México. A Igreja encara a reunião do Papa sobre a pedofilia longe das vítimas de Maciel

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08 Janeiro 2019

José Barba, ex-legionário de Cristo e vítima de Marcial Maciel, abusador sexual e fundador da ordem, passou vários anos sem ir à comunhão. Há alguns meses, em pleno torvelinho de abusos na Igreja chilena, ele voltou a participar de uma missa na Cidade do México e saiu indignado: “O padre não disse uma única palavra sobre os casos de pedofilia”. Há 15 dias, voltou à mesma igreja e desta vez o padre mencionou algo sobre o assunto: “Ele disse que era apenas um grãozinho preto no arroz”, recorda.

A reportagem é de Georgina Zerega e Jon Martín Cullell e publicada por El País, 05-01-2019. A tradução é de André Langer.

A longa sombra de Maciel (1920-2008) continua a pesar sobre a Igreja mexicana, ainda relutante em reconhecer e a falar sobre o flagelo da pedofilia. Onze anos após a morte do fundador dos Legionários de Cristo, algumas de suas vítimas reclamam nos tribunais, ao passo que outras negociam diretamente com a congregação a reparação dos danos. O surgimento de novas denúncias no país confirma, de acordo com as vozes consultadas, o caráter estrutural dos abusos e a existência de um sistema de ocultação há pelo menos seis décadas. Um mês e meio antes da reunião sobre a pedofilia convocada pelo Papa Francisco, as vítimas criticam a distância da Igreja mexicana.

Após as declarações do prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, o cardeal João Braz de Aviz, sobre o acobertamento dos crimes de Maciel pelo Vaticano, vítimas e especialistas na matéria pedem ações concretas para solucionar o problema e não apenas palavras contundentes. Embora o próprio Francisco tenha pedido à hierarquia de todo o mundo que se aproxime das vítimas em preparação à reunião de fevereiro, as vítimas de Maciel consultadas asseguraram que a Igreja mexicana não se comunicou diretamente com elas – este jornal tentou em vão entrar em contato com o Episcopado.

José Barba, um dos oito ex-legionários que denunciaram publicamente Maciel em 1997, aguarda uma reunião com o novo cardeal do México, nomeado há um ano para substituir Norberto Rivera, perseguido por alegações de ter protegido vários padres pedófilos. “Em março passado, eu vim para me encontrar com um advogado do novo cardeal e ele me perguntou se eu estava disposto a falar com ele, mas não deu nem data, nem lugar, e eu ainda não me reuni com ele”, conta. “Não houve vontade.”

Diante desta aparente passividade, seis vítimas denunciaram em outubro os Legionários de Cristo por danos morais, a primeira demanda com essas características. Embora os abusos tenham prescrito, Sergio Méndez Silva, o advogado das vítimas, disse que seus clientes sofreram tortura, crime tipificado como violação dos direitos humanos pelos diversos tratados internacionais assinados pelo México. Ao tratar-se de uma transgressão de um direito fundamental, o advogado argumenta que a justiça mexicana deveria admitir a denúncia. Três outros ex-legionários, entre os quais está Barba, optaram por negociar diretamente com a congregação sem recorrer à via legal. As negociações ainda estão em aberto, razão pela qual Barba prefere não dar detalhes por razões de “discrição e respeito”.

“Quando eu denunciei Maciel pela primeira vez, fui acusado de fazer trama, de ser um inimigo da Igreja”, conta o ex-sacerdote Alberto Athié, um dos primeiros a denunciar os abusos do fundador da Legião de Cristo ao agora arcebispo emérito do México, Norberto Rivera. Athié garante que, após apresentar-lhe em 1997 nove casos de pedofilia, Rivera quis silenciá-lo e ofereceu-lhe nomeá-lo bispo em troca de seu silêncio. Ele não aceitou, o que lhe rendeu sua posterior transferência para Chicago, nos Estados Unidos.

O ex-sacerdote estima que somente no México há pelo menos 40 vítimas de Maciel e insiste que acobertar abusos na Igreja era uma questão sistêmica. “Havia um protocolo de acobertamento, sob o qual os bispos agiam. A pedofilia clerical não é um acidente, é uma questão estrutural”, diz Athié. Embora o Papa Francisco tenha perdoado a Legião em 2015, a ferida ainda não cicatrizou. “Sentem-se perdoados como instituição, mas por dentro ainda há legionários que defenderam Maciel”, diz Barba.

O caso do fundador dos Legionários é apenas a ponta do iceberg. No México, a Rede de Sobreviventes de Abusos Praticados por Sacerdotes (SNAP) afirma ter atendido cerca de 550 casos nos últimos 11 anos. A maioria ocorreu na década de 1980. Apesar do tamanho deste flagelo, no México houve apenas três condenações de sacerdotes por crimes sexuais, segundo a SNAP. Para explicar esta contradição, o diretor da rede, Joaquín Aguilar, aponta para a prescrição dos crimes, o silêncio das vítimas e o vazio legal – quase metade dos Estados mexicanos não tipificou o crime de pederastia. O próprio Aguilar foi abusado quando tinha 13 anos, no início da década de 1990. Sua denúncia prescreveu e o sacerdote que abusou dele nunca foi condenado.

Apesar da reticência, a atenção que os casos de pedofilia receberam nos últimos anos por parte da mídia obrigou a Igreja mexicana a se mexer. Em novembro passado, aconteceu o primeiro fórum sobre a pedofilia clerical no México e o bispo auxiliar de Monterrey foi um dos oradores. Em paralelo, a SNAP está trabalhando com a Arquidiocese Primaz do México em um protocolo para tratar as vítimas de abusos. “Muitas vezes, quando se interroga menores que são vítimas de abuso não se tem sensibilidade”, disse Aguilar. “Em vez de incentivá-los a falar, são intimidados”. Está para ver se a Conferência Episcopal mexicana, a assembleia que reúne todos os bispos do país, adota o protocolo.

Sem criar expectativas, a reunião de fevereiro abre uma oportunidade, segundo especialistas e vítimas, para pôr um fim ao silêncio de tantos anos e passar, finalmente, à ação. Um dos pedidos em que algumas vítimas de Maciel insistem em relação à reunião é a abertura dos arquivos dos membros da cúria às autoridades civis de cada país. “Não há reconciliação sem reparação”, conclui Barba.

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