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20 Dezembro 2018

"O modelo de Francisco é feito um lindo buquê colorido. Tecido com flores simples por mãos imigrantes, reestabelece as pazes com a teologia que liberta, reposiciona a igreja na sua dimensão profética e se insere na complexa modernidade, para finalmente dizer o óbvio. Quem leu a  Laudato Sì’, percebeu que sua prática já era a muito realizada nas periferias do mundo. Então para que a carta? Para reposicionar as estruturas historicamente dadas em relações patriarcais e coloniais. Isso consiste mudar a rota do poder? A história contará", escreve Rafael Silva, professor da Universidade Federal do Ceará - UFC e doutorando em Sociologia na Universidade de Coimbra.

Eis o artigo.

A noite que antecede a uma audiência papal é sempre muito tensa. É difícil encontrar um lugar na cama, o travesseiro parece ter espinhos. Você reflete o quê, como e por que dizer alguma coisa. Até que o cansaço vence a batalha lhe ponto a dormir. Em tempo, o evento ocorreu no dia 5 de dezembro de 2018, motivado pela entrega de um ensaio denominado “As Cores da Laudato Sì’”[1] de minha autoria em referência a primeira encíclica de Francisco.

No dia seguinte, a ansiedade nos fez acordar com os pássaros. O relógio exerceu uma pressão colossal. Para equilibrar, repetem-se hábitos normais como ir à banca de jornal, olhar a rua, sentir o vento no rosto. A sorte dos iniciantes, é que o encontro ocorre tradicionalmente às 10 da manhã. Como quem aperta os pés, o caminho para o Vaticano é feito a passos rápidos, conduzido pelo cosmopolita metrô de Roma. Apenas duas paradas depois, alcançamos a estação de Otavviano, onde iniciamos uma interminável caminhada de duas ou três quadras até cruzamos a praça do martírio de Pedro.

Já no círculo da praça, a ansiedade se mistura a beleza arquitetônica de Bernini[2]. A robustez dos nossos corpos espantam os pombos, mas não reduz a curiosidade sobre os 40 metros do obelisco pagão do século I colocado ali pelo papa Sisto V[3]. Na mesma velocidade em que o vento gelado corta a pele, assumíamos lugar na fila de revista que antecede a entrada no Palácio apostólico.

Com os convites em mãos, percebemos a gelidez da guarda oficial que impressiona os turistas, distraí os desavisados em fotos, e revela certa pompa. Guiados por esse aparato - que sempre faz questão de lembrar onde você está - nos mantivemos centrados tateando nas palavras que gostaríamos ver brotar daquelas fontes que ainda nos separava do salão oficial.

Àqueles jardins bem que haviam deixado rastros, mas vieram à tona somente quando Francisco já havia apertado nossas mãos. Esse momento é carregado de significado revelando-se numa áurea simples e amistosa, emoldurada pelo sorriso singelo de um padre atencioso. Longe da pomposa liturgia que o cargo ocupa, o anfitrião revelava-se edulcorado, pronto para acolher. Nesse momento, sem refletir muito saiu a seguinte frase: “Francisco, obrigado por devolver a igreja aos pobres”.

Aqui duas reflexões se abrem: a primeira revela-se no voluntarismo que subitamente me tomou diante da maior autoridade da igreja católica. A segunda aponta para o conteúdo do agradecimento.

Pois bem, vamos à primeira. Usei o nome que o próprio papa escolheu por ocasião do conclave de 2013. Qual o mal nisso? Hoje, nenhum. Mas diante das caricaturas exigidas por seus antecessores, isso seria um sacrilégio. É preciso reconhecer ser pouco usual chamar sua santidade pelo nome, esse gesto resume um profundo sentimento de liberdade, apesar denunciar a falta de atenção às aulas que ensinam os pronomes de tratamentos.

Esse fato remonta a sua eleição, antecipada pelo esgotamento clerical de tempos recentes. Lembro-me na oportunidade, fui perguntado qual o nome o papa deveria assumir? Prontamente apostei: Francisco. Dias depois, Bergoglio abriria à necessária primavera na igreja. Em tempo, para aqueles que gostam de números, Francisco foi eleito no dia 13.3.2013, os números iniciais e finais da data vão indicar algo muito interessante, que veremos nas linhas a seguir[4].

Retomando a tradição romana, um papa modifica seu nome desde o Século VI. À época em que Mercuriano percebeu que carregava na sua identidade uma homenagem ao deus pagão Mercúrio, o que não condizia com a função. Então decidiu adotar o nome de João II. O nome de um pontífice revela na partida suas intenções, por isso, jamais alguém ousou repetir o nome de Pedro, e talvez não se veja alguém reivindicando o nome de Alexandre VII, pelos inúmeros ilícitos cometidos por Rodrigo Borgia – o famigerado Alexandre VI.

Nesse sentido, o nome de Francisco aponta para um modelo de igreja renovada na própria espiritualidade do seu tempo. Nos remonta ao pequeno lugarejo de Assis, assenta pouso na negação da hierarquização da vida pelas posses, e revelar-se na constante busca da justa medida da ecologia e da paz.

A aproximação de Francisco revela um simples vigário vestido de branco que abandona os títulos inerentes ao cargo para destilar olhar generoso capaz de exalar emoção. O encontro ocorre em minutos. Considerando que um bispo tem cinco minutos a cada cinco anos, àqueles momentos diante de Francisco parecem uma eternidade. Óbvio que no afã de dizer tudo, não se diz nada, e o momento se eterniza muito mais pela ambiência do que propriamente pelas palavras. Ao deixa-se tocar, e depois de escutar os motivos que nos levaram ali, o padre generosamente pediu que continuássemos e nos abençoou.

Aqui convido a refletir a segunda parte da frase: “obrigado por devolver a igreja aos pobres”. Inicialmente é preciso reconhecer o longo caminho a percorrer nesse sentido, mas já existem bons indícios a comemorar. Em síntese, Francisco influência decisivamente, em pelo menos três áreas importantes: gênero, pobreza e o modelo de gestão. Vamos a cada um deles.

Após um rigoroso inverno [5], somente um gesto radical seria capaz de devolver à mulher o papel central na igreja. Nesse ponto, Francisco faz história ao encaminhar outra lógica de relação com o feminino. Isso ocorre, sobretudo quando busca retirar o obscurantismo que a história impôs ao gênero. Como que um noivo amoroso Francisco lhe retira o véu da viúva, e devolve-lhe a grinalda da noiva.

Parece que o número 13 é caro a Francisco. Em 2016[6], o papa devolveu a grinalda da história a Maria Madalena restabelecendo sua condição original de apóstola ao nomeá-la a 13ª apostola. Francisco a chamou de “apóstola dos apóstolos”. Com isso regressou ao início da tradição cristã quando as mulheres ocupavam papel decisivo.

Quanto aos pobres, sabe-se que desde 1980, padres franceses protestam contra condição de pobreza das pessoas, mas somente em 19 de novembro de 2017, esse ato passou a figurar na agenda do Vaticano. Nesse dia, um banquete é servido a 1500 convidados especiais. Entre um Francisco estão os mendigos, os sem abrigos, os não cidadãos e os refugiados.

Hoje, quem vai ao Vaticano um pouco mais atento percebe mudanças substanciais. Se antes o visitante era recebido pela gelidez da guarda suíça, agora o auxílio amistoso vem de algum imigrante, cujo estereótipo revela a verdadeira mudança de sentido. E não se trata de ação isolada, se na idade média a igreja se financiava a partir de “benções” especiais, hoje a aquisição de um papiro assinado por Francisco é destinado a suportar a aquisição de remédios e roupas para os mendigos dos arredores de Roma. Antes que alguém possa caracteriza-lo pela pecha do fisiologismo, não é raro ouvir rumores de que o papa indica vender os bens da igreja para dar aos pobres [7]. Para ele “o verdadeiro bem cultural da igreja são os pobres”.

Finalmente passamos a refletir a mudança de posição quanto ao modelo de gestão. Aqui nos referimos especialmente ao Banco do Vaticano. Essa instituição foi criada pelo papa Pio XII, no tumultuado contexto político e econômico [8] dos anos 1940. Durante muito tempo foi assaltada pelas oligarquias europeias, fazendo supor um verdadeiro paraíso fiscal. Revelando-se em profundas disputas políticas, o banco ficou famoso no filme “o Poderoso Chefão III”, ao narrar às tramas sustentadas em denuncias que a máfia abreviara a vida de João Paulo I.

Ao ser indagado sobre o modelo institucional que o banco deveria adotar, Francisco deu seu tom ao assunto: “Jesus não possuía conta bancária”, e não ficou na retórica, sabe-se da nomeação de um grupo para reestrutura-lo na perspectiva dos Bancos Solidários, o que consiste estabelecer outro sentido à questão.

Outro ponto digno de nota quanto ao modelo de gestão consiste observar a trajetória realizada por um poder próximo a sucumbir. A receita diplomática indica aliança com outro poder maior. Em regra geral, abre-se mão de valores culturais, bens materiais e até de vidas. Todavia, diante desse cenário Francisco seguiu outra cartilha, abandonou o formalismo, abriu as portas aos desvalidos e jogou luz aos mais pobres entre os pobres. Precisava um papa do fim do mundo para restaurar a ousadia da igreja primitiva.

O modelo de Francisco é feito um lindo buquê colorido. Tecido com flores simples por mãos imigrantes, reestabelece as pazes com a teologia que liberta, reposiciona a igreja na sua dimensão profética e se insere na complexa modernidade, para finalmente dizer o óbvio. Quem leu a Laudato Sì’, percebeu que sua prática já era a muito realizada nas periferias do mundo. Então para que a carta? Para reposicionar as estruturas historicamente dadas em relações patriarcais e coloniais. Isso consiste mudar a rota do poder? A história contará.

Os hábitos de um papa não deveriam impressionar dado que o cargo reivindica ser “o servo dos servos”. Entretanto, essa postura não estava na agenda oficial. Francisco se faz perto desde Buenos Aires, onde usava transporte público e mantinha-se longe dos palácios reais. Não foi seduzido por motorista particular ou carro próprio. Feito um simples padre sempre cultivou hábitos modestos: “Era difícil olha para ele e ver um cardeal”[9] afirmou um garçom que servia café a Bergoglio, pontualmente às 8 da manhã, próxima a catedral Metropolitana de San Jose Martin. O momento que seguiu sua eleição foi marcado por um gesto humilde, inverteu a ordem e deixou-se ver de cima. Pedindo oração, ajoelhou-se frente ao público e inaugurou nova relação com os fiéis, ouso dizer fato inédito naquela praça.

Por isso, queremos registrar a alegria de ter encontrado a justa medida das palavras que marcaram esse momento. Dizer ainda da sensação jocosa de não termos sido recebidos em audiência por um papa, acreditamos mais na ideia de termos sido recebidos por um modelo de igreja, a quem agradecemos por ter devolvido aos pobres a esperança de ter uma igreja.

Notas:

[1] O autor lança mão de um ensaio original para contextualizar a Laudato Sì’ a partir das dinâmicas políticas, econômica, tecnológica e da dimensão da fé, dentro da dimensão local e regional da América Latina.

[2] Artista plástico do século XVII.

[3] Pontificado do Papa Sisto V – 1585 a 1590.

[4] A relação entre números e fatos é aqui é apenas figura de linguagem.

[5] O autor se refere aos papas João Paulo II e Bento XVI.

[6] Ver aqui.

[7] Ver mensagem aos funcionários do Pontifício Conselho para Culturas.

[8] Período de Guerra e fortes tenções com o modelo capitalista baseado no Liberalismo.

[9] Relato foi extraído presencialmente por mim por ocasião de uma visita presencial.

 

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