Thomas Merton. A tradição mística e os desafios políticos e pastorais da contemporaneidade

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11 Dezembro 2018

Para Rohr, tradição mística ensinada por Thomas Merton poderia resolver os problemas políticos e pastorais de nossa contemporaneidade.

A reportagem é de Heidi Schlumpf, publicada por National Catholic Reporter, 10-12-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Segundo o autor espiritual e professor frade franciscano Richard Rohr, a Igreja só poderá realizar mudanças positivas no mundo, ou até mesmo uma reforma, se os cristãos redescobrirem o “coração” e “mente” da tradição mística e contemplativa.

O “mestre da vida mística” é Thomas Merton, monge trapista e escritor espiritual que morreu há 50 anos, disse Rohr numa conferência que marcou o aniversário de meio século da morte de Merton.

"Merton nos deu as ferramentas para desenvolver um senso mais profundo de consciência", afirmou Rohr, criticando o “cristianismo infantil” que faz um ídolo de um partido ou de um país.

"Isso é heresia", disse Rohr, fundador do Centro para Ação e Contemplação em Albuquerque, Novo México. "Deus ama as pessoas que estão do outro lado da fronteira tanto quanto deste lado, embora muitos cristãos não pensem assim", continuou.

Rohr pediu um "despertar da alma" que incorpora a "espiritualidade ontológica" de Merton, o que ele chama de "consciência não-dual". Esse método não se concentra em distinções ou pensamentos como antídotos para a raiva que muito se vê nos Estados Unidos.

"As Igrejas não estão fazendo o seu trabalho", disse ele. "As pessoas estão ficando cada vez mais estressadas e dualistas, vivendo numa realidade em que perder ou ganhar é a base de tudo. O cristianismo não cumpriu seu papel. Quando você não possui um Deus de verdade, seus líderes políticos se tornam o seu deus", acrescentou.

“Os místicos como Merton, rejeitam as divisões do pensamento dualista, enquanto outros se utilizam dele”, disse Rohr. “A maioria das pessoas gostam de provar que estão certas e que outras estão erradas. Não há interesse místico", continuou.

Rohr afirma que aprendeu com Merton que pessoas contemplativas superam a divisão sujeito-objeto, mas percebem as relações como “sujeito para sujeito”

“Devemos dar voz e dignidade, independente de quem seja. Se está presente em nossa existência, merece tais direitos”, ressaltou.

Em uma das três viagens para fora do Novo México este ano, Rohr fez uma conferência na Catholic Theological Union (CTU) no dia 7 de dezembro, em Chicago, iniciando um simpósio de dois dias sobre Merton intitulado “'Disappear from View': Thomas Merton, Fifty Later and Beyond” (Desaparecendo de Vista: Thomas Merton, 50 anos depois, em tradução livre).

O evento foi co-patrocinado pelo Centro Bernardin da Universidade de Washington, pelo Centro Bill Hank para o Patrimônio Intelectual Católico e pela Seção de Chicago da Sociedade Internacional Thomas Merton.

Antes do Concílio Vaticano II, Rohr compartilhou lembranças pessoais da época que era um jovem seminarista e de como Merton mudou sua vida. No início dos anos 1960, Rohr passou pela Abadia de Gethsemani, no Kentucky, onde Merton viveu. Rohr não apenas viu seu herói espiritual andando alguns metros à sua frente, mas também teve a oportunidade de ver uma freira indiana que havia começado a trabalhar com os pobres: era Madre Teresa.

"Não estou brincando. Eles caminharam bem na minha frente", disse Rohr, observando que essa imagem o inspirou quando fundou seu centro espiritual em 1986, um centro ecumênico que ensina a contemplação através de conferências, cursos on-line, webcasts e meditações diárias via e-mail.

A Igreja Católica que foi ensinada a Rohr não oferecia esses recursos espirituais, lembrou ele. Em vez disso, estava focada numa "espiritualidade moral" na qual as pessoas buscavam Deus, obedecendo aos mandamentos ou através do "devocionismo piedoso", que "mantinha a tribo unida", mas "não mudava suas vidas".

Com seus escritos nos anos 1950 e 1960, Merton "quase que sozinho" convocou a Igreja Católica Romana a recuperar a tradição contemplativa que tinha sido mantida nas Igrejas orientais e que Rohr chamou de "tradição perene" em outras religiões do mundo.

Muitos padres não abraçaram a contemplação, já que ameaçava sua "segurança no emprego", afirmou Rohr.

"Se você ensina oração contemplativa, então a necessidade de mediadores é muito menor", disse ele. "Você não precisa do padre", acrescentou.

Rohr observou também que a contemplação não precisa ser restrita aos mosteiros. "Se continuarmos pregando uma forma de contemplação que exige celibato e solidão, estaremos perdendo nosso tempo", afirma ele.

“A contemplação e a transformação podem ser experimentadas através de um grande amor e um grande sofrimento, que está em jogo para todos”, disse Rohr.

Para Rohr, "a mente mística, a mente contemplativa, é a pérola de grande valor”, que pode abordar quase todas questões, sejam pastorais, políticas ou de relacionamento. “Não te ensina o que ver, mas te ensina a ver", acrescentou.

Sem contemplação, os cristãos podem ficar restritos em focar em distinções como cor de pele ou gênero. "Como se isso importasse a Deus", disse Rohr. "Cristãos que não enxergam além disso não possuem vida interior".

Em vez disso, as pessoas devem descobrir o ‘verdadeiro eu’, a ‘imago dei’ em si mesmo e nos outros, disse Rohr, citando Merton: "O que devemos nos tornar é o que já somos".

"Deus é apenas mais uma palavra para o tudo", disse Rohr. "Não diga que você ama a Deus se você não ama a tudo", disse.

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Confira também os textos de Thomas Merton publicados nas Orações inter-religiosas:

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