"Este pobre clamou, e o Senhor o ouviu"

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06 Novembro 2018

"Povertate è nulla avere e nulla cosa poi volere, / et omne cosa possedere en spirito de libertate." (Pobreza é nada ter e nada assim querer/ e possuir todas as coisas em espírito e liberdade, trad. livre). Muitos vão reconhecer nesta declaração tão radical, a voz de Jacopone de Lodi em sua Laude LX (v. 60-61), que ecoava o espírito de seu mestre ideal Francisco de Assis. O tema da pobreza é capital na espiritualidade bíblica: apenas para evocar um dado estatístico significativo, em uma linguagem pobre como o hebraico das Escrituras (utiliza um vocabulário de apenas 5750 palavras), para delinear as várias faces da pobreza, são usados sete termos diferentes.

O artigo é de Gianfranco Ravasi, publicado por Vita Pastorale, 11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nós agora, para ilustrar essa categoria que é social e religiosa, física e espiritual, recorreremos simbolicamente a duas sentenças dos dois Testamentos. A primeira é um versículo, o 7, do Salmo 34 (33) e é também o lema da Segunda Jornada Mundial dos Pobres criada por Francisco: "Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu." O vocábulo hebraico usado é significativo: 'ani está relacionado com a outra palavra-chave para designar a pobreza bíblica, às vezes adotada mesmo em nossa catequese no plural, ou seja, 'anawim. Literalmente esses dois termos indicam um "curvar-se, estar curvado"; é uma representação incisiva da duplicidade da pobreza. O miserável está socialmente oprimido, esmagado pela prepotência dos outros, humilhado e curvados sob o peso de sua indigência. Mas o pobre bíblico é também o humilde que se curva diante de Deus, reconhecendo seu senhorio na história, sua lei e vontade. No Salmo 34, um texto alfabético, destinado a favorecer a aprendizagem nmemônica, estamos na presença da confissão de fé de um desses `anawim do Senhor.

Eles consideram essa oração quase um seu próprio hino. Não é à toa que o termo se repete também no v. 3 ("os mansos o ouvirão e se alegrarão"), e se recorre a uma pequena constelação de sinônimos que revelam a dimensão interior profunda da pobreza bíblica: são aqueles que celebram no canto o Senhor, o temem (ou seja, acreditam nele), o buscam, o contemplam, refugiam-se sob a sua proteção, estão longe do mal, fazem o bem, perseguem a paz, são os "justos" por excelência, os "servos" dedicados ao seu Deus.

Eles sabem que mesmo na provação não são abandonados por aquele Senhor que sempre tem o ouvido atento ao seu clamor, porque "perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito" e apesar das "muitas aflições" que os afligem, Deus "lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um deles se quebra." (v. 18-21). Precisamente essas referências a dificuldades concretas nos permitem ampliar nosso olhar para todo o Antigo Testamento, quando grandes setores da população viviam em condições de desconforto social.

A mesma lei bíblica preocupa-se, de fato, em proteger os pobres, evitando o assédio moral e as opressões: basta pensar, por exemplo, no ano jubilar que, com o perdão das dívidas e a devolução das terras aos proprietários originais, tentava reconduzir Israel para uma espécie de equalização econômica (Levítico 25,8-17). O juiz era advertido "Não perverterás o direito do teu pobre na sua demanda." (Êxodo 23: 6). Mas a realidade logo revelava o seu lado escuro, ao ponto de que na mesma legislação era necessário apelar à suprema cassação divina: o Senhor, de fato, era considerado como o go'el, o "defensor", o "guardião" do indigente, da viúva e do órfão pisoteados e ofendidos (Êxodo 22.21-26, Salmo 68.6).

Nessa situação de desequilíbrios sociais elevou-se bem alta a voz dos profetas, os bravos guardiões da justiça: seria suficiente apenas ler o livro do profeta Amós para descobrir também o desprezo com que este ex-camponês denunciava as injustiças perpetradas pelas classes superiores contra os miseráveis que muitas vezes, por causa das dívidas, eram forçados a se vender como escravos a preços irrisórios. Mas mesmo um profeta de origens aristocráticas como Isaías não hesitará em lançar ataques veementes contra uma série de crimes perpetrados contra os pobres. O próprio culto é hipocrisia e farsa, se não for acompanhado pela justiça.

Nesse ponto, vamos fazer ressoar outra voz, a do Cristo no Sermão da Montanha, no famoso lançamento das Bem-aventuranças: "Bem-aventurados os pobres em espírito" (Mateus 5.3). É conhecida a versão de Lucas: "Bem-aventurados vós, pobres!" (6,20) com uma formulação mais direta, destinada a alcançar os pobres que eram a companhia constante de Jesus Na realidade, as duas redações coincidem em expressar a duplicidade social e religiosa dos 'awawim.

O Jesus de Mateus não quer sugerir um vago distanciamento, mesmo continuando a possuir tudo: basta lembrar a história do jovem rico que não consegue abandonar o status de luxo em que vive para seguir Jesus É, no entanto, uma escolha que está enraizada na profundidade da consciência e se ramifica em tudo o ser e o agir.

É por isso que Cristo conhece a humilhação da pobreza e vai ao seu encontro com sua ajuda os mais marginalizados da sociedade, convidando o rico não um pauperismo retórico, mas a derramar os seus bens sobre aqueles que levam uma vida difícil. O mesmo acontecerá com a Igreja que, como afirma São Tiago em sua Carta, deve mostrar a eficácia da fé, apoiando o pobre e denunciando o escândalo das riquezas excessivas e injustas. "Uma religião pura e imaculada diante do nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas aflições" (1:27).

O próprio Cristo "que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que por meio de sua pobreza vocês se tornassem ricos." (2Coríntios 8: 9). A pobreza torna-se, então, uma expressão de humildade e de adesão às escolhas de Deus: é o que é dito de forma deslumbrante na canção de Maria, o Magnificat (Lc 1,46-55), um hino típico dos `anawim cristãos.

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