O padre casado que ajuda a Igreja nos casos de abusos

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23 Outubro 2018

Damian Vallelonga, 80 anos, é um psicólogo norte-americano filho de imigrantes italianos que, entre outras coisas, colabora com a Diocese de Syracuse no estado de Nova York.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicado pelo jornal La Repubblica, 19-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O bispo pediu-lhe que trabalhasse com padres acusados de abusos sexuais para avaliar do ponto de vista psicológico a fundamentação das acusações. Ele é um especialista em casos de criminosos sexuais. Ele sabe como tratar indivíduos que cometeram crimes de natureza sexual.

Até aqui nada de estranho, principalmente em tempos em que o surgimento de casos de abusos cometidos por sacerdotes nos EUA obrigou muitas dioceses a reagir. O que, no entanto, poucos sabem é que Vallelonga, além de psicólogo, é padre. Mais especificamente, um padre casado. Ele deixou o ministério sacerdotal anos atrás, sem nunca ter sido oficialmente dispensado do estado clerical. Ele não mais exerceu, embora, do ponto de vista institucional, ainda seja sacerdote. Depois de ser colocado à margem justamente por causa da escolha de viver com uma mulher, Vallelonga tornou-se novamente "útil", um recurso que poderia abrir novas perspectivas para cerca de cem mil padres casados em todo o mundo, 5 mil só na Itália, o mesmo número nos Estados Unidos.

A história de Vallelonga é uma das mais significativas contidas no livro de Enzo Romeo, editor-chefe e especialista em Vaticano do TG2, intitulado "Lui, Dio e lei” (Ele, Deus e ela, Rubbettino). Romeo dá a palavra aos protagonistas, padres que deixaram o ministério pelo amor de uma mulher. São sacerdotes que, em grande parte, contestam a obrigação do celibato afirmando o fato incontestável que é apenas uma norma introduzida pela Igreja em um determinado momento histórico e que, portanto, o celibato não está desde sempre ligado à essência do ministério sacerdotal.

Vallelonga era um padre estimado nos EUA. Ele estudou em Roma, na Gregoriana, durante os anos do Vaticano II. De volta aos Estados Unidos, ele começou a notar muitas contradições entre os impulsos de renovação vivenciados nos anos romanos e os fechamentos da Igreja local. O golpe de graça veio, para ele, pela Humanae Vitae, a encíclica em que Paulo VI declara inaceitável o uso dos meios de contracepção. "Paulo VI – ele explica - não levou em consideração a opinião da maioria dos especialistas que considerava legítimos métodos artificiais de controle de natalidade, mas assumiu a opinião minoritária que os considerava proibidos, elaborada pelo cardeal Wojtyla".

Vallelonga defendia, junto com outros teólogos, uma nova visão da sexualidade conjugal para a qual a mútua complementaridade do casal é um valor igual à procriação e não submetido a ela. A Humanae Vitae fez com que ele vacilasse. Ele apelou para a tese expressa pelo jesuíta Giles Milhaven, segundo a qual um comportamento é certo ou errado não por causa da vontade ou dos ditames do legislador, mas porque produz o bem ou causa danos a si mesmos ou aos outros. Ele disse que, de acordo com a abordagem empírica da teologia moral, não se comete automaticamente pecado realizando determinados atos sexuais fora do casamento ou orientando a sexualidade conjugal além da mera procriação. "Em uma conferência - ele relata – eu mantinha aberta a possibilidade que mesmo a masturbação não fosse necessariamente pecaminosa".

Abram-se os céus. Ele foi advertido pela chancelaria diocesana e convidado a modificar seu pensamento. Naquele momento, ele entendeu que o sacerdócio não era seu caminho. Ele se matriculou em psicologia, se casou, fez outras coisas. Mas hoje, depois de anos de oposição, a Igreja decidiu reconvocá-lo: de "padre sem batina" tornou-se um recurso. Conta Rosario Mocciaro, presidente da Vocatio, uma associação de padres casados e suas respectivas esposas, dentro da "A Escolha, os padres e o amor", a enquete televisiva sobre o tema conduzida pelos jornalistas investigativos Mondani e Autieri: “Somos um recurso que hoje não tem mais nenhuma pretensão. Como padres casados, sabemos que ainda podemos dar muito à Igreja."

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