial".

As novas formas de predileção pelos fracos

Até as palavras sobre os refugiados, imigrantes e "novos" oprimidos foi reproposta pelo Papa Francisco citando Paulo VI, seguindo os passos da predileção evangélica pelos pobres e, portanto, sem desprezo e pretensão contra Estados e instituições políticas nacionais e internacionais.

No que diz respeito aos refugiados no conflito do Médio Oriente, o Papa também advertiu sobre alguns governos locais - como o jordaniano e o libanês - atingidos pelo êxodo de milhões de sírios em fuga, expressando "a esperança de que os refugiados poderão voltar para sua pátria, em condições de vida e segurança adequadas". Sobre o fenômeno global de migrantes, apelou para que todos lutem contra as causas que levam milhões de pessoas a abandonar a própria família e nação, lembrando que "para uma questão tão universal não podem ser dadas soluções parciais". E mesmo recordando o envolvimento da Santa Sé nas negociações e para a adoção dos dois "Global Compacts" sobre Refugiados e sobre a Migração segura, ordenada e regular, recordou as reservas do Vaticano "sobre esses documentos, incluídos no Pacto sobre Migração, que contêm terminologias e orientações que não correspondem aos seus princípios sobre a vida e os direitos das pessoas". Enquanto entre as novas fragilidades associadas à globalização também lembrou o empobrecimento das classes médias e a erosão dos salários nos países desenvolvidos, junto com a praga do trabalho infantil e novas formas de "trabalho escravo".

Traficantes de armas e acobertamentos "religiosos"

O realismo do discurso papal aos diplomatas creditados no Vaticano também é percebido no peso que o Papa reconhece o tráfico de armas, influenciando os eventos mundiais. A rejeição de políticas de desarmamento nuclear e a busca de armas cada vez mais sofisticadas e destrutivas prefiguram um mundo onde "as relações internacionais são dominadas pela força militar, pelas intimidações recíprocas, pela ostentação dos arsenais bélicos". Cenários onde o diagnóstico realista do Papa e da Santa Sé também é percebido na ânsia de evitar que a condição dos cristãos ou dos pedidos de respeitar e expandir os próprios espaços de liberdade religiosa sejam feitos reféns por operações políticas ou geopolíticas feitas às custas das comunidades cristãs locais.

Em seu discurso aos diplomatas, o Papa recordou a situação de sofrimento de muitas comunidades cristãs no Oriente Médio, mas também lembrou os "múltiplos interesses conflitantes" de natureza política e militar que alimentaram os conflitos no Oriente Médio, mirando também a "interpor inimizade entre muçulmanos e cristãos".

Com a mesma e eficaz determinação, desmentiu também as tentativas obstinadas daqueles que condenam os contatos em curso entre a Santa Sé e o governo chinês como uma mera performance de aparatos à caça de sucessos diplomáticos para vender aos jornais a caro preço: o Acordo Provisório entre a Santa Sé e a República Popular sobre a nomeação dos bispos na China, que aconteceu em 22 de setembro passado - reiterou o Papa - foi "o fruto de um diálogo institucional longo e ponderado" conduzido pelos Papas e seus colaboradores com o desejo primário de promover a reconciliação dos católicos chineses e renovar o impulso para o anúncio do Evangelho na China. Agora - frisou o Papa Francisco - "pela primeira vez em muitos anos, todos os Bispos da China estão em plena comunhão com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal". Espera-se que a continuação dos contatos entre Pequim e Palácios da Santa Sé "contribuam para resolver as questões pendentes e garantir aqueles espaços necessários para um efetivo usufruto da liberdade religiosa".

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