Os mártires de Tibhirine e o encontro com seus carrascos. Já os tinham perdoado

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12 Dezembro 2018

Testemunho. A revista mensal Città Nuova, por ocasião da beatificação dos 19 mártires mortos na Argélia entre 1994 e 1996, publicou o testemunho de uma adepta do Movimento dos Focolares que viajou para o país norte-africano em visita à comunidade de monges de Tibhirine, alguns anos antes dos trágicos acontecimentos que levaram ao martírio dos religiosos.

O artigo é de Rosi Bertolassi, publicado por L'Osservatore Romano, 11/12-12-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Passaram-se 30 anos. Foi em 1972-1973, quando saímos de Argel, nós quatro “focolarinas”, com nosso pequeno carro, para atravessar o Parque Nacional de Chréa, e chegar a Medea e depois se embrenhar na estrada que conduz ao mosteiro de Notre Dame de l'Atlas, em Tibhirine.


O mosteiro cisterciense de Atlas | Foto: Religión Digital

Um dia de retiro, com uma curta estadia na casa de hóspedes. Ainda revivo aquelas sensações: o perfume que exalava dos canteiros de alecrim, o jasmim, a terra revolvida pelo trabalho dos monges, a poeira levantada pelo vento de Atlas. A aspereza do ambiente e sua pobreza fascinante. Certamente, o clima era suave, pois ao ar livre havia sido instalada uma velha máquina de costura e um dos monges costurava os amplos camisolões de tecido branco, cru, que costumavam usar.

Uma visita à capela onde o recolhimento se alcançava logo, sem precisar procura-lo, e o local onde o Frère Luc (Irmão Lucas) um dos freis assassinados, médico, recebia as pessoas, especialmente mulheres e crianças, que precisavam de medicamentos e conselhos. A casa de hóspedes, bem cuidada e básica, oferecia o frescor e alguma conversa com os outros hóspedes, que também tinham vindo para se encontrar com os monges.

"Vocês vêm rezar com a gente?" "Sim, nós também planejamos nos retirar um momento para ler a Palavra de vida que nós propomos analisar neste mês, e relatar como a estamos vivendo." “E qual frase do Evangelho vocês escolheram?” Curtas conversas essenciais enquanto a máquina de costura passava o tecido por baixo da agulha.

"Vocês são ‘focolarinas’. Por que estão aqui na Argélia?” Na verdade, nós estávamos lá há pouco tempo e sentíamos a necessidade de ouvir a experiência desses homens de Deus, em vez de contar a nossa, ainda incipiente.

Eles estabeleceram uma relação extraordinária de interação e respeito com a população local, que nós precisávamos aprender. Assim, ouvindo aquelas palavras essenciais e olhando aqueles olhos inocentes, carregávamos o nosso espírito de uma rara beleza e uma sabedoria comprovada.

A viagem de regresso a Argel era normalmente mais silenciosa do que aquela de ida. Aquela profundidade tinha favorecido a relação com Deus, e em Deus éramos tão "um" que não precisávamos de tantas palavras, a não ser: "Como foi ótimo! Precisamos retornar para o próximo retiro! “

Nós ainda não sabíamos que o perfume daquele lugar, além de alecrim, além do jasmim, dos aromas carregados pelo vento, teria sido o da santidade e do martírio com o sequestro, na noite entre 26 e 27 de março de 1996, e o massacre de sete deles. Irmãos na humanidade. Bem-aventurados porque "perdoaram seus assassinos, mostrando amar mais a vida eterna", disse o Papa Francisco.

Sua beatificação amplifica o que escreveu Padre Christian de Chergé em seu testamento: "Se me acontecer um dia - e poderia ser hoje - de ser vítima do terrorismo que agora parece querer engolir todos os estrangeiros que vivem na Argélia, gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem que a minha vida foi ‘doada’ a Deus e a este país. Gostaria que aceitassem que o único Senhor de cada vida não poderia ser estranho a essa partida brutal. E que orassem por mim: como ser digno de tal oferta? Que eles soubessem associar essa morte com tantas outras igualmente violentas, mas esquecidas na indiferença do anonimato. Minha vida não tem mais valor que outra. E, também, não tem menos. Em qualquer caso, não tenho a inocência da infância. Eu vivi tempo suficiente para saber que eu compartilho do mal que parece, infelizmente, prevalecer no mundo, e até mesmo daquele que poderia me atingir cegamente. Quando chegar a hora, eu gostaria de ter aquele minuto de lucidez que me permita pedir o perdão de Deus e dos meus irmãos na humanidade, e ao mesmo tempo perdoar com todo o coração quem me tiver atacado [...]. E você também, amigo da última hora que não sabia o que estava fazendo. Sim, para você também quero esse "obrigado", e esse "a-Deus", em cujo rosto te contemplo. Que possamos nos encontrar novamente, ladrões felizes, no Paraíso, se Deus quiser, Pai nosso, de nós dois. Amém! Inch'Allah."

Com os sete monges de Tibhirine, são 19 os cristãos, homens e mulheres, que derramaram seu sangue ao longo dos anos atravessados pela terrível guerra civil na Argélia, em um "abraço" com a população muçulmana, também ceifada pelo ódio assassino. Os nomes, primeiro entre todos, o bispo Pierre Claverie, dessas testemunhas do diálogo que permanecem em nossa memória: Padre Christian de Chergé, Bruno Lemarchand, Célestin Ringeard, Christophe Lebreton, Luc Dochier, Michel Fleury e Paul Favre-Miville, Irmão Henri Vergès, Irmã Paul-Hélène Saint-Raymond, Irmã Esther Paniagua Alonso, Irmã Caridad Álvarez Martín, Padre Jean Chevillard, Padre Alain Dieulangard, Padre Charles Deckers, Padre Christian Chessel, Irmã Angèle-Marie Littlejohn, Irmã Bibiane Leclercq, Irmã Odette Prévost.

Assista ao trailer do filme Homens e Deuses, que retrata o martírio dos monges trapistas:

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