Empecilho russo no diálogo entre católicos e ortodoxos pode estar desaparecendo

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21 Outubro 2018

Em algum momento no início dos anos 2000 eu estava na Rússia procurando um jornalista que tinha um jornal católico. Infelizmente, na época o jornal estava fechando. 

A tradução é de John Allen Jr., publicada por Crux, 20-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

O problema não era a circulação e nem os anúncios no jornal. Ambas as coisas estavam indo bem. O problema, pelo contrário, era que as pessoas estavam lendo o tal do jornal.

Tão surreal quanto possa parecer, houve uma determinação do embaixador papal na Rússia de que visibilidade demais para um jornal católico que apresentasse um tom provocativo poderia atrapalhar as delicadas relações ecumênicas entre as duas igrejas.

É um pequeno exemplo de um cenário bem maior sobre o modo como a reação dos russos dominou, por muito tempo, o pensamento do Vaticano sobre quase todas as questões eclesiásticas envolvendo a esfera da ex-União Soviética, tanto na vida interna da comunidade católica quanto nas relações ecumênicas com outras igrejas ortodoxas.

É algo bem lógico, uma vez que para Roma conseguir qualquer progresso no diálogo entre católicos e ortodoxos parecia não haver outra alternativa a não ser enfrentar, e criticar, naturalmente, a ortodoxia.

Uma vez que a Igreja Ortodoxa Russa se apropriou de dois terços dos cerca de 270 milhões de cristãos ortodoxos no mundo, bem como da preponderância do clero, de dinheiro e de infraestrutura, se poderia facilmente dizer que todos os caminhos davam em Moscou.

Ao menos até quinta-feira passada.

No dia 11 de outubro, cobrindo décadas de especulação, atrasos, ruminação teológica e políticas eclesiásticas de risco, o Patriarcado de Constantinopla reconheceu a Igreja ortodoxa da Ucrânia como “autocéfala”, isto é, independente e, portanto, não mais sujeita à autoridade do Patriarcado de Moscou.

Quatro dias mais tarde, Moscou anunciou uma ruptura na comunhão com Constantinopla, o que significa que as duas igrejas não reconhecem mais o clero, os sacramentos e as liturgias uma da outra. Quanto ao motivo dessa decisão, Moscou alegou que Constantinopla caiu em heresia.

Enquanto as recriminações e os anátemas continuam a reverberar, a pergunta que fica é sobre o que virá em seguida. Parece razoavelmente claro que a intenção principal de Constantinopla é a unificação das três ramificações da ortodoxia na Ucrânia, duas delas consideradas anteriormente como “separatistas” e uma delas que esteve, até agora, sob o comando de Moscou.

Uma pesquisa recente na Ucrânia mostrou que uma maioria significativa do público apoia essa decisão, que surge num momento em que a conduta nacional para afirmar a identidade da nação está especialmente forte devido à invasão russa na parte leste do país. Cerca de 42% da população vê a ideia de unificação como “completamente” ou “possivelmente” positiva, com apenas 19% contra, e o resto se coloca como indiferente.

Caso isso ocorra, as consequências serão sentidas ao menos em quatro níveis:

  • No nível pastoral, em termos de vida eclesiástica cotidiana;
  • No nível cultural, em termos do que isso significaria para o conhecimento de si por parte da Ucrânia;
  • No nível geopolítico, em termos de como isso colocaria a Ucrânia e a Rússia frente a frente, e como a Rússia reagiria à situação;
  • E no nível ecumênico, em virtude de como isso reformularia o diálogo entre a ortodoxia e o resto do mundo cristão.
  • Em termos de políticas vaticanas, certamente o último nível será o que mais trará consequências.

Em recente entrevista ao Crux, o arcebispo Sviatoslav Shevchuk da Ucrânia, chefe da Igreja católica grega do país, afirmou “essa atitude da Igreja de Constantinopla destruiu alguns diálogos ecumênicos que perduraram desde a época da Guerra Fria.”

“O interlocutor primário e privilegiado desse diálogo no contexto da Guerra Fria e da Ostpolitik sempre foi Moscou,” disse ele. “O diálogo com todo o mundo ortodoxo seguia essa mesma direção. Agora, isso tem de ser repensado, não somente em termos de como conduzir o diálogo, fator que já foi atualizado, mas o conceito inteiro tem de ser repensado.”

Em relação aos motivos para isso, é relativamente simples: se a concessão de independência de Constantinopla se sustentar, a Igreja Ortodoxa Russa não será mais o maior problema do mundo pois uma forte parcela de suas paróquias, de seu clero e de seus fiéis está na Ucrânia. Se a unificação acontecer, repentinamente a Igreja ortodoxa na Ucrânia se tornará praticamente igual a de Moscou em questões numéricas, talvez com maior liberdade de movimento porque não estaria tão fortemente ligada ao estado, como historicamente foi o caso do Patriarcado de Moscou.

Em outras palavras, o Vaticano teria um novo parceiro de diálogo que tende a ser mais aberto e flexível.

No momento, alguns observadores ortodoxos acreditam que, se a Ucrânia de fato sair da órbita de Moscou, isso deve fortalecer a possibilidade de que um candidato conservador se torne o próximo patriarca, como o metropolita Tikhon Shevkunov, de Pskov. Caso isso ocorra, os ortodoxos russos podem se afastar do enfrentamento ecumênico exatamente no momento em que um novo protagonista ortodoxo está surgindo - com o apoio quase certo de Constantinopla.

Isso quer dizer que podemos estar testemunhando o nascimento de uma nova relação católica/ortodoxa, na qual nenhuma igreja do lado ortodoxo possui um veto efetivo sobre onde a relação pode chegar. Mesmo que isso não garanta automaticamente o progresso, é uma situação na qual futuros desenvolvimentos não serão apenas uma aposta fadada ao fracasso.

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