Bodas de arco-íris na caravana de migrantes

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21 Novembro 2018

Muitas famílias migrantes poderiam enfrentar a separação ao chegar nos Estados Unidos por não estarem legalmente unidas. Para evitar esse destino, sete casais que integram a caravana migrante contraíram matrimônio no último fim de semana, em Tijuana, em uma cerimônia improvisada. Seis delas são da comunidade LGBTQI.

A reportagem é de Alejandro Garcia, publicada por Plaza Pública, 20-11-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

— Ramo em um – disse o padre Diego Flores, vindo da Argentina, enquanto uma das noivas ameaçava lançar o ramo de flores comprado apenas uma hora antes -, ramo em dois – as mulheres atrás se impacientavam.

— Ramo em três.

As flores brancas passaram pelo padre, por uma pequena parede de jornalistas e as mãos de várias mulheres saltitantes se apressaram para pegá-las. Caiu no chão. Se empurravam e davam cotoveladas por elas.

Alguém, entre o turbilhão de pernas, esticou, triunfante, sua mão empunhando o ramo meio desfolhado.

— Assim nunca vou me casar - lamentou alguém, fingindo fazer beicinho.

— Eu me caso contigo, amiga.

E ambas se abraçaram.

No último sábado, 17-11-2018, a maior festa em Tijuana foi no Enclave Caracol, um espaço comunitário e ponto de reunião e apoio para migrantes. Em frente ao Museu de Cera, o Enclave começou a se encher de cores à tarde, perto das três horas, enquanto as noivas se arrumavam no segundo piso. Por ali havia uma bandeira de arco-íris, por ali um altar improvisado, com flores. Outros membros da comunidade LGBTIQ, que formam parte da caravana, se agitaram emocionados. O clima era ameno, mas o ar de novembro começava a calar. E apesar do frio, o vestido de gala era minissaia.


Edyn Solís terminando a decoração do Enclave Caracol para os casamentos. Foto: Simone Dalmasso | Plaza Pública

“Nós vamos casar porque assim teremos segurança de que, uma vez estando do outro lado (nos EUA), as autoridades não irão nos separar”, conta Isaac Gutiérrez.

Isaac, até o sábado, era o namorado de Helen Sánchez; ambos, pais de Shalom Gutiérrez Sánchez, de dois anos. O casal recém soube que Helen estava esperando um segundo bebê, que segundo os cálculos do pai, nascerá em julho.

“Somos uma família, sempre fomos, mas queremos ter a oportunidade de ter um respaldo legal para quando estejamos nos Estados Unidos”, continua Isaaca, com o cabelo penteado e já vestido de camisa e casaco. Seu sorriso é inquebrantável. Volta a olhar para dentro do Enclave, impaciente. “É que Helen está se arrumando. Eu quero vê-la”.

Porém o respaldo legal que Isaac e Helen, e os outros casais, esperavam ter obtido a partir de sábado, graças ao apoio da igreja Larger Fellowship, parece frágil. Ou melhor, quebradiço.

Lesli Takahashi, uma das reverendas que oficializou as bodas, explicou que a união que eles oferecem consistem em brindar uma união religiosa, através da sua igreja, que atua de forma independente. E esperam que as autoridades que receberão essas pessoas reconheçam o compromisso religioso. “Não é um documento legal”, esclarece, “mas é mais que algo simbólico; sabemos de casamentos que agora estão nos Estados Unidos somente com uma tornozeleira eletrônica”. É uma boda sem efeitos legais.


Recém-casados assistindo à cerimônia. Foto: Simone Dalmasso | Plaza Pública

O padre Diego Flores não deu declarações porque teme que sua congregação na Argentina se inteire e o rechace.

Mar Cárdenas, a organizadora das atividades, conta que as bodas foram quase uma coincidência. “Coincidiu nossa atividade social do mês com a visita da caravana”, aponta. “E quando se inteiraram que viriam vários reverendos conosco, nos propuseram a boda”. Então a equipe da Church of Larger Fellowship se mobilizou para planejar a cerimonia, comprar flores, um bolo, o mesmo Mark ficou encarregado de conseguir as alianças; os padres entrevistaram os casais sobre suas crenças religiosas e assim se formou a atividade.

Quando o pouco é uma grande esperança

Enquanto iniciavam os preparativos, um dos casais esperava inquieta frente ao Enclave. Adrián Eneuterí, de 29 anos, originário da Cidade do México, e Nati Vanegas, de 18, de San Pedro Sula, Honduras. Nati é transexual, veio de minissaia vermelha, salto alto e top negro; seu cabelo cobre metade do rosto e apenas deixa a mostra os seus lábios pintados de laranja fosforescente, o mesmo laranja que aparece suave nos lábios e queijo dos seus maridos.

Adrian viu Nati pela primeira vez na Cidade do México, mas não foi até que chegassem às praias de Tijuana, na semana retrasada, que se falaram pela primeira vez. “Gostei muito dela; me impactou, lhe pedi uma foto”, conta Adrian, tímido. “E assim começamos a conversar”. Nati, por sua vez sorri angustiada. Sua relação tinha menos de um mês.

O casal de mãos dadas

Adrian adiciona que não havia considerado migrar aos EUA. Lhe interessava, ainda mais, viajar para conhecer a experiência. “Mas depois que a vi...”.

Nati foi fortemente discriminada em Honduras, foi golpeada e agredida em muitas ocasiões. Sua família, inclusive, a expulsou de casa. “Já não és daqui”, lhes diziam. Foi então que, em início de outubro, decidiu sair de casa, sozinha: tornou-se uma das aproximadamente 80 pessoas da comunidade LGBTIQ que viajam com a caravana. É um grupo que pouco a pouco foi se formando, crescendo de cidade em cidade, confiando na importância de permanecer próximos, uma vez juntas e juntos, não se desgrudam. Nati, em San Pedro, trabalhava em um trailer de lanches e gostava de cortar a carne. Suas favoritas eram as estrangeiras e espera montar sua própria lanchonete de tacos nos Estados Unidos.

Depois de vários dias de conversas, comendo juntos, bailando, e de se inteirar das bodas que estava oferecendo a equipe da Church of Larger Fellowship, Nati pediu Adrian em casamento.

“Me emocionei”, admite ela, sorrindo. “Se vai ter casamento para minhas amigas, eu também quero me casar, por que não?”.

“Me surpreendi”, aponta Adrian e abraça a sua noiva. “Mas eu gostei da ideia”.

Os agora Eneuterí-Vanegas esperam cruzar a fronteira juntos logo e chegar até Houston, onde Nati tem tias e um avô que a aceitam.

E mais ou menos assim são os outros casais. Casais que se conheceram na viagem. Casais que nunca haviam tido uma relação com um tantinho de amor e atenção. Talvez um tantinho é o único que necessitam para jurar amor eterno diante os amigos e as amigas mais sinceras que tiveram em anos.

Os declaro esposa e esposa

O padre Flores estava vestido de azul. Camisa azul, cachecol azul e colarinho preto. Usava óculos. Seu cabelo parece ter esquecido de crescer, exceto na coroa, e parecia genuinamente comovido pela emoção dos pares que casou no sábado.

- Estamos aqui reunidos para sermos partícipes da união desses bonitos casais – começa o padre Flores e o povo atrás vibra. O som de mariachis tocando nos restaurantes ao lado competia com a emoção do público – Os sucessos das últimas semanas lhes fizeram viver experiências de união com seu par que com outras levariam anos. Vocês viajaram juntas e juntos nesse tempo, não somente na distância geográfica, mas também na vida.

Mais aplausos.

E assim avança o discurso do padre Flores, ocasionalmente interrompido pela emoção vizinha os das intervenções de Takahashi, ou dos noivos e das noivas.

— Prometo de amar todos os dias do ano – disse Julia e acariciando o cabelo da sua noiva, Sandy.

Julia é talvez a do estilo mais invejável na vestimenta: camisa xadrez e gravata borboleta. Julia e Sandy fizeram toda a viagem juntas, desde o terminal de São Pedro até Tijuana.


Rosa e Nancy, comprometendo-se uma com a outra pela eternidade. Foto: Simone Dalmasso | Plaza Pública

— Te juro fidelidade -, disse Erik, com seus olhos cheios de lágrimas enquanto o sol começa a se esconder e a luz dourada começa a perder força. Maritza, sua esposa transexual, vestida de branco, o vê com ternura.

Depois vieram as alianças, Mark volta a aparecer em cena. O padre Flores explica o seu significado: são o símbolo do pacto matrimonial, que simbolizam o amor que sempre pode ser renovado. E logo são abençoados. O público parece não suportar a emoção. Todas e todos aplaudem, se abraçam, sorriem e gritam.

— Doris e Erica – diz o padre – podem se beijar.

E como se ninguém os visse, e talvez confirmando que ninguém está as julgando, ambas se seguram o rosto e unem os lábios durante vários segundos. Se abraçam, como sem alento. O padre pede um minuto de silêncio para rezar. O silencia é já algo inalcançável a essas alturas. O barulho do público pode mais que as trombetas e tambores.

— Outro beijo, outro beijo! – grita o mesmo padre Flores e aplaude, com microfone em mãos e se coloca de lado para que os fotógrafos capturem o momento.

México é um dos cinco países na América Latina que permite o casamento igualitário, o matrimônio entre duas pessoas do mesmo sexo. Ainda que, somente parcialmente. São 15 dos 32 estados os que reconhecem essa união. Baja Califórnia, da qual Tijuana faz parte, é um deles, desde 7 de novembro de 2017.

— Os apresento como um novo matrimonio – disse o padre e Rixie e Alfred, tímidos, fazem uma reverência.

Mark entrega a Rixie, quase às escondidas, o ramo de flores, pois são de mostrar uma pétala branca causava um alvoroço caótico.

— Ramo em uma – disse o padre, e as pessoas atrás plantam bem os pés, empunham as mãos, curvam a coluna, cotovelos lado a lado – ramo em duas – então se faz quase silêncio. Começa a disputa – Ramo...

- Não seja mau-caráter! – grita uma menina morena, magra, com salto fino e sai correndo para trás. Uma amiga dela, a mau-caráter, agora vermelha de dar risada, arrancou a peruca e atirou para o lado. Todas riem, a menina careca ri, a falsa ri, até o padre Flores ri e pede para que lhe deixem tomar fôlego para retomar a contagem.

- Ramo em três!

Depois que todos os casais passaram, os documentos foram assinados e enquanto dentro do centro começaram a instalar os alto-falantes para a festa de casamento, o padre Flores pegou o microfone mais uma vez e subiu nas plataformas. Durante toda a tarde, por causa da urgência do assunto, ele leu os discursos e só mudou os nomes.

Mas não desta vez ."Eu admiro muito esses casais", disse ele, enxugando a testa. Eu os admiro por enfrentar preconceitos, por superar a violência e as negações ". O silêncio, surpreendentemente, retorna à Primeira Rua, ao lado da Avenida Francisco I. Madero. "O que eles acabaram de fazer é muito profético", continua ele. Eu deveria estar. Todos nós devemos enfrentar o ódio desta maneira, com a coragem que eles e eles demonstraram hoje. " O aplauso agora é solene.

Às seis e meia da tarde, terminando toda a papelada, começou a trovejar com o rebolado até o chão no Enclave Caracol.


Alexa Erazo, 28, segurando o buquê. Foto: Simone Dalmasso | Plaza Pública

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