O papa começa a virar à direita. Artigo de Marco Marzano

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03 Novembro 2018

“O papado de Francisco, que parecia anunciar uma revolução, vai agora em sentido oposto. As motivações para essa mudança de direção residem na exigência, sentida por Bergoglio e por toda a classe dominante eclesial, de não deixar uma ovelhinha sequer sair do redil e de acompanhar o novo clima político e social na Europa.”

A opinião é do sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bergamo, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 01-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As conclusões do Sínodo sobre os jovens confirmam que o papa está virando à direita. No caso do Sínodo, a própria escolha do tema (inócuo em comparação com o tema potencialmente explosivo dos ministérios) tinha levado a imaginar um encontro desprovido dos ásperos conflitos que se desencadearam nos dois anteriores sobre a família. E assim foi.

Como escreveu um implacável crítico de Bergoglio, Sandro Magister, o Sínodo foi “o mais pacífico de todos. Até mesmo o assunto mais explosivo – referente ao julgamento sobre a homossexualidade – foi praticamente neutralizado”.

Nenhum dos participantes pediu uma revisão da condenação católica à homossexualidade, ainda interpretada, à luz do Catecismo, como sintoma de uma perversão da natureza. Aos homossexuais, a Igreja proporá apenas “percursos de acompanhamento na fé”. E, sobre o papel das mulheres na Igreja, os Padres sinodais se limitaram a reiterar uma genérica referência à importância de uma maior participação feminina nos processos decisórios “no respeito ao papel do ministério ordenado”, isto é, à subordinação completa aos padres.

É bastante plausível que uma orientação tão prudente tenha sido inspirada pelo próprio pontífice. O resultado mais importante de Francisco consiste em ter conseguido se passar por inovador, abstendo-se, porém, de introduzir mudanças na estrutura e na doutrina católica. A Igreja permaneceu imóvel, mas dando a impressão de que uma grande mudança havia começado.

Se ele certamente não foi um reformador, Francisco se revelou como um “federador”, um líder de paz capaz de pôr fim à longa temporada dos conflitos intraeclesiais que começou nos anos 1960.

Do lado esquerdista, Francisco está repleto de consensos, ídolo de grande parte da esquerda não católica e ex-marxista. O que empolgou os católicos progressistas, junto com algumas escolhas “populistas” (os sapatos surrados, a maleta carregada na mão, a residência em Santa Marta...), foram os discursos papais sobre os pobres e sobre as distorções do capitalismo, mas também sobre a sinodalidade (sem efeitos práticos em um dos papados mais centralizadores da história), ou, melhor, sobre a necessidade de uma ação colegial da classe dominante eclesial. Gestos como a canonização de Romero ou a retomada de um diálogo com aquilo que resta da teologia da libertação fizeram o resto.

A simpatia de tantos “esquerdistas” pelo papa (embora provavelmente não correspondida!) correu o risco de produzir, dentro do corpo eclesial, uma fratura com os elementos mais conservadores. Para reduzir o risco de divisões internas, o papa argentino realizou aquilo que nem mesmo Ratzinger tinha conseguido fazer, isto é, incluir os principais inimigos dos documentos do Concílio Vaticano II, os seguidores de Dom Lefebvre, dos quais reconheceu a validade das absolvições concedidas e dos casamentos celebrados.

Francisco, para agraciar a direita interna, também se demonstrou atento aos “valores inegociáveis”. O seu discurso sobre o aborto equiparado ao aluguel de um assassino e ao homicídio vai nessa direção. Assim como a definição da homossexualidade como uma doença tratável ou a insistência na necessidade de impedir que os homossexuais entrem nos seminários.

O papado de Francisco, que parecia anunciar uma revolução, vai agora em sentido oposto. As motivações para essa mudança de direção residem na exigência, sentida por Bergoglio e por toda a classe dominante eclesial, de não deixar uma ovelhinha sequer sair do redil e de acompanhar o novo clima político e social na Europa, com populismos e nacionalismos certamente não bem-dispostos à promoção dos direitos civis, das liberdades e da igualdade.

Grande parte do catolicismo emergente, o africano e o asiático, segue há muito tempo a mesma corrente reacionária. Quem sabe não virá justamente de lá o sucessor do papa argentino.

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