Método Ver-Julgar-Agir para o Sínodo dos Jovens

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23 Outubro 2018

A forma como o grupo "Igreja dos Pobres" do Concílio Vaticano II aplicou o método “ver-julgar-agir” do Cardeal Joseph Cardijn em suas próprias vidas pode fornecer um modelo para os participantes do Sínodo deste ano.

O comentário é de Stefan Gigacz, pesquisador do Australian Cardijn Institute, na Austrália, pulicado por La Croix International, 22-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

“Doze bispos se reuniram com o cardeal Pierre-Marie Gerlier para o primeiro encontro”, diz um relatório sobre os grupos de trabalho no Concílio Vaticano II (1962-1965) que tomou como lema: “Jesus Cristo, a Igreja e os Pobres”.

“Tais prelados revisaram suas vidas e pensamentos, bem como os da Igreja, sobre as questões levantadas pelos pobres e trabalhadores, tratadas radicalmente por Jesus de Nazaré - o Carpinteiro”, continua o relatório.

Lembrados pelo “Pacto das Catacumbas” que adotaram posteriormente, esses bispos queriam garantir que o Concílio enfrentasse as questões “angustiantes” da pobreza, da classe trabalhadora e do desenvolvimento mundial.

Tendo como relatores o bispo Charles-Marie Himmer de Tournai, na Bélgica, e o bispo George Hakim da Galileia (mais tarde patriarca Maximos V), o grupo se reuniu pela primeira vez no dia 26 de outubro de 1962 em Roma. O cardeal Pierre-Marie Gerlier, de Lyon, era o presidente do grupo.

Inspirados pela frase do Papa João XXIII, “a Igreja dos Pobres”, os membros viam a si mesmos como agentes por “extensão” da encíclica social de João XXIII, lançada em 1961, Mater et Magistra (Mãe e Mestra), seguindo o “ver-julgar-agir”, método pioneiro e popularizado por Joseph Cardijn.

Uma vez que muitos membros do grupo da “Igreja dos Pobres” (como ficou conhecido) já haviam sido assistentes religiosos da Juventude Operária Católica de Cardijn e outros movimentos da Ação Católica, era natural que eles adotassem esse método ao fazer sua própria “revisão de vida".

Em suas reuniões, eles começaram compartilhando as ações pessoais que haviam tomado ou das quais estavam envolvidos.

Em um exemplo notável, o bispo Manuel Larrain, de Talca, no Chile, co-fundador da Conferência Episcopal Latino-Americana, “vendeu o diamante o crucifixo que carregava no peito para bancar uma escola vocacional”.

Da mesma forma, o arcebispo colombiano Tulio Botero Salazar, de Medellín, Colômbia, “deixou seu palácio episcopal para viver numa residência mais humilde”. Ele disse que foi inspirado a fazê-lo pelo padre Riccardo Lombardi.

Outro bispo não identificado de uma nação em desenvolvimento queria “se sentir como um morador de rua”. Se sentindo incapaz de fazê-lo em sua diocese, desembarcou em Gênova (norte da Itália), onde acompanhado por um irmão religioso, vagou pelas ruas pedindo comida.

Em outro patamar, o bispo brasileiro Eugênio Sales, de Natal, “parou a construção de uma catedral para primeiro construir uma residência para os trabalhadores. Além disso, organizou uma série de reformas agrárias e sociais, sendo sua Igreja um exemplo de compartilhamento”.

Enquanto isso, em sua diocese industrial e de mineração na Bélgica, o bispo Himmer enviou mais sacerdotes para trabalhar como assistentes para os movimentos de trabalhadores, enquanto Hakim lançou cooperativas habitacionais para trabalhadores árabes, muçulmanos e cristãos. Ele também abençoou a fundação de Paul Gauthier dos Companheiros de Jesus o Carpinteiro.

Nem todos os exemplos citados em seu relatório necessariamente vieram de membros do grupo, embora muitos certamente o fizessem. Mas o que chama a atenção é a maneira como eles procuraram basear sua reflexão na experiência pessoal - os eventos que viveram e as ações que haviam tomado.

Eles continuaram a fazer isso ao longo de todo o Concílio, se desafiando e encorajando mutuamente a levar adiante suas ações, como se mudar para lugares mais humildes, colocar seus palácios episcopais à disposição dos pobres, entre outras medidas concretas.

Até mesmo o próprio Papa Paulo VI provavelmente se inspirou em suas ações ao renunciar à sua tiara papal, que por sua vez motivou um grupo de freiras americanas a vender seus anéis de ouro para arrecadar 20 mil dólares (cerca de 73 mil reais) para os pobres.

Eles continuaram nesse sentido após o Vaticano II. Os bispos latino-americanos, por sua vez, adotaram o “ver-julgar-agir” em sua famosa conferência de 1968 em Medellín, na Colômbia.

De fato, foi em Medellín que os bispos usaram pela primeira vez a expressão “nova evangelização” para caracterizar essa abordagem, mais tarde encarnada por Enrique Angelelli e São Oscar Romero.

Pensei em tudo isso depois de saber que o Sínodo sobre os Jovens também está seguindo o método Cardijn de “ver-julgar-agir” em suas deliberações. “Reconhecer, interpretar e escolher caminhos pastorais” é a adaptação do método feita pelo Sínodo, conforme registrado no Instrumentum Laboris.

De fato, há muita coisa que teria agradado a Cardijn no método de trabalho do Sínodo, particularmente sua abordagem indutiva de começar “ouvindo” a experiência dos jovens.

Sua ênfase na vocação, acompanhamento e uma perspectiva holística ou integral, bem como sua preocupação com o “tecido” da vida cotidiana, também tem muito em comum com a abordagem do fundador da Juventude Operária Católica.

No entanto, há algo faltando na maneira como o Sínodo está aplicando o método “ver-julgar-agir”?

Aqui, acho relevante observar como o grupo “Igreja dos Pobres” procurou aplicar o método em suas próprias vidas. Eles não começaram com uma análise sociológica da situação de pobreza no mundo, mas “revisando suas próprias vidas e pensamentos”.

Simplificando, eles aplicaram o “ver-julgar-agir” em suas próprias vidas como clero, assim como haviam feito anteriormente com equipes de jovens trabalhadores, jovens agricultores e estudantes em suas paróquias ao redor do mundo.

Esse foi o contexto no qual eles procuraram estender sua aplicação institucional à Igreja na elaboração do Esquema XIII, que se tornaria Gaudium et Spes, a "Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Moderno" do Concílio Vaticano II.

O arcebispo francês Arthur Elchinger reconheceu explicitamente isso na Quarta Sessão do Concílio, caracterizando Gaudium et Spes como o esforço da Igreja para "fazer sua 'revisão da vida' em relação ao mundo".

O quanto isso é relevante para o Sínodo sobre os jovens que ocorre atualmente?

É evidente, a partir do Instrumentum Laboris e dos relatórios de imprensa das sessões do Sínodo, que tem sido feito um excelente trabalho na tentativa de compreender e responder à experiência vivida pelos jovens de hoje.

Até que ponto, no entanto, os participantes - bispos, especialistas e auditores - procuraram compartilhar, avaliar, inspirar os outros e se inspirar em suas próprias experiências de trabalho com jovens?

Sem dúvida, muito disso aconteceu de maneira informal. Mas o exemplo do grupo “Igreja do Pobres” ilustra claramente o valor e o poder de fazer isso como parte de uma “revisão da vida” sistemática, organizada e regular.

À medida que o final do Sínodo se aproxima, há tempo suficiente para que seus participantes utilizem esse modelo. Aqui, é possível observar como eles poderiam fazer isso.

Cada participante do Sínodo precisará se comprometer com uma ação pessoal específica e passível de revisão a ser tomada quando voltar para casa.

A nível local, cada participante precisará formar (ou participar) e trabalhar com uma equipe de colegas para revisar e desenvolver essa ação.

Eles precisarão se comprometer em manter contato entre si e suas equipes para acompanhar a implementação das resoluções do Sínodo a nível global.

Apesar de toda a importância acerca da preparação do documento de conclusão do Sínodo, esse pode significar apenas um primeiro passo. Como os membros do grupo “Igreja dos Pobres” entenderam, o “ver-julgar-agir” da Igreja institucional precisa ser fundamentado a partir de seus líderes e membros.

É assim que o método de Cardijn deveria funcionar. É também o que ele quis dizer quando falou aos jovens trabalhadores que “não estamos fazendo uma revolução. Nós somos a revolução”.

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