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09 Dezembro 2018

Patrocinado pelo bolsonarismo, o encontro no Paraná terá de fã de ditador assassino a senadora colombiana que nega matança histórica em seu país.

A reportagem é de Andre Barrocal, publicada por CartaCapital, 08-12-2018.

Às vésperas do início do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, o Brasil será palco de uma Cúpula Conservadora das Américas, a primeira do gênero, uma iniciativa bolsonarista que tentará aproximar reacionários do continente para ações políticas conjuntas. A “fauna” a se reunir no sábado 8 em Foz do Iguaçu, no Paraná, será variada e terá como estrela bolsonarista o filho caçula do ex-capitão, Eduardo, uma espécie de chanceler paralelo do futuro governo do pai.

À beira das cataratas, estarão um presidenciável chileno admirador de Augusto Pinochet, ditador conterrâneo de 1973 a 1990, um exilado cubano acusado de terrorismo nos anos 1980 e uma senadora colombiana que nega ter havido um fato histórico reconhecido por historiadores de seu país, a matança de camponeses grevistas em 1928.

Também da Colômbia, falará, mas por videoconferência, um ex-presidente que renunciou ao Senado neste ano por acusação de suborno e fraude e depois voltou atrás na renúncia, embora o processo contra ele siga na Suprema Corte. Trata-se de Álvaro Uribe, presidente de 2002 a 2010, que participará de debate sobre segurança, um dos quatro temas do evento.

O chileno fã de Pinochet, cuja política econômica neoliberal estará presente no governo Bolsonaro com o Chicago Boy  Paulo Guedes, futuro “superministro” da Fazenda, é José Antonio Kast. Ele estará na mesa redonda sobre política.

Na eleição presidencial chilena de 2017, Kast ficou em terceiro, com 8%. Era o favorito das viúvas da ditadura Pinochet. “O governo de Pinochet foi melhor que o de Sebastián Piñera (2010-2014) para o desenvolvimento do país”, dizia ele, “se (o general) estivesse vivo, votaria em mim”.

María Fernanda Cabal Molina é a senadora colombiana que nega um fato histórico trágico que completou 90 anos na quinta-feira 6, um episódio conhecido em seu país como “Massacre das Bananeiras”.

Em 1928, lavradores colombianos da multinacional norte-americana United Fruit Company entraram em greve por melhores condições de trabalho. Depois de um mês, o governo colombiano mandou o Exército pôr fim àquilo. Não há um número exato sobre os assassinados, mas as estimativas mais aceitas apontam algo como pelo menos 1,8 mil mortos.

Em novembro de 2017, enquanto Kast defendia Pinochet na eleição chilena, María Fernanda, que vê comunismo por toda a parte, a exemplo do clã Bolsonaro, escreveu no Twitter que o massacre era um “mito histórico da narrativa comunista”.

O exilado cubano acusado de terrorismo nos anos 1980 é Orlando Gutierrez-Boronat, catalogado na Cúpula Conservadora das Américas como “representante dos exilados cubanos nos EUA”. Ele participará de uma mesa redonda sobre cultura, juntamente com o guru bolsonarista Olavo de Carvalho, este por videoconferência.

Quem considerava Boronat terrorista era o governo de Cuba, por ele pertencer a um grupo extremista anti-Fidel Castro chamado Organização para a Libertação de Cuba, de um famoso terrorista cubano, Ramón Saúl Sánchez Rizo. Olavo de Carvalho acha o contrário: que Boronat é um guerreiro da liberdade e que terrorista é o governo cubano.

A principal cabeça da cúpula da extrema-direita é o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o mais votado da história brasileira. Seu pai escolheu como ministro das Relações Exteriores um diplomata com visão ideológica igual, o embaixador trumpista Ernesto Araújo, mas este terá de disputar protagonismo com o caçula do chefe.

Em fins de novembro, Eduardo foi aos Estados Unidos e se reuniu com algumas autoridades do segundo escalão do governo Donald Trump, tentativa de apertar laços com o atual presidente dos EUA.

Aproveitou e conversou também com o uruguaio Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), entidade sediada em Washington. Almagro foi chanceler do governo de esquerda de José Mujica, no Uruguai. Hoje, Mujica o considera, porém, um “perigo” para o continente, devido à posição de Almagro contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

Almagro foi uma das poucas personalidades a saudar a escolha de Ernesto Araújo como chanceler de Bolsonaro. Recompensa: Araújo anunciou apoio do Brasil à reeleição dele, em 2020, para o comando da OEA.

Almagro anunciou na quinta-feira 6 que tentará a reeleição. “Embaixadores da Colômbia e dos EUA me transmitiram que há um conjunto de países expressando apoio à minha candidatura para reeleição como secretário-geral da OEA. Decidi aceitar tal responsabilidade”, escreveu no Twitter.

A citada Colômbia também foi visitada por Eduardo Bolsonaro recentemente. Ele esteve em 3 de dezembro com o atual presidente de lá, o direitista Ivan Duque, no cargo desde agosto. Duque está decidido a combater Maduro, inclusive propõe que países latino-americanos retirem embaixadores da Venezuela quando o presidente de lá tomar posse de um novo mandato, em janeiro.

Derrubar Maduro será a principal “agenda” de Eduardo Bolsonaro, o chanceler paralelo do pai.

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