Abuso Sexual. Falta de consenso no Sínodo sobre o assunto transmite mensagem errada, diz sobrevivente

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06 Novembro 2018

Denise Buchanan, sobrevivente de abuso sexual clerical e ativista defensora de outras vítimas, disse estar decepcionada com a forma em que a questão foi tratada durante o Sínodo dos Bispos do mês passado. Para ela, a falta de um consenso sobre o assunto está impedindo qualquer tipo de progresso.

A reportagem é de Elise Harris, publicada por Crux, 05-11-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

“Com o pedido de desculpa de alguns bispos pelos fracassos da Igreja e outros tentando minimizar o problema, o tratando como uma questão predominantemente ocidental, fica claro que os prelados não sabem o que fazer”, disse Buchanan.

Falando ao Crux por telefone de Los Angeles, a defensora disse que no sínodo dos bispos sobre os jovens, fé e discernimento vocacional “não houve acordo sobre muitas questões que estavam em sua agenda, particularmente o abuso por parte do clero”.

“Isso é muito revelador. Se você tem setores dentro do Vaticano que estão lutando entre si, como pode haver algum consenso ou uma forma de avançar sobre a questão dos abusos?", criticou Buchanan.

Em relação ao Papa Francisco, Buchanan disse que, em sua opinião, ele parece assumir várias posições, embora que de um modo um pouco confuso.

“Às vezes ele está realmente lutando para fazer a diferença e acabar logo com tudo isso. Mas, por outro lado, no final do sínodo da juventude parecia que não havia mais problema. É difícil entender exatamente qual é a posição dele”, acrescentou.

Membro fundadora e coordenadora global da organização Ending Clergy Abuse (ECA), em 2013, Buchanan escreveu o livro Sins of the Fathers (Os Pecados dos Padres, em tradução livre), detalhando sua experiência de ter sido estuprada e engravidada por um padre aos 17 anos e como ela eventualmente encontrou esperança após o trauma.

Por meio da ECA, ela trabalha em colaboração com sobreviventes de abuso, utilizando seu PhD em psico-neurologia e saúde integrada para ajudar vítimas de abuso sexual a seguirem suas vidas em paz.

Também atuando em colaboração com a organização está o sobrevivente chileno de abuso José Andrés Murillo, que foi vítima do agora ex-padre Fernando Karadima. Em maio, Murillo se encontrou com Francisco como parte dos contínuos esforços do Pontífice para “limpar” a Igreja no Chile, onde escândalos de abuso continuam a ser revelados quase que diariamente.

A organização recentemente promoveu o “All Survivors Day” (Dia de Todos os Sobreviventes, em tradução livre) em 3 de novembro, no qual cerca de 37 lugares ao redor do mundo, incluindo a Arquidiocese de Los Angeles, tocaram os sinos das igrejas exatamente às 3h da tarde, em uma demonstração de apoio e solidariedade às vítimas de abuso sexual.

Referindo-se a como os prelados da Ásia e da África no sínodo minimizaram a gravidade da questão dos abusos para seus contextos sociais e culturais, Buchanan disse que as evidências sugerem o contrário, já que sua organização foi contatada por vítimas de abusos clericais na África.

Buchanan disse que a ECA faz parte atualmente de uma investigação que começou no início deste ano sobre denúncias de abuso na África, atuando em parceria com jornalistas para descobrir as histórias.

"Estamos recebendo relatos em grande proporção", disse ela.

“Durante o sínodo dos jovens, alguns bispos da Ásia e da África disseram: 'Não há problema aqui'. Sabemos que há um enorme problema na África, mas que já está vindo a tona. Estamos recebendo histórias assustadoras”, continuou.

No momento, a ECA está se concentrando em apenas um país da África, pois admite que assim que uma história for revelada, outros virão a público. Ainda de acordo com a organização, não há uma ideia clara de quando a investigação terminará. Segundo ela, “basta que um país seja corajoso o suficiente e apresente um relatório, e então o resto ocorre naturalmente".

Parte do problema, disse Buchanan, é a transferência de padres abusadores, muitos dos quais são designados para os chamados "centros de tratamento" antes de serem designados de volta ao ministério.

Localizadas em países de todo o mundo, incluindo a África, esses centros oferecem ajuda, mas sem planos de tratamento claros, disse ela.

Embora ela não possa divulgar o número de vítimas africanas que se manifestaram até agora, Buchanan alude a proporção de vítimas que foram descobertas na Pensilvânia. “E isso é apenas um estado. Aqui nós estamos falando da África, onde há muitos países” (Ao todo, existem 54 estados independentes no continente africano).

Em termos da reação da Igreja à crise, Buchanan disse que “há muitas desculpas esfarrapadas, mas o que realmente precisamos é de justiça para as vítimas de abusos. É necessário processar os culpados e remover esses padres do ministério”.

Embora muitos bispos tenham tomado medidas para abordar a questão, publicando nomes de padres acusados ​​de abuso sexual em suas dioceses, segundo a defensora das vítimas, devem ser tomadas medidas para intervir sobre o abuso antes do ato sexual, começando com reformas estruturais internas e investigações externas.

Buchanan enfatizou a esperança de progresso na reunião que acontecerá entre os dias 21 e 24 de fevereiro do ano que vem, em que o Papa Francisco convocou os presidentes de todas as conferências dos bispos para tratar da questão dos abusos.

“Eu e outros representantes da ECA estaremos presentes em Roma na hora da reunião, falando e apresentando nossas recomendações. Isso tem que acabar”, disse Buchanan.

“Podemos trabalhar juntos para conseguir um bom resultado. Mas pra isso eles precisam estar dispostos a ver nossa contribuição pelo menos como confiável”, disse ela.

“A principal mensagem a ser transmitida é realmente no sentido de dar passos concretos para que nenhuma criança sofra desse mal. É um recado muito simples", continuou.

“Se a Igreja é um lugar onde você não pode se sentir seguro, então a humanidade está praticamente perdida. Nosso objetivo é reverter esse quadro”, acrescentou Buchanan.

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