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30 Outubro 2018

"O Brasil encontra-se à beira do abismo e pede socorro à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No momento, a CNBB é a única Entidade que - se quiser - tem condições de reverter essa situação de extrema gravidade e periculosidade, evitando que o país caia no abismo", escreve Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e professor aposentado de Filosofia da UFG.

Eis o artigo. 

O Brasil encontra-se à beira do abismo e pede socorro à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No momento, a CNBB é a única Entidade que - se quiser - tem condições de reverter essa situação de extrema gravidade e periculosidade, evitando que o país caia no abismo.

Basta que a presidência da CNBB (Dom Sérgio - presidente, Dom Murilo - vice-presidente e Dom Leonardo - secretário-geral), num gesto profético, tome com urgência as seguintes atitudes:

convoque a imprensa e os outros meios de comunicação;

  • dê uma entrevista coletiva a ser divulgada nos jornais, nas redes de rádio e televisão e em todas as redes sociais do Brasil;
  • anuncie o Evangelho da Paz de Jesus de Nazaré;
  • proclame, alto e bom som, que o projeto político do candidato Jair Bolsonaro - por ser um projeto que defende a violência, o porte de armas, a tortura, a pena de morte e outras barbaridades, inclusive com uma vulgaridade verbal que dá nojo - é total e frontalmente contrário ao Evangelho da Paz de Jesus de Nazaré;
  • comunique, com todas as letras, que - pelas razões acima expostas - nenhum cristão católico ou cristã católica deve votar no candidato a presidente, Jair Bolsonaro;
  • declare, por fim, que os cristãos católicos e cristãs católicas que votarem no candidato Jair Bolsonaro, estarão impedidos/as de participar da Ceia do Senhor, que é comunhão de amor entre irmãos e irmãs.

Até o presente, muitos cristãos e cristãs de nossa Igreja Católica estão perplexos/as, decepcionados/as e indignados/as com o silêncio da presidência da CNBB. Esse silêncio é um contratestemunho que escandaliza o Povo de Deus, é um pecado de omissão, é uma traição do Evangelho da Paz de Jesus de Nazaré. Com esse comportamento, a presidência da CNBB torna-se cúmplice e responsável por tudo o que poderá acontecer no Brasil depois do dia 28 de outubro.

A Nota Conjunta “Repúdio a toda manifestação de ódio, violência, intolerância, preconceito e desprezo dos direitos humanos”, do dia 19 deste mês, assinada por Dom Leonardo (pela CNBB), Cláudio Pacheco (pela OAB) e por representantes de mais cinco Entidades é tímida, genérica e inócua. É uma Nota que diz tudo e, ao mesmo tempo, não diz nada. É uma Nota de quem olha a realidade sem sair de cima do muro.

Dom André de Witte, bispo de Rui Barbosa (BA) e presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), depois de afirmar que “a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil representaria um perigo real para o país”, afirma: “Numerosos são os bispos que têm medo de falar francamente. Falta uma mensagem imediata e clara. O povo se ressente desta falta”.

Diz ainda: “Bolsonaro tem um discurso racista, prega a discriminação contra as populações negras, contra as mulheres, quer suprimir a demarcação das terras indígenas na Amazônia”. “Sua atitude - continua Dom André - é perigosa: ele prega a violência armada, afirmando que bandido bom é bandido morto... Ele quer mais repressão e até recompensar os policiais que saem atirando nos delinquentes. Ele quer mais prisões e menos recursos para a educação. Ele quer reforçar a segurança sem analisar os problemas sociais que são, em grande parte, a raiz da insegurança”. Termina, dizendo: “Espero, antes que seja tarde, que toda a sociedade acorde face ao grande perigo que se anuncia!”.

Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, declara: “A vitória de Bolsonaro pode representar um perigo muito grande não apenas para o povo brasileiro, mas para o continente”. “O Bolsonaro - continua Adolfo Perez Esquivel - vai causar muito estrago ao Brasil porque voltam a surgir o que podem ser as consequências dos governos autoritários, com menos direitos cidadãos, em nome da segurança. Esperamos que o povo brasileiro tome consciência; do contrário, vai haver um obscurantismo e um estrago muito forte. A democracia é uma construção coletiva e é sempre passível de aperfeiçoamentos”.

Conclui dizendo: “A Igreja Católica deve levantar sua voz. Não acredito que a Igreja não se mete na política. A Igreja sempre fez política, da boa e da outra. A Igreja precisa ter uma presença ativa. Tem que estar presente. E não ficar de um lado, tangencial aos problemas da vida do povo do Brasil e da América Latina. E por isso é importante reviver Medellín, Puebla e Aparecida. Devemos retornar às fontes e ter uma presença junto aos povos”.

Dom Sérgio, Dom Murilo e Dom Leonardo - que respectivamente prestam o serviço de presidente, vice-presidente e secretário-geral da CNBB - como irmão e confiando na sensibilidade humana e cristã de vocês, suplico: em nome do Evangelho da Paz de Jesus de Nazaré (não de um partido político), atendam ao pedido de socorro do Brasil; não tenham medo de desagradar, não sejam covardes, não coloquem a “diplomacia” no lugar da “profecia”. Vocês sabem muito bem que - no 2º turno das eleições presidenciais - não se trata de uma questão político-partidária, mas de uma questão de projeto de vida ou projeto de morte.

O tempo urge! Não dá mais para esperar! Sejam profetas de Jesus de Nazaré! O Brasil exige isso de vocês!

Que loucura! Que irresponsabilidade!

É isso que o Brasil quer?!

A Igreja pode ficar calada diante desse absurdo?!

Em tempo: Dia 24 deste mês, a CNBB publicou a Nota “Por ocasião do segundo turno das eleições de 2018”. A Nota reafirma valores e condena antivalores (o que é positivo), mas não “escuta” e não “interpreta” os sinais dos tempos à luz do Evangelho. Os sinais dos tempos são fatos ou acontecimentos históricos concretos que têm nome, data e lugar (por exemplo, os projetos políticos dos candidatos a presidente em 2018, as eleições em 2018 e outros). A “escuta” e “interpretação” dos sinais dos tempos (tão recomendadas pelo Concílio Vaticano II) leva a Igreja e a todos/as nós a fazer “opções”, a tomar “atitudes” e a realizar “ações” (ou “atos”) situadas no tempo e no espaço.

Nota de IHU On-Line: O texto foi escrito antes da realização do segundo turno das eleições. 

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