Vigiar e punir. O laboratório social da China em Xinjiang

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06 Novembro 2018

Na região noroeste da China do Xinjiang vive uma minoria Uigures, uma etnia muçulmana turca.

Atualmente, os uigures na região são cerca de 11 milhões. Nos últimos anos, Pequim transformou aquele território, antiga passagem de caravanas da Rota da Seda, em um imenso laboratório social que - de acordo com alguns estudiosos – já descambou para uma experiência totalitária pura e simples.

A reportagem é de Simone Pierannino, publicada por Il Manifesto, 02-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

A posição de Xinjiang determina sua história: como defendia Fernand Braudel, "não há problema social que não deva ser inserido em seu quadro geográfico". Analogamente o Xinjiang, "em uma ótica não sinocêntrica, tem um caráter dominante", ditada pelo papel de "canal", que sempre desempenhou "um lugar de trânsito, intermediário ideal e inevitável entre as diferentes culturas e povos", como escreve Alessandro Rippa em Cuore dell’Eurasia, il Xinjiang dalla preistoria al 1949 (Coração da Eurásia, Xinjiang desde a pré-história até 1949, Mimesis, 2015).

A região, não por acaso, é a mais vigiada do país; em todas as partes da cidade há delegacias de polícia: câmeras em todos os lugares, território militarizado e às vezes fechado para o exterior.

Além de uma série de medidas oficiais contra a etnia Uigure, também existe uma operação de "caráter educativo", de acordo com um anúncio feito pelo Partido Comunista: pelo menos um milhão de chineses de etnia Han, a majoritária, foram enviados ao Xinjiang dentro de um programa chamado United as One Family.

A sua tarefa é tornar-se "parente" de uma família do Xinjiang, instalar-se em sua casa e tornar-se um cidadão-policial, uma tarefa é essencial não só para monitorar, mas também para condenar. Um milhão de funcionários públicos, de grandes empresas do estado às agências de notícias estatais, estão controlando e educando para uma cultura patriótica, em mandarim e com sentimento de devoção a Xi Jinping, uma população inteira, estabelecendo por fim um juízo. Os uigures considerados suspeitos de terrorismo são enviados para campos de reeducação.

(Mapa: Javier Zarracina/Vox)

A primeira campanha foi lançada em 2014, quando mais de 200 mil membros do Partido Comunista foram enviados para aldeias do Xinjiang dentro do plano Visiting the People, Benefit the People, and Bring Toghter the Hearts of the People. Em 2016 houve uma segunda onda de pelo menos 110 mil funcionários estaduais. Em 2017, uma terceira onda, para um total de cerca de um milhão de pessoas.

Com a tecnologia, a polícia e o exército, Pequim exerce um controle capilar sobre a região; com as pessoas, exerce um controle invasivo, extenuante e interminável. E finalmente condena os culpados aos campos de reeducação.

Para Darren Byler que entrevistou alguns dessas chineses que decidiram assumir o papel de carrasco "educador", seria uma verdadeira operação de natureza totalitária: "A tirania que está sendo realizada no noroeste da China - escreve o pesquisador da Universidade de Washington e especialista sobre o Xinjiang no site Chinafile – coloca grupos de cidadãos chineses uns contra os outros em um processo totalitário que procura dominar todos os aspectos da vida, (...) produzindo uma epidemia de isolamento e solidão, enquanto famílias, amigos e comunidades são separados. Quando novos níveis de não-liberdade são introduzidos, o projeto produz novos padrões do que é considerado normal e banal".

As pessoas com as quais o pesquisador falou, inclusive não parecem questionar-se sobre a própria função, justificando suas ações com palavras que evocam épocas sinistras:

"Eu obedeço a ordens e faço o meu trabalho."

O trabalho é o seguinte: observar as famílias uigures e certificar-se de que elas falem mandarim, que tenham um pôster de Xi na casa e que não digam nem façam coisas suspeitas, especialmente com referência à religião.

Essa pesada operação de controle e repressão surge porque Pequim acredita que em Xinjiang há o risco de "terrorismo", recentemente justificado, de acordo com o PCC, pelo número de uigures sinalizados na Síria (números sobre os quais há muitas dúvidas: de acordo com algumas pesquisas, na verdade seriam poucas centenas de pessoas). Xinjiang é uma região chave para a China: é a mais extensa, é faz limite com oito estados, é uma fronteira vital para Pequim. E será ainda mais nos anos vindouros, como ponto de cruzamento fundamental da Rota da Seda. Pequim não quer apenas apaziguar a região, mas também enchê-la com o espírito empreendedor Han.

Como recorda o guru e investidor no mundo da tecnologia chinesa Kai Fu Lee, os empresários chineses desenvolveram uma espécie de "mentalidade" - amadurecida nas condições específicas do mercado chinês - que agora o governo vê como necessária para o seu desenvolvimento. Também conta o quanto há na região: Alessandro Rippa nos lembra de fato que "na zona de Taklamakan existem jazidas de petróleo, gás natural, carvão, ferro e minerais que sustentam o desenvolvimento da China." Foi na zona desértica de Lop Nor nesta região, aliás, que Pequim realizou seus testes nucleares e bacteriológicos até 1996.

O despovoamento da região de seu componente étnico uigure, representa, portanto, um leque de diferentes exigências por parte da liderança do partido Comunista.

Já em 2008, em Urumqi, podia-se antever o que teria acontecido. Em áreas da cidade povoada por uigures (uma minoria na capital) abundavam os mercados e as mesquitas, contrastadas pelas partes 'chinesas' da cidade feitas de hipermercados, grandes prédios, setores organizados. No Parque do Povo, falando com alguns uigures, podia-se registrar a proximidade de formas de repressão de qualquer família uigure de Urumqi.

O período era o anterior às Olimpíadas de Pequim de 2008. Houve alguns atentados, os militares estavam vigiando as ruas. Com a presidência de Hu Jintao (2002-2012) Pequim havia demonstrado sua capacidade de usar a militarização do território e, se necessário, o punho de ferro. Em julho de 2009, em Xinjiang explodiu uma espécie de insurreição: alguns grupos de Uigures começaram a atacar com violência os Han; o exército e a polícia responderam. Centenas de mortes nas ruas, outras centenas por sentenças de morte.

Em 2009 a área foi selada: era impossível entrar em contato com qualquer pessoa e relatar o que estava acontecendo. Naquele tempo em Pequim os Uigures preferiam não falar, enquanto os Han estavam certos do que estava acontecendo: os Uigures, segundo eles, estavam caçando o "chinês". A razão para desencadear os confrontos foram as repressões a uma manifestação pedindo uma verdadeira investigação sobre a morte de dois Uigures mortos em Guangdong.

Com a repressão militar, no entanto, Pequim - em geral - havia escolhido a estratégia que até então parecia ser a melhor: na época, os chineses acreditavam que pagando, poderia se conseguir qualquer coisa.

Somente em 2017, Pequim investiu mais de 80 bilhões de dólares na região, mais de 19,6% em relação ao ano anterior. Em 2012 - entretanto - Xi Jinping estava no poder e vários fatores influíram por uma solução mais muscular (em 2014 houve novos confrontos que realmente acabaram por legitimar as recentes políticas de Pequim na região).

A política de Xi Jinping também pôde contar com novidades recentes na China: Big Data e inteligência artificial se tornaram uma extraordinária arma de controle, prevenção e eventualmente repressão.

Human Rights Watch já havia denunciado o programa de coleta de dados - incluindo o DNA – em ato na região autônoma chinesa orientado para a experimentação de modelos preditivos propriamente ditos: "Pela primeira vez, escrevia HRW, podemos demonstrar o uso, pelo governo chinês, de Big Data e de uma predicting policy que não só viola claramente os direitos à privacidade, mas autoriza os funcionários públicos a fazer detenções arbitrárias”.

Diante dessas operações, "as pessoas em Xinjiang não podem opor resistência ou contrariar a crescente invasão de suas vidas. Muitos não sabem nada sobre esse programa e não sabem como funciona”. Para a organização, o recurso a tecnologias mais modernas permitiu que as autoridades implementassem controles cada vez mais profundos.

Um dos "cérebros" por trás do "experimento de Xinjiang" é, sem dúvida, o atual secretário do partido na região. Trata-se Chen Quanguo, nascido em 1955, que chegou a Xinjiang depois de ser secretário no Tibete. Deve-se a ele – conforme relatos - tanto a experimentação de novas formas de controle social, quanto o aumento de prisioneiros nos campos de trabalho. É certamente uma sua invenção o posicionamento no território das convenience police station, delegacias de polícia colocadas em todos os lugares em condições de controlar de forma absoluta as cidades. Foi sob a liderança de Chen que a polícia teve um pico no recrutamento e de compra de material tecnológico para tornar o controle social cada vez mais sofisticado. Em apenas um ano, Xinjiang fez anúncios para mais de 90.866 postos ligados à segurança (doze vezes o número de 2009).

Quanto aos campos de reeducação, o próprio Partido Comunista reconheceu sua existência. Em recente entrevista à Xinhua, o governador da região admite a existência, mas para o PCC nesses lugares tudo é maravilhoso; os "hóspedes" estudariam e aprenderiam a se desvincular do feroz abraço do terrorismo. Segundo outros, os fatos são bem diferentes. Jerome A. Cohen, um dos maiores especialistas mundiais sobre o sistema legal chinês, definiu os campos de "o maior programa de detenção em massa da China em 60 anos". Em seu site, ele escreveu: "Talvez a última vez em que tantas pessoas tenham sido detidas fora de um processo formal tenha sido na campanha anti-direita de 1957-59". Pouco importa, escreve Cohen, "se o que é feito deveria ser interpretado como uma violação dos direitos processuais nos termos do artigo 37 da Constituição, bem como das várias liberdades sancionadas pela Constituição."

O caso dos campos de reeducação e de fichamento em massa surgiu em julho de 2018, graças ao testemunho de uma chinesa da etnia cazaque, Sayragul Sauytbay, que fugiu do Xinjiang para o Cazaquistão. De acordo com seu testemunho, “É chamado de campo político, ela relatou, mas, na realidade, era uma prisão nas montanhas”.

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