Livro de jornalistas italianos questiona testemunho de Viganò. Comentário de Massimo Faggioli

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02 Dezembro 2018

"Hoje, o Vaticano e partes da Igreja Católica nos Estados Unidos parecem estar olhando um para o outro com descrença, e Il Giorno Del Giudizio [O Dia do Juízo, em tradução livre) fornece mais evidências deste estranhamento. Andrea Tornielli e Gianni Valente têm muitos anos de experiência cobrindo o Vaticano e a Igreja global (incluindo o Oriente e a China). O livro transmite a postura do Vaticano sobre o que está acontecendo do lado de cá do Atlântico", escreve Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado por Commonweal, 29-11-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Enquanto se espera o Vaticano divulgar os resultados das investigações internas sobre o caso de Theodore McCarrick, alguns jornalistas já estão trabalhando no sentido de compreender os eventos. Um livro publicado no início deste mês por dois veteranos jornalistas italianos, Andrea Tornielli e Gianni Valente, lança nova luz sobre o caso McCarrick e os acontecimentos deste verão passado. Il Giorno Del Giudizio [O Dia do Juízo, em tradução livre] oferece importante contextualização para os acontecimentos que se desenrolam desde que a Santa Sé anunciou em junho que havia suspendido Theodore McCarrick do Ministério Público. Algumas das contextualizações trazidas pelo livro já eram conhecidas, mas tinham sido esquecidas pela urgência de novas notícias. O livro também apresenta novas informações de fontes internas do Vaticano.

Il Giorno Del Giudizio (Ed. Piemme), de Andrea Tornielli e Gianni Valente (Foto: Commonweal /Reprodução)

Tornielli e Valente dão atenção considerável para a parte que mal havia sido tocada no caso do testemunho de Carlo Maria Viganò: o papel desempenhado pelo Papa João Paulo II e seu secretário pessoal, D. Stanisław Dziwisz, que foi nomeado arcebispo da Cracóvia algumas semanas após a morte de João Paulo II em 2005 como forma de recompensa por seu serviço ao Papa. (Sua renúncia foi aceita por Francisco em dezembro de 2016). "Don Stanisław" (para os conhecidos) teve grande influência nas mais importantes nomeações episcopais, incluindo McCarrick. Quando estava em Metuchen e depois em Newark, antes de ser nomeado cardeal, McCarrick foi capaz de captar uma enorme quantia de dinheiro para várias causas do Papa. Alguma parcela do dinheiro foi destinada, secretamente, ao movimento anticomunista polaco. D. Dziwisz não teria esquecido esses favores de angariação de fundos.

Tornielli e Valente também fornecem provas de que João Paulo II não estava tão doente durante a ascensão de McCarrick como o testemunho de Viganò sugere. As quatro promoções de McCarrick (Metuchen, Newark, Washington e finalmente ao Colégio Cardinalício) ocorreram durante o pontificado de João Paulo II, e a última em 2001, quando João Paulo II ainda estava bem o suficiente para realizar viagens internacionais complicadas. Somente naquele ano, viajou para a Armênia, o Cazaquistão, a Ucrânia, a Grécia, a Síria e para Malta. Durante o pontificado de João Paulo II, houve vários casos de prelados de alto escalão removidos por abusos sexuais: Francisco José Cox do movimento Schönstatt no Chile (transferido discretamente para a Alemanha em 2002); Juliusz Paetz, arcebispo de Poznan, Polônia (removido em 2002, num caso com similaridades impressionantes ao de McCarrick); e o cardeal Hans Hermann Groër de Viena em 1995.

Cox terá de voltar logo ao Chile para enfrentar a Justiça. O único castigo de Paetz foi sua aposentadoria forçada. Groër morreu em 2003. No seu funeral, o cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Colônia, Alemanha, (designado por João Paulo II), o descreveu como uma espécie de mártir que teria sofrido punição injusta, um depoimento que vai para a história como um dos momentos mais perturbadores no modo da Igreja lidar com a praga de abusos sexuais. (O cardeal Meisner morreu em 2017, um ano depois de coassinar as infames "dubia" contra o Papa Francisco. O secretário pessoal de Bento XVI, Georg Gänswein, entregou uma mensagem pessoal do "Papa emérito" no funeral de Meisner). Quando em 1998 os bispos austríacos (incluindo o cardeal Christoph Schönborn) se queixaram a Roma sobre a influência que o deplorável cardeal Groër ainda mantinha sobre a Cúria, o Secretário de estado do Vaticano, cardeal Sodano, os repreendeu em nome de João Paulo II.

O livro de Tornielli e Valente também fornece novos detalhes sobre a ascensão de McCarrick. Fontes do Vaticano disseram a eles que o cardeal John O'Connor de Nova York foi fortemente contra a ideia de João Paulo II recompensar McCarrick e a Diocese de Newark com uma parada durante sua visita papal aos Estados Unidos em 1995, uma vez que boatos sobre McCarrick já estavam circulando. Mas de acordo com Tornielli e Valente, Dziwisz foi capaz de bloquear essas objeções antes de chegarem ao Papa. Numa carta de outubro de 1999 para Gabriel Montalvo, que era então o núncio apostólico para os Estados Unidos, o cardeal O’Connor expressou suas preocupações sobre a possível promoção de McCarrick à arquidiocese de Washington D.C. por causa do que ele tinha ouvido falar sobre supostos assédios de McCarrick a seminaristas. A carta não teve efeito aparente: em novembro de 2000, McCarrick foi nomeado arcebispo da capital da nação por um João Paulo II ainda bastante capaz de tomar decisões sobre questões episcopais. Apenas algumas semanas mais tarde, em fevereiro de 2001, McCarrick também foi feito cardeal.

Roma está particularmente preocupada com o que pode acontecer no próximo conclave.

Tornielli e Valente relatam que foi em 2007, e não 2009 como alegado por Viganò, que o Papa Bento XVI emitiu suas "instruções" para McCarrick, que respondeu com uma carta ao Prefeito da Congregação para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Re. Em sua resposta, McCarrick se recusou a aceitar as instruções do Vaticano de que ele se mudasse para um monastério ou para uma casa de repouso; e teve a audácia de propor quatro alternativas: uma residência para padres aposentados, uma paróquia em Washington D.C., um apartamento no Vaticano (que ele pagaria por si mesmo), ou uma universidade católica em algum lugar nos Estados Unidos. A situação de McCarrick se tornou mais fácil quando o nuncio Pietro Sambi morreu inesperadamente em julho de 2011 e foi sucedido por Carlo Maria Viganò, que se mostrou menos ansioso para impor as instruções de Bento XVI a McCarrick.

Quando Francisco foi eleito Papa, Viganò rapidamente descobriu que ele não estava inteiramente de acordo com o novo pontificado. Outra fonte de Roma, um antigo diplomata que trabalhava com Viganò, disse a Tornielli e Valente que o núncio tinha tentado arranjar a nomeação de Robert Barron como arcebispo de Chicago. Barron foi reitor da University of St. Mary of the Lake, conhecida como Seminário Mundelein, e tinha sido designado pelo antigo arcebispo de Chicago, cardeal Francis George. Mas em setembro de 2014, logo após a renúncia de George ser aceita, o Papa Francisco nomeou Blase Cupich como novo arcebispo de Chicago. A mesma fonte disse a Tornielli e Valente que, ao contrário do que Viganò sugere em seu depoimento, Cupich estava realmente na lista de candidatos enviados para Roma (ele era terceiro na lista) e teve o apoio de outros bispos dos EUA.

Um ano depois, quando o Papa Francisco visitou os Estados Unidos, Viganò arranjou para o pontífice um encontro com Kim Davis, contrariando o conselho do arcebispo Kurtz, que foi presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. O livro fornece uma linha do tempo daquele dia e dos dias e semanas que seguiram, quando fica claro que Viganò havia criado uma emboscada para o Papa Francisco, bem como para a liderança da Conferência Episcopal americana. Alguns meses depois, Viganò, tendo feito 75 anos, teve de oferecer a sua demissão. O Papa Francisco aceitou rapidamente a oferta.

Hoje, o Vaticano e partes da Igreja Católica nos Estados Unidos parecem estar olhando um para o outro em descrença, e Il Giorno Del Giudizio fornece mais evidências deste estranhamento. Tornielli e Valente têm muitos anos de experiência cobrindo o Vaticano e a Igreja global (incluindo o Oriente e a China). O livro transmite a postura do Vaticano sobre o que está acontecendo do lado de cá do Atlântico. Através de Tornielli e Valente, ouvimos o que Roma tem a dizer sobre estes extraordinários últimos seis meses. O capítulo dedicado ao "cisma americano" é uma breve história do surpreendente rescaldo da publicação do depoimento de Viganò em 26 de agosto. Duas dúzias de bispos norte-americanos tomaram partido publicamente junto ao antigo diplomata do Vaticano que tentava forçar o Papa Francisco a renunciar. A maioria dos outros bispos ficou em silêncio, e a liderança da Conferência Episcopal nacional esperou semanas antes de sinalizar o apoio do Episcopado dos EUA ao Bispo de Roma. O que aconteceu na reunião da Conferência americana em Baltimore há duas semanas tem que ser visto neste contexto. Os autores escrevem sobre a "mutação genética" do catolicismo dos EUA que tem ocorrido na última década, como o enaltecimento neoconservador aos papas João Paulo II e Bento XVI tem dado lugar a uma rejeição tradicionalista do Papa atual. Roma está particularmente preocupada com o que pode acontecer no próximo conclave, dado que grupos conservadores neste país anunciaram sua intenção para reunir informações que poderiam ser usadas contra possíveis candidatos ao papado, a começar pelo Secretário de estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.

A maioria dos que encobriram McCarrick ou ignoraram avisos sobre ele já morreram ou se aposentaram. As informações apresentadas neste livro, juntamente com o que emerge da própria investigação do Vaticano, serão de utilidade para o tribunal da história, mas provavelmente nunca para um Tribunal de Justiça, seja secular ou eclesiástico. Mas Il Giorno Del Giudizio é definitivamente um post mortem da operação Viganò. Uma vez que a oposição eclesiástica radical ao Papa Francisco percebeu que sua tentativa de impeachment tinha falhado por uma suposta heresia de Amoris Laetitia, tentaram outro tipo de ataque: difamação. Ambas as manobras emergiram dos círculos conservadores dentro da Igreja dos EUA — uma minoria de bispos, padres e leigos católicos ativos na mídia. O que parece para muitos católicos americanos como uma simples busca pela verdade sobre McCarrick e os que o encobriram, Roma percebe como um esforço de influentes católicos dos EUA para depor o Papa Francisco, o culpando por coisas que aconteceram sob seus antecessores.

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