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19 Dezembro 2018

"Deus é minha testemunha de que eu teria preferido perecer com os mártires da liberdade na poeira desta terra amada e até mesmo descer para o inferno da detenção”. Padre Paolo Dall'Oglio confia essas palavras no seu blog em 19 de junho de 2012. O governo o havia notificado do decreto de expulsão. Ele escreve em árabe para as pessoas com quem compartilhou os últimos trinta anos de sua vida: os habitantes de Qalamum, a região montanhosa ao norte de Damasco, onde o padre Paolo deu vida, no início dos anos 1980, à comunidade monástica de Deir Mar Musa. O martírio lhe parece preferível ao exílio, especialmente agora que o seu povo, os seus jovens, estão envolvidos em uma luta mortal para a liberdade.

O artigo é de Marco Ventura, publicado por Corriere della Sera, 16-12-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mosteiro de Mar Musa (Foto: Wikimedia Commons)

Com a eclosão da Primavera Árabe na Síria, em março de 2011, tudo mudou. Após trinta anos de escuta, de imparcialidade, é tempo de apoio aos rebeldes e o envolvimento por uma Síria livre, democrática e multiconfessional: "Nos últimos meses fui forçado a deixar de lado a prudência e o medo", escreve em sua despedida da Síria, "porque eu via no horizonte a eclosão da guerra civil, os milhares de mortos e a deturpação da beleza da nossa nação, quais são os nossos jovens e as nossas jovens extraordinários."

Desde junho de 2012, a base operacional do exilado se estabelece em Sulaymaniyah, no Curdistão iraquiano. Um ano se passa entre pausas de meditação e cenas de ação. São numerosas as viagens, inclusive as entradas ilegais na Síria, sobre as quais escreve no último livro com o jornalista francês Églantine Gabaix-Hialé, Collera e luce. Un prete nella rivoluzione siria (Cólera e luz. Um padre na revolução síria - em tradução livre), publicado primeiro na versão francesa pelas Editions de l'Atelier, em maio de 2013, e pela Editrice Missionaria Italiana no agosto seguinte. Cresce a certeza desse romano de físico imponente e da voz profunda, que precisa ser imposto a sírios e curdos, iraquianos e turcos, sunitas e xiitas, o amor pela terra adotiva, a fraternidade com os vizinhos, a devoção ao povo. No final de julho de 2013, padre Dall'Oglio estaria de volta na Síria, em Raqqa ocupada por rebeldes contra o governo. Como em outras ocasiões, empenha-se para a libertação de reféns, para a mediação entre as forças em campo. Em 29 de julho de 2013 ele deveria se encontrar com os líderes locais do ISIS. Nunca mais se teria notícias dele.

A história de Paolo Dall'Oglio resume três dimensões fundamentais do martírio religioso contemporâneo.

Em primeiro lugar, a história pessoal se funde com a coletiva. Desde o primeiro contato com o Qalamum como turista aos dezenove anos, em 1973, a trajetória individual do Padre Paolo prepara um destino de comunidades: dez anos mais tarde, com a visita às ruínas do mosteiro de Mar Musa e a decisão de reconstruir seus muros e espírito e, depois, novamente com a criação de uma comunidade monástica orientada a "traduzir em ação a visão do acolhimento de Abraão e o interesse pelo meio ambiente na luta contra a desertificação." A história do jesuíta, ordenado sacerdote na Igreja sírio-católica, logo tornou-se a de um cristão árabe imerso nas contradições e nas responsabilidades de sua terra: até o drama da Primavera Árabe e da luta contra a ditadura de Bashar al-Assad, de um lado, e a sombra escura do Daesh, do outro. O martírio individual torna-se então comunitário: são mártires as cidades, as pessoas e as famílias.

A segunda dimensão do martírio, testemunhada por Paolo Dall'Oglio, é toda espiritual. Justamente nos anos em que cristãos e muçulmanos se tornam os protagonistas do choque de culturas e, nele, do mártir contemporâneo, a comunidade de Mar Musa está unida por um “projeto de misticismo compartilhado entre cristãos e muçulmanos "; a irmandade com a população local supera as divisões, em sintonia com outras experiências análogas, estas também prontas para o martírio, como a dos monges de Tibhirine, assassinados na Argélia em maio de 1996.

O seu penúltimo livro de 2011 se intitula significativamente Innamorato dell’Islam, credente in Gesù (Apaixonado pelo Islã, crente em Jesus, em tradução livre, Jaca Book).

Em seu último volume do ano seguinte, nos dias em que sua vida estava nas mãos de islamistas de gatilho solto, Paolo Dall'Oglio escreve: "A comunidade muçulmana não só não é externa à minha consciência mais íntima, mas aliás é minha própria carne, o corpo humano ao qual eu pertenço, a minha comunidade, a minha identidade".

A terceira dimensão é aquela que liga a história dos homens e a história sagrada. Monge responsável pelo seu próprio tempo, Padre Dall'Oglio tem uma visão clara do contexto geopolítico e de seu papel como liderança. Ele vê na Primavera Árabe uma oportunidade extraordinária para as comunidades cristãs do Oriente Médio se emanciparem do protetorado dos ditadores, muitas vezes aliados das potências ocidentais. Com a sua participação na luta pela liberdade, os cristãos árabes podem se unir aos irmãos muçulmanos para uma cidadania de iguais e lutar contra o preconceito arraigado que os vê como quintas colunas do colonialismo europeu e norte-americano.

Embora para muitos o projeto político se interrompa aqui, na história dos homens, o padre Paolo vê seu projeto imerso em história sagrada. Reza e negocia. Ele filma documentários e lê a Bíblia e o Alcorão. Ele vê a violência síria à luz da encarnação, da ressurreição, da intercessão de Cristo.

Na harmonia tridimensional entre indivíduo e comunidade, entre muçulmanos e cristãos e entre a história política e a história sagrada, o Padre Dall'Oglio é alternativo ao martírio narcisista ou populista, ao martírio do ódio, ao martírio que achata uma sobre a outra a história de Deus e a história do homem. O que importa não é o martírio em si, mas a aceitação do sacrifício pela verdade e liberdade. Escreve Padre Paolo, na véspera de seu desaparecimento: "É óbvio que eu gostaria de morrer a fim de sustentar essa posição de solidariedade e intercessão até o fim. Porém eu serei cauteloso e não me colocarei em perigo de modo irracional, porque eu reconheço o senhorio de Deus em minha vida, Deus Senhor da vida e da morte na minha existência. Mas não quero viver uma vida que seja outra coisa senão um dom radical, para a morte, para a vida".

O silêncio quanto ao seu destino nesses cinco anos é um convite para se concentrar especialmente em sua mensagem. Dessa mensagem, no entanto, o coração é a verdade.

A investigação de Jérémy André , publicada pelo jornal francês La Croix, em 15 de novembro último, levantou ainda mais dúvidas sobre o efetivo empenho das autoridades italianas na reconstrução dos fatos e no resgate do monge. “Não existe nenhuma informação confirmada sobre sua vida ou sua morte” declara a família.

Os parentes estão à espera, até mesmo de parte do governo italiano, "de uma explicação do que foi feito e ainda está sendo fazendo em um terreno difícil." Resta a última mensagem do padre Dall'Oglio, na véspera de seu desaparecimento, para resumir a fragilidade e a força do monge que apenas na precariedade do tempo presente consegue experimentar a eternidade de Deus: "Saudações a todos de Raqqa, na Síria livre”.

 

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